Se existem valores dos quais a vida moderna aceleradamente vem se desvinculando, não há dúvidas de que o da lealdade está no topo do pódio. Artigo de luxo no agitado dia-a-dia contemporâneo, esse nobre sentimento parece fadado a cair em desuso: ligações amorosas se definem por um “ficar” sem compromissos, casamentos duradouros são cada vez mais raros, irmãos guerreiam pelo poder em empresas familiares e troca-se de emprego ou profissão sem pensar duas vezes, por conta de umas moedas a mais no holerite mensal.
Em suma, estamos vendo desaparecer na prática qualquer vestígio de fidelidade às “bandeiras pelas quais vale a pena viver ou morrer”, como pregava São Tomás de Aquino. E o primeiro reduto onde essa filosofia do levar vantagem em tudo ganha corpo é o das amizades: em nome da fama ou da riqueza, metas impostas pela modernidade, o ser humano não titubeia em reescrever sua própria história, renegar origens e trocar amigos de anos por parceiros de ocasião, mais úteis aos seus propósitos na busca pelo sucesso fácil.
No âmbito da política, a situação não é diferente. Isso fica mais claro especialmente quando o poder troca de mãos e muitos dos nossos políticos se incumbem de reforçar as fileiras dos que se deixam guiar por um imediatismo preocupante. E nessa ciranda de interesses, autêntico corre-corre desenfreado em busca de preservar espaços que lhes permitam acomodar suas ambições pessoais, eles acabam correndo o risco de atropelar a ética e a coerência que deveriam sustentar seus projetos políticos.
Não deixa de ser desalentador constatar que, nos dias que correm, o quadro parece irreversível, em todos os campos do relacionamento humano. Por isso mesmo, chama a atenção uma liderança política que, ao longo dos anos, tem pautado sua atuação por um comportamento exatamente na contramão dessa tendência dominante: o deputado estadual Campos Machado, presidente do PTB de São Paulo e líder da bancada do partido há 20 anos, fato esse sem precedentes na história da Assembléia Legislativa paulista.
Em todos os pronunciamentos de sua vida pública, Campos Machado faz questão de enfatizar seu compromisso com a lealdade. Mais importante, no entanto, são as demonstrações cabais de que essa postura, autêntica marca de sua carreira política, não é mera peça de discurso, mas se consuma na prática. E a deduzir-se por seu crescente sucesso eleitoral – cinco reeleições, uma delas inclusive como o deputado mais votado do país –, seus pares deveriam refletir um pouco mais sobre a importância de manter-se fiel a princípios.
Agora mesmo, nas últimas eleições, ele teve mais duas oportunidades – e não as perdeu – de evidenciar o quanto valoriza a lealdade como fator preponderante nas relações políticas. A primeira, com o apoio decidido e irrestrito que dedicou à candidatura de Geraldo Alckmin, de quem é histórico aliado, ao governo paulista; a segunda, com a decisão de manter e levar adiante a campanha pela reeleição do senador Romeu Tuma, mesmo sabendo de seu frágil estado de saúde e contra pressões e interesses de todos os lados.
O apoio a Alckmin é definido pelos mais afoitos como óbvio, por tratar-se da repetição de uma parceria constante durante seus seis anos de governo em São Paulo. Mas é bom lembrar que Campos Machado não esteve com o governador apenas em seus momentos vitoriosos: nas duas eleições em que o líder tucano perdeu a disputa pela prefeitura paulistana, a última em 2008, quando - todos sabem - foi cristianizada em seu próprio partido, o petebista estava lá, além da condição de candidato a vice, como um amigo de todas as horas.
Já ao empenhar-se para manter a candidatura de Romeu Tuma ao Senado, o líder petebista revelou coragem e sensibilidade política. Desde que o senador teve a saúde agravada, seu apoio e a retirada de sua candidatura interessavam a todas as forças políticas em disputa na acirrada eleição. Mas Campos Machado resistiu a todas as investidas e manteve o compromisso com Tuma de levar a campanha até o fim, contra tudo e todos, permitindo-lhe saborear, ao final da vida, a honrosa votação de quase quatro milhões de eleitores.
Gestos como esses estabelecem diferenças fundamentais entre os homens públicos. Através deles, podemos identificar quem é movido por verdadeiros ideais e os que se escondem atrás de discursos falaciosos para justificar mudanças paradoxais de posição. Ou seja, é estimulante saber que, na hora de escolher aqueles que, em última análise, comandam os nossos destinos, ainda há gente que não se deixa levar por interesses momentâneos e nem sucumbe às pressões, por mais poderosos que sejam os que as exercem.
O autor, José Maria Marin, é advogado, atual vice-presidente da CBF, e ex-vereador e presidente da Câmara Municipal de São Paulo,deputado estadual, vice-governador, governador e presidente da FPF