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O mal que aflige

Marcondes Serotini Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Dizia o autor do poema “O Tédio,” que a doença que o pungia, o mal que lhe afligia a alma, fazia urgência a cura. O paciente participava de uma sessão de terapia com um doutor, que parecia meio perdido diante de tantos sintomas de um quadro típico de depressão, associado a uma síndrome do pânico e otras cositas más ...

Este poema era a peça primeira daqueles que pretendiam fazer um curso de teatro amador no começo do século passado, ou então enveredar pela vida circense, na pele de um palhaço. Sim, “O Tédio” é uma ode ao fundo do poço, declamada por um palhaço. Por isso, quem tem seus 50, 60 anos, sabe do que estou falando. Este senhor há de ter ouvido, debaixo das lonas de um circo, um Arlequim chorar suas agruras.

Estamos todos, terapeutas da alma, dos rins ou dos dentes, perdidos em meio às reações psicossomáticas que teimam em não sumir, desde o tempo da declamação d’O Tédio. Acontece que ninguém quer saber do mal que nos aflige, e se o quer, o faz profissionalmente, com o auxílio de medicamentos ou de técnicas protocoladas.

Falta o envolvimento de uma ciência milenar que auxilie o doutor a encarar cada paciente de maneira diferente. Este paciente precisa de 5 minutos de conversa por ser prático, racional e afobado. Já aquela senhora padece de um mal maior, porque sua filha está presa na cadeia e só lhe causou dissabores na vida. Ela não será tratada com antibióticos, diazepans ou cataflans; precisará de um chá verde ou de qualquer outra cor que a faça ver novamente coloridos na vida que lhe virou a cara. E existe este chá, que vem acompanhado de uma bolachinha sábia de quem vai tratar daquele ser com a cultura de sua superioridade técnica e existencial. Existe este tratamento diferenciado, que não é ministrado por médicos nem gurus, nunca em Prontos Socorros e jamais em cerimônias pseudo-religiosas.

Esta graça sob a forma de uma cura deveria fazer parte da evolução de nossa, raça que recebeu milhares de dados e informações ao longo de sua caminhada pelo solo terrestre, uma época com rabo e outra sem. Porque será que poucos são aqueles que conseguem transmitir esta calma no tratar, esta serenidade no ouvir, esta gentileza no agir.

Deveriam ser populações inteiras aquelas formadas por gente simpática, positiva e ciente de que fazemos parte de um grande enredo, cujas peças são impossíveis de serem dissociadas. Mas somos feito manada. Ou enxame. Ou cardumes. Seres que não pensam na direção da fraternidade como propulsora de um mundo melhor. Não, não tenho a receita e todos sabem da minha ojeriza por modelos de auto-ajuda que servem para todos, indistintamente.

O mal do século, que foi decantado por Lord Byron e pelos românticos, se manteve hirto e coeso através dos tempos, mudando apenas de roupa, mas mantendo o DNA intacto e, este sim, evoluído. Ora foi a tuberculose, causadora de sofrimentos terríveis, ora a depressão frente à morte e as pestes que dizimavam populações inteiras.

No nosso tempo, onde poderíamos usufruir de nossa capacidade de organização, ciência e bem-estar, passamos a vida procurando um jeito de ser feliz que não nasce de dentro da gente, não é genuíno e escapa da nossa essência. É imposto por um modelo que já foi previsto por profetas e visionários, que anteviram uma grande força ou poder impondo nas cabeças uma vontade massificada, consumista e voraz.

Certo estão os poetas e filósofos, que se põem a raciocinar com aquilo que Deus deu de mais sagrado a nós. A capacidade de perceber, na exata hora em que a encontramos, uma ou mais razões para viver. Ou enlouquecer feliz, dentro de um mundo que ignora uma força que não seja aquela tocada do sangue que corre célere dentro das nossas veias.

O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e colaborador do Jornal da Cidade

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