O rei do país chamado Serendip, próximo da morte, chamou os três filhos e revelou: havia nas terras do reino um tesouro muito próximo da superfície. Terminado o funeral, os príncipes mobilizaram os homens para cavar e revirar a terra do país. Após anos de trabalho, nenhum baú foi encontrado, mas as terras ficaram aradas e preparadas para grandes colheitas. Ninguém mais passou fome e fortunas foram estabelecidas. Na sabedoria do rei, quando procura-se e não desiste, quando se prepara para alguma coisa, ela será detectada e, às vistas de outras pessoas, vai parecer sorte.
A partir deste rei, tudo que acontece por “acaso” - quando captado pelas mentes preparadas - e traduz-se em novas descobertas passou a ser chamado de Serendipidade. O país Serendip mudou seu nome para Ceilão e atualmente, Sri Lanka. Na ciência e na vida, descobertas e fatos por “acidente” ou “acaso” não existem. O que existe é sagacidade, fino senso de observação e grande capacidade de deduzir sobre o que acontece ao nosso redor.
As descobertas atribuídas ao “acaso” ou “por acidente”, agora sabe-se: foi serendipidade. Quando um fenômeno é detectado e adequadamente interpretado, pode gerar teorias e inventos. Quantas maçãs não caíram sobre a cabeça de pessoas antes de Newton formular a lei da gravidade! Mas, sua mente preparada permitiu uma interpretação adequada. Isto se chama “serendipidade”.
No campo da observação, o acaso favorece apenas a mente preparada. Para o físico Joseph Henry, as sementes das grandes descobertas estão constantemente flutuando em torno de nós, mas só criam raízes nas mentes bem preparadas para recebê-las. A ciência progrediu muito graças à serendipidade.
Em civilizações antigas, os pães embolorados foram utilizados com sucesso no tratamento de feridas irreparáveis, mas quem diria que antibióticos produzidos pelos bolores/fungos destruíam as bactérias? Ninguém tinha “cabeça” ou preparo mental para entender o que estava acontecendo ali.
Em 1928, Fleming ao retornar ao laboratório após dias, observou a presença de fungo em placas de vidro com culturas de bactérias sem permitir o crescimento delas. Sem o fungo por perto, as bactérias cresciam. Sua mente preparada percebeu que o fungo produzia uma substância inibidora do crescimento bacteriano denominada penicilina, pois o fungo era o Penicillium notatum. O primeiro antibiótico foi uma das descobertas mais importantes para a humanidade. Mas culturas bacterianas já haviam sido contaminadas pelo fungo e as pessoas não estavam preparadas para interpretar. A serendipidade parece ser faísca para o conhecimento e o raciocínio iluminarem um “acaso”.
O conceito de serendipidade pode ser aplicado em qualquer setor da vida. Serendipity foi o nome do filme para explicar um encontro casual (traduzido como Escrito nas Estrelas no Brasil). Quantas vezes ao procurar uma palavra no dicionário encontramos outra, quase por “acaso”? Quantos livros encontramos por “acaso”? A mente preparada tem lugar para a serendipidade, mas depende de tempo para pensar, refletir, interpretar e desdobrar dados, observações e resultados, inclusive com extrapolações para o lado pessoal, emocional, criativo e artístico.
Muitos acreditam que “sorte” favorece algumas pessoas, que o destino facilita a vida de alguns colocando os “acasos” em suas descobertas. Na verdade a “sorte” e o “acaso” ocorrem na vida de todos, mas apenas alguns poucos os detectam e aproveitam, pois suas mentes estão preparadas para interpretar e desdobrar atitudes, processos e inventos. A serendipidade na evolução da ciência e da humanidade tem se mostrado essencial. Mas não o “acaso”.
A sua mente está preparada para a serendipidade? Assim nascem os grandes encontros para ter amigos e amores, mas muitos não estão preparados. Que pena!
Alberto Consolaro é professor titular da FOB-USP e escreve todas as segundas-feiras no JC