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A rivalidade ostentatória

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Mesmo que cortássemos de uma vez a emissão de gás, o crescimento do efeito estufa, causado pelas liberações anteriores, não seria interrompido imediatamente. Muitos gases de efeito estufa têm estabilidade química de várias décadas e isto significa que suas propriedades perduram por muito tempo na atmosfera.

Por outro lado, os sistemas naturais apresentam uma grande inércia: são sempre lentos em sua transformação, mas, eventualmente, o clima pode se desregular rápido demais para que qualquer ação humana possa corrigir seu desequilíbrio. Por exemplo, pelo derretimento progressivo das geleiras ao reduzir o efeito albedo que limita o aquecimento da superfície. Ou ainda, pelo derretimento do permafrost, uma camada de terra gelada que cobre mais de um milhão de metros quadrados, sobretudo na Sibéria. Com 25 metros de profundidade em média, estima-se que o permafrost armazene 500 bilhões de toneladas de carbono que seriam liberados caso ele derreta. O maior ecossistema do mundo, o conjunto de oceanos, também se degrada de forma visível e rápida. Ele é tratado como um poço sem fundo e começa a mostrar os limites de sua capacidade de digestão dos refugos da atividade humana.

Um fator agravante da crise planetária é a fantástica expansão da China e da Índia nos últimos quinze anos. Agravante pelo fato dessa expansão se somar aos problemas já criados pelos Estados Unidos, Europa e Japão que, juntos, têm menos de 20% da população mundial, mas consomem cerca de 80% da riqueza do planeta. Nestes países a maioria da população vive afastada do meio-ambiente onde começa a se manifestar as fissuras da biosfera; passa boa parte de sua existência em locais fechados e climatizados; vai de carro ao escritório com ar condicionado; abastece-se em supermercados e shoppings sem janelas; distrai-se nos cinemas ou em casa diante da televisão ou do computador. Nestas condições, evidentemente, só se tem uma imagem abstrata dos reais problemas da sociedade que vive no resto do mundo.

Juntos, Estados Unidos, países da Comunidade Européia e Japão agora somados a China e Índia, esgotam a capacidade de recuperação do planeta. É preciso mencionar que o crescimento, desde que sustentável e que não deteriore a biosfera, não é condenável, ele é a concretização da nossa inventividade. Mas, se quiser levar a sério a vida no planeta, a humanidade terá que impor um teto para seu próprio crescimento e para seu próprio consumo. É visível, no entanto, a interrupção no crescimento da economia norte-americana, minada por seus três déficits gigantescos – balança comercial, orçamento e dívida interna. Como um dependente de drogas que só se consegue manter em pé por meio de doses repetidas, os Estados Unidos, intoxicados pelo superconsumo, cambaleiam e carregam consigo a União Européia. Se lembrarmos o precedente japonês que, depois de 20 anos de avanço econômico, ingressa no início dos anos 1990 em um período prolongado de estagnação, não creio que a China, que sofre em sua própria casa os efeitos perversos de seu crescimento desenfreado, sustente de modo durável esse ritmo. Uma crise chinesa repercutiria de forma grave em todo o planeta. O pensador e antigo Professor de Universidade de Chicago, Thorstein Veblen, já em 1891, escrevia: “o motor central da vida social é a rivalidade ostentatória, em que a pessoa visa exibir uma prosperidade superior à de seus pares”.

A corrida pela distinção leva a uma produção bem maior que aquela necessária para o atendimento das “finalidades úteis”. O aumento da produtividade, o crescimento da produção e a necessidade de consumir cada vez mais se retroalimentam. O que comprar quando já se tem um avião e um iate decorados com madeira de lei e mármore? O que comprar quando já se tem fortunas em paraísos fiscais, jóias, luxuosos carros ou apartamentos em Paris e Nova Iorque? Ora, poderia se comprar uma temporada na Estação Espacial Internacional. Talvez, um submarino ou quem sabe, num futuro não muito distante, férias na Lua. É preciso ter sempre mais e para isso, muitos se “apropriam” da riqueza coletiva. Esta casta contribui para aumentar a desigualdade social e puxa para o consumismo exarcebado aqueles que ainda se debatem no desconforto de contas não pagas ou num cotidiano feito de filas, trânsito, violência e um rápido sanduíche.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru

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