Passada a campanha eleitoral, onde uma multiplicidade de partidos políticos expôs as suas ideias, chamando-as de princípios e de ideologias, fica difícil imaginar como é possível acreditar e defender tais ideias. Uma delas é a que propõe a substituição do agronegócio pela agricultura familiar. O agronegócio, nesse contexto, são as grandes propriedades agropecuárias. Deixaram de ser simplesmente produtoras agrícolas e criadoras de animais para serem empresas, como as indústrias. Essa mudança se deu pelo emprego de novas tecnologias, mecânicas e genéticas, e pela absorção dos novos conceitos de administração e negócios. Para ser um agronegócio não é preciso, necessariamente, ser grande, mas a implicância não é propriamente com ser agronegócio e sim em ser grande. Desse modo, ser contra o agronegócio é ser contra a grande propriedade agropecuária.
O agronegócio é consequência da urbanização, do êxodo rural, que separou o consumo da produção de alimentos. Foi com o início da era industrial, a partir de 1750, na Inglaterra, que se iniciou o fenômeno social da urbanização, espalhando-se pela Europa e pelos Estados Unidos. Mesmo com a China, Índia, países asiáticos e da África tendo grande população rural, em 2008, a população urbana mundial se igualou à população rural. Aqui no Brasil, em 1950, quando começaram a se desenvolver as indústrias, a população rural representava 64%. A partir daí vem caindo. Em 2000 era pouco mais de 18% e agora as projeções dão algo em torno de 15%, ou seja: 28,5 milhões na zona rural contra 161,5 milhões nas cidades. Enquanto isso, a população vem aumentado, passando de 51,941 milhões em 1950 para os quase 190 milhões de hoje. O mesmo vem acontecendo com o mundo: de 1 bilhão em 1802 para aproximadamente 7 bilhões agora, com taxa de urbanização mais acelerada nos países subdesenvolvidos. Resumindo: menos gente para produzir e mais gente para consumir alimentos.
Em outubro realizou-se em São Paulo o II Fórum Inovação - Agricultura e Alimentos, promovido pela FAO - Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Os debates mostraram que apesar de haver diminuído nos últimos tempos, ainda há 925 milhões de pessoas famintas no mundo. Aqui no Brasil, de um percentual de 20% de desnutridos no período 1990/92 passou-se a 16% em 2010, o que ainda corresponde a aproximados 30,4 milhões de patrícios desnutridos, apesar do bolsa família. Esses dados indicam que a primeira meta do milênio, de erradicar a extrema pobreza e a fome até 2015 está longe de ser cumprida. Para complicar, o Banco Mundial está alertando o mundo para o risco de uma crise alimentar. E quem poderá fazer frente a esse problema a não ser o execrado agronegócio?
Para defender a agricultura familiar não é necessário ser contra o agronegócio. Cada um tem a sua necessidade e o seu espaço no mercado. Quando você vê dezenas de colheitadeiras alinhadas avançando sobre os campos de soja ou de milho, não dá para imaginar mutirões de trabalhadores arrancando feijão com as mãos ou colhendo o milho manualmente, como se fazia e ainda se faz nas pequenas propriedades. Os produtos agrícolas que se tornaram commodities, como soja, milho, arroz, feijão, açúcar, suco de laranja, assim como a carne, dependem da grande propriedade. É ela que vem transformando o serrado em terras produtivas, coisa que dificilmente poderia ser feita pelos pequenos produtores. Com o uso das novas tecnologias vem sendo possível aumentar a produtividade da terra, dando um salto de 240% na produção de grãos, de 1975 a 2009, com apenas um aumento de 44% de área expandida. A agricultura familiar garantia a alimentação da população rural, mas não tem condições de alimentar a população das cidades, a não ser com produtos de consumo in natura, como os hortifrutigranjeiros.
Qualquer pessoa que olhe o assunto sem ideias preconcebidas não terá dificuldade de compreender que: a urbanização é um processo irreversível; a produção agropecuária, como a industrial, precisa tanto da grande propriedade como da pequena, cada uma naquilo que lhe é mais adequado; o grande agronegócio não deve ser confundido com latifúndio, que é terra de exploração imobiliária, enquanto o agronegócio, pela própria natureza, é uma propriedade rentável; tanto a agricultura familiar como o agronegócio precisam da atenção do governo para o desenvolvimento do Brasil e diminuição dos seus subnutridos.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras