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Geração da progressão continuada chega aos bancos universitários

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

Há 12 anos era implantada a progressão continuada nas escolas públicas do Estado de São Paulo. Nesse tempo, formou-se uma geração de alunos que, desde o ano passado, começou a ingressar nas universidades. É uma geração que desde o início da vida escolar teve seus passos guiados pelos padrões educacionais do método pedagógico que permite avanços sucessivos e sem interrupções nas séries, ciclos ou fases.

Mas com o diploma em mãos, esses alunos precisam enfrentar uma realidade totalmente diferente do que estavam acostumados. Para aqueles que querem continuar com os estudos, é chegada a hora de encarar um curso universitário. E na faculdade não há progressão continuada. Independentemente do curso escolhido, a cobrança costuma ser bem maior do que ocorre no ensino fundamental e médio.

Logo de início, cobra-se muita leitura e produção de textos. Duas habilidades que os professores universitários ouvidos pela reportagem estão tendo grandes dificuldades para encontrar nos alunos recém-aprovados nos vestibulares.

“Esse é um problema que sentimos logo de cara, o da leitura e interpretação de texto”, revela Thaís Cristina Rodrigues Tezani, vice-coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Segundo ela, o aluno que chega à universidade tem de se adaptar a essa nova proposta. “Ele vem de um ritmo escolar que é diferente do ensino superior. Nós necessitamos de algumas habilidades que eles não têm. Por isso, temos de desenvolvê-las durante o curso”, diz.

Para Marcia Cristina Argenti, coordenadora do curso de pedagogia da Unesp, os primeiros anos dos cursos superiores são compostos por disciplinas de fundamentos, que exigem muita leitura e envolvem questões históricas e filosóficas.

Ambas são professoras do primeiro ano do curso de pedagogia. “Nesse contato com os alunos ingressantes percebemos que precisamos de um esforço cada vez maior para inseri-los no mundo acadêmico e científico, de criar neles o hábito da leitura e da escrita”, comenta.

Por causa dessa formação deficitária, a Universidade do Sagrado Coração (USC) implantou há três anos um programa de aprimoramento com o objetivo de sanar parte das dificuldades enfrentadas pelos alunos e, ao mesmo tempo, desenvolver neles habilidades necessárias para um bom aproveitamento do curso.

“A disparidade da formação é muito grande comparando com as exigências acadêmicas”, diz o professor José Rafael Mazzoni, coordenador do programa. “Nós sabemos que há alunos com diploma de ensino médio, mas são semianalfabetos ou analfabetos funcionais. Muitos não gostam de ler, não gostam de escrever e a universidade prioriza isso”, aponta.

Segundo ele, quando o aluno não consegue avançar na universidade é dever da instituição oferecer todas as oportunidades para que ele supere as deficiência trazidas do ensino médio.

Implementação

Para a diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Suzi da Silva, o aluno é vítima de um programa mal implementado. Na opinião dela, faltou treinamento e capacitação dos professores para pôr em prática o que, de fato, é a progressão continuada. “No estado, a progressão é uma catástrofe. Estamos formando uma geração de analfabetos. Eles saem com diploma na mão, mas sem nenhum conhecimento”, critica.

A diretora diz que ainda dá para reverter os reflexos negativos da progressão, mas, segundo ela, é preciso disposição do governo do Estado em assumir que ele errou na implantação, ver onde está o erro e corrigir. “A única forma de fazer isso é ir onde está o problema e conversar com quem convive com ele todos os dias”, sugere.

Para Maria Márcia Malavasi, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a progressão continuada tem um grande peso na lentidão do alunos, mas não é o único motivo. Segundo ela, a falta de incentivo de muitos pais e de capital cultural (experiências que estimulam o aprendizado) também dão uma contribuição valorosa ao déficit educacional dos alunos.

Estado vê avanço

De acordo com a Secretaria de Estado da Educação, a implantação do modelo de progressão continuada, organizada por ciclos de aprendizagem, busca, desde o início, rever as condições garantidas pela escola para que as aprendizagens ocorram com redirecionamento do trabalho do professor, do que tem de ser avaliado, questionado, revisado e repensado nos seus pontos frágeis, a partir dos avanços ou dificuldades apresentadas pelos alunos.

Ainda segundo a secretaria, os últimos dados apresentados pelo Centro de Informações Educacionais (CIE/SEESP) demonstram que houve uma melhora no desempenho escolar dos alunos. Portanto, o sistema estaria caminhando na direção desejada.

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Falta de capital cultural influencia

O déficit educacional exibido atualmente por uma parcela dos alunos que estão chegando à universidade é resultado de uma soma de fatores e não apenas da progressão continuada. A avaliação é da professora Maria Márcia Malavasi, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo ela, a progressão continuada tem um peso significativo na formação precária dos alunos, mas outros fatores como falta de incentivo à leitura dentro de casa e de um capital cultural mais apurado também reflete no nível de conhecimento.

“Um único fator não explica. É preciso analisar todo um conjunto de fatores que, somados, explicam o que acontece com essa geração. A progressão continuada é um item nessa soma de fatores desfavoráveis”, diz a professora.

Para Maria Márcia, é preciso ressaltar que não é somente a escola que faz a diferença no aprendizado do aluno. Segundo ele, as pessoas ingressam na escola em situações diferentes, ditadas pela própria vida e pelas oportunidades que teve.

Uma criança que, desde pequena, tem os pais que leem para ela todas as noites, terá uma capacidade maior de leitura e de interpretação de texto, segundo ela. O mesmo pode ser dito a respeito das crianças que vão ao teatro, ao cinema, a bibliotecas, etc. De acordo com a professora, elas têm uma tendência de acumular um capital cultural muito maior do que aquela que não tem nada disso.

Outra questão que influencia é onde o estudante prende sua atenção. Atualmente, ela está mais ligada à Internet, uma ferramenta que virou febre, principalmente entre jovens e adolescentes. “Eles ficam muito tempo fechado, sem uma relação com outros colegas. Isso não é bom para a formação porque nessa faixa etária aprende-se muito mais na relação com os outros do que isoladamente”, afirma.

Segundo a professora, independentemente de ser aluno de escola pública ou privada, hoje, os alunos apresentam muitas dificuldades porque suas condições de acesso ao conhecimento são bastante limitadoras. Para Maria Márcia, a Internet é um excelente veículo de informação, mas não de interpretação, nem de análise de mundo e nem de formação humana.

Sobre a progressão continuada, a coordenadora da Unicamp diz que não causa nenhuma surpresa ver que os alunos estão ingressando no ensino superior com problemas de leitura e de interpretação de texto, entre outras deficiências.

“Trata-se apenas de uma infeliz constatação daquilo que nós havíamos denunciado há muito tempo”, comenta. “Uma política pública que aprova todos os alunos independentemente de seu conhecimento, alguma consequência traria”, frisa.

Segundo ela, na verdade, a questão não é aprovar ou reprovar o aluno, mas oferecer a ele um ensino de qualidade. “É uma política pública sem nenhum compromisso com a qualidade de ensino. Isso vai ter consequência na vida do indivíduo por muito tempo ou, melhor dizendo, para sempre”, observa.

“Por isso, não é estranho que professores estejam constatando que os alunos hoje não têm muita autonomia. Isso é fruto da história de vida e escolar desses estudantes que passaram pela aprovação automática ao longo da vida”, critica.

De acordo com a professora, não se trata de um ou outro ano escolar em que as coisas não foram bem na vida do aluno, mas de toda uma fase da vida deles. “Aliado a isso, temos a má formação dos professores, as péssimas condições de estrutura das escolas, de recursos pedagógicos. Tudo isso tem consequência na vida dos estudantes”, aponta.

Na opinião de Maria Márcia, a tendência é a situação continuar como está por um bom tempo ainda. Isso, segundo ela, porque não se discute a melhoria na qualidade de ensino, mas fala-se apenas em aumentar o tempo de permanência do aluno na escola e se deve reprovar ou não.

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