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Entrevista da semana: Hermógenes de Oliveira

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Uma história de vida e amor pela música

Qual era a sua brincadeira favorita quando criança? Nada de bola de futebol, ioiô ou estilingue. No lugar dos brinquedos tradicionais da época de infância, Hermógenes de Oliveira colocou bandolim, flauta e violão.

Menino de família musical vinda da Bahia para o Interior de São Paulo, mais especificamente para Pirajuí, ele conheceu e se apaixonou pela música ainda cedo. “O primeiro concerto musical da minha vida ocorreu aos 6 anos de idade, na cidade de Avaí”, conta. Mais tarde, aos 20 anos, Hermógenes já fazia suas próprias composições, sempre músicas românticas ou de cunho religioso.

Tamanho era o seu gosto pela música que ele e alguns amigos de Bauru e Piratininga formaram a orquestra “Melodia Universal”, com a qual realizou bailes e eventos por toda a região entre 1954 e 1962 . “Foi uma época que deixou saudade. Executávamos números musicais com ritmos dançantes, mas era o bolero que mais agradava o público. Com a orquestra, tornei-me um arranjador com experiência”, lembra.

Com a febre do rock and roll que invadiu o País, a Melodia Universal perdeu espaço e Hermógenes passou a trabalhar com turismo. Hoje, ele assina a coluna Discoteca do Jornal da Cidade, e no passado também atuou um bom tempo na imprensa local.

Homem bastante religioso, o entrevistado integra a comunidade da Paróquia de Santa Rita, onde canta e toca em missas e grupos de orações - muitas das canções religiosas executadas por ele são de sua autoria. “Foi na Igreja que conheci minha esposa. Acredito que um homem não pode viver sem religião”.

E por falar em esposa, Hermógenes e Regina Verônica completam 60 anos de casamento no dia 24 de dezembro. O segredo para manter um relacionamento por tantos anos? Confira essa e outras histórias a seguir, na entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Você é um amante da música. Quais foram os seus primeiros contatos com ela?

Hermógenes de Oliveira - Meus pais saíram da Bahia para Pirajuí em 1923, onde nasci em 1927. Eu e meus irmãos fomos criados em um ambiente sadio de família unida e carinhosa. Minha mãe tocava bandolim e estava sempre cantando músicas alegres. Meu pai, Manoel Domingos de Oliveira, tocava bandolim, flauta e violão. Ele me ensinou este último instrumento e comecei a dedilhar o violão até aprender a tocá-lo completamente. Na verdade, minha família tinha músicos baianos muito bons. Posso dizer que éramos uma família muito feliz em todos os aspectos.

JC - Então sua brincadeira de infância era a música.

Hermógenes - Sim. Com 10 anos de idade eu já tocava bem o violão e alguns anos mais tarde comecei a compor músicas. Aos 20 anos, mais ou menos, tive a ideia de formar uma orquestra de dança, a “Melodia Universal”, composta por músicos de Bauru e de Piratininga. Mas o primeiro concerto musical de minha vida ocorreu aos 6 anos de idade, em Avaí.

JC - Essa época deve ter deixado saudades.

Hermógenes - Deixou. Tocamos em várias cidades da região. Executávamos números musicais com ritmos dançantes, mas era o bolero que mais agradava o público. Eu tive a oportunidade de compor mais de 60 músicas de todos os tipos e movimentos e com a orquestra me tornei um arranjador com experiência. No grupo reinava muita camaradagem entre os músicos, muita fraternidade e muita amizade. Os contratos não tinham um valor financeiro muito alto. Tocava-se mais pela alegria de tocar e de mostrar seus conhecimentos, suas aptidões com instrumentos de sopro, coro e vozes, copiando o modelo de grandes orquestras de época.

JC - Estudou música ou aprendeu tudo com a prática mesmo?

Hermógenes - Estudei por conta própria. Busquei trabalhos já existentes e pratiquei com um violão em punho. As composições vinham de minha própria inspiração. Minha esposa Regina Verônica foi a minha musa. Eu saía pela região como empresário, com propagandas debaixo do braço e contratava bailes e festas para a orquestra tocar. Não me esqueço das domingueiras dançantes no Bauru Tênis Clube, Clube dos Bancários... Naquela época, a juventude e muitos casais se reuniam para se divertir e se confraternizar.

JC - Quando a orquestra parou de tocar?

Hermógenes - A orquestra tocou de 1954 até 1962, mais ou menos quando surgiu a onda dos chamados cabeludos com suas guitarras e o rock passou a dominar o ritmo dos bailes da época. Nossa orquestra se dissolveu, como aconteceu com outras famosas, por falta de mercado. Sem dúvida foi uma época de ouro.

JC - Além da música, o que marcou sua juventude em Bauru?

Hermógenes - Eu tive a oportunidade de participar da vida social e esportiva da cidade de Bauru. Por muitos anos fui diretor de relações públicas da Associação luso-brasileira. Fazia a organização de saudosos bailes oficiais e, assim, fiz muitos e grandes amigos. Gravei algumas músicas em vídeo cassete em homenagem ao Clube. Foi uma espécie de recompensa pela grande afeição que eu lhe dedicava.

JC - Também foi um atleta?

Hermógenes - Ah, jogava tênis de campo muito bem, até ganhei alguns troféus e medalhas que ainda guardo.

JC - Como foi sua passagem pela imprensa de Bauru?

Hermógenes - Meu irmão, Valzinho, foi editor do Jornal da Cidade na primeira metade da história do jornal. Trabalhei por muito tempo na imprensa de Bauru e atualmente escrevo a coluna Discoteca do Jornal da Cidade, onde dou dicas ao público sobre os lançamento feitos no mercado de discos. Na antiga PRG-8 Bauru Radio Clube, eu apresentava para o público programas de serestas executados no bandolim, cavaquinho e violão. Músicas que deixaram saudade.

JC - Hoje, qual é o espaço que a música tem em sua vida?

Hermógenes - Toco em missas da igreja da Paróquia de Santa Rita de Cássia e no grupo de oração que temos no bairro. A música é praticamente tudo para mim. Ela eleva a alma e você consegue expressões e sentimentos inexplicáveis por meio dela. Gosto muito das músicas românticas porque elas deixam as pessoas mais leves. É algo diferente e sublime.

JC - O senhor me disse que vai completar 60 anos de casamento. Qual é o segredo para manter o matrimônio por todos esses anos?

Hermógenes - Conhecemos-nos na Igreja, em uma procissão de Sexta-Feira Santa da Praça Rui Barbosa e nos casamos no dia 24 de dezembro de 1950. Hoje em dia os casamentos não duram mais. O segredo é ter o coração voltado para o bem, para o perdão para a compreensão... Hoje em dia as pessoas não se entendem porque não param para compreender uns aos outros.

JC - É um homem religioso?

Hermógenes - Minha família toda sempre foi muito católica, tanto é que conheci minha esposa em um evento religioso, como disse antes. Eu e minha esposa participamos por 27 anos das equipes de Nossa Senhora, mas precisamos nos afastar por motivos de saúde. Nossos pais já frequentavam a Paróquia de Santa Rita. Também fomos ministros da Eucaristia durante 21 anos. Tenho muitas músicas religiosas de minha composição e que são cantadas e tocados em missas e grupos de oração. Um homem não pode viver sem religião.

JC - Quais foram os grandes desafios de sua vida?

Hermógenes - Graças a Deus nunca passei por nenhuma situação gravíssima. Apenas a situação financeira é que nunca foi lá grandes coisas (risos). Mas consegui comprar minha casa, criei meus filhos, consegui uma casinha para cada um deles e tudo isso trabalhando na orquestra, que rendeu um certo dinheiro. Um de meus filhos mora em São Paulo e os outros dois aqui, em Bauru. Depois que os shows acabaram, trabalhei como agente de turismo.

JC - Aqui mesmo em Bauru?

Hermógenes - Isso. Eu viajava para outras cidades. Levava o pessoal para conhecer Camboriú, Porto Seguro, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Minas Gerais, Paraguai...

JC - Como chegar aos 83 anos com essa disposição física e mental?

Hermógenes - Talvez seja a música (risos). Não sei mesmo, mas acho que a música te deixa leve e de bem com a vida. Não sou muito de praticar atividades físicas, mas faço tudo a pé. Por exemplo, estou sempre indo aos supermercados, bancos, Centro da cidade, tudo andando. Não gosto de ficar parado. Agora aprendi a mexer com o computador e passo um bom tempo por ali. A patroa até briga dizendo que não saio da frente do computador. Essa coisa parece que prende a gente (risos).

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