A implantação da progressão continuada na organização do ensino fundamental em ciclos nas escolas da rede pública estadual paulista constitui parte de um longo processo de discussão e debate sobre os prejuízos causados pela retenção e evasão, tanto no plano dos sistemas de ensino quanto no plano social, familiar e pessoal. O argumento é da Secretaria de Estado da Educação.
A progressão foi implantada em São Paulo em 1998. Na opinião de especialistas, é uma metodologia pedagógica avançada por propor uma avaliação contínua e abrangente, além de basear-se na ideia de que reprovar o aluno sucessivamente não contribui para melhorar seu aprendizado.
De acordo com a secretaria, as pesquisas têm demonstrado que o desempenho escolar dos alunos retidos fica aquém do apresentado pelos estudantes promovidos regularmente ao fim do ano letivo.
Além disso, justifica a secretaria, a retenção traz sérios problemas para o aluno e sua família, para o sistema e até para a sociedade. O estudante tem sua autoestima rebaixada, acredita-se incapaz de aprender e é retirado do seu grupo etário que dá sustentação emocional e favorece a construção da sua identidade.
Outra justificativa usada pela secretaria é que o sistema arca com os altos custos financeiros provocados pela retenção e evasão de alunos. Enquanto isso, a sociedade arca com os custos sociais de um contingente de crianças e jovens fora da escola, até engrossando as estatísticas de violência.
Diante disso, a secretaria de Estado diz que continua acreditando que a progressão continuada é o melhor caminho para garantir o direito de todos a uma educação de qualidade.
Sendo assim, estabeleceu para o Ciclo I (de 1ª à 4ª série) do ensino fundamental um conjunto de ações. Entre as quais, a implantação do Programa Ler e Escrever, visando que todos os alunos de até 8 anos estejam alfabetizados. Também organizou as expectativas de aprendizagem para cada série do ciclo, a fim de referenciar de forma mais sistemática o ensino oferecido aos alunos.
Apeoesp vê falha na aplicação do programa
O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) defende o sistema de progressão continuada. A categoria acredita que, mesmo o aluno que não conseguiu assimilar todo conteúdo de um ano, alguma coisa ele aprendeu e isso deve ser aproveitado.
“Nesse sentido, nós defendemos que ele reveja no ano seguinte os conteúdos que ele não conseguiu assimilar. Na progressão continuada é isso que deveria acontecer”, diz a diretora do sindicato Suzi da Silva. Segundo ela, o sistema foi implementado no Estado de maneira errada. Na sua opinião, faltou treinamento e capacitação dos professores e um melhor entendimento do que é, realmente, a progressão.
“A implantação do sistema não foi planejada, foi uma coisa jogada. E assim não tinha como dar certo”, avalia Suzi. O resultado disso, segundo ela, é que boa parte dos alunos conclui o Ciclo II (5ª à 8ª série) com uma formação deficitária. “Ele é aprovado na escola mas reprovado na vida, porque onde ele vai chegar com esse pouco conhecimento que ele tem?”, questiona.
Dentro da sala de aula, a diretora do sindicato, que também é professora, diz que a disciplina piorou muito e a violência aumentou. Além disso, o direito à recuperação não estaria sendo respeitado. Na progressão, o aluno que não assimilou no fim do ciclo todo o conteúdo necessário tem direito à aula de reforço.
No entanto, segundo Suzi, o tempo para isso é pequeno e a quantidade de alunos excessiva. “Para funcionar, o trabalho tem de ser diferenciado e o professor tem de ter condições para isso, tem de trabalhar com um número reduzido de alunos para ficar mais próximo deles e dar uma atenção especial. Mas isso não acontece”, reclama.
Para a dirigente, o programa em si tem seus méritos, inclusive tem a filosofia que os professores defendem. Entretanto, da maneira como funciona atualmente, o sistema não dá o retorno esperado, ou seja, não permite que a aprendizagem, de fato, aconteça dentro da sala de aula, segundo Suzi.
Na opinião dela, falta diálogo entre governo e professores. “Se o governo conversasse mais com os profissionais envolvidos com a questão educacional, com certeza, ele erraria muito menos”, acredita.