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O estrago da Wikileaks

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Sociólogos, antropólogos e historiadores precisam de décadas de pesquisas para investigar os fatos mais relevantes do passado, se quiserem reconstituir o curso dos acontecimentos com alguma fidelidade, para daí começar a entender as reais intenções dos seus protagonistas. Um olhar rigoroso na história exige a aplicação de métodos críticos para avaliar as fontes.

De repente, em apenas alguns dias, milhares de mensagens diplomáticas confidenciais e autênticas vêm a público, direto da fonte pelo site da WikiLeaks, uma organização transnacional, sem fins lucrativos, com sede na Suécia. Trata-se de uma sigla composta pela palavra havaiana wiki-wiki, que significa “rápido” e leakes, que em inglês quer dizer “vazamento”. Conta-se que um jovem soldado que prestava serviços subalternos no Pentágono recebeu ordens de esvaziar a memória do computador de assuntos ultra-secretos. Executou a tarefa enquanto cantarolava “Thelephone”, de Lady Gaga - “Pare de ligar, eu não quero falar” - para disfarçar. Gravou, clandestinamente, vários CDs com 250 mil mensagens dos diplomatas de 250 embaixadas e consulados norte-americanos espalhados pelo mundo. Repassou o aparato para a WikiLeakes e, de lá, para o mundo. Realizou o sonho dos pesquisadores, deu uma lição de como fazer jornalismo investigativo e criou um pesadelo para os Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo. Estamos diante de uma ruptura dos princípios morais que – pensava-se – regiam, ou deveriam se sobrepor nas relações internacionais. A história se acelera e os cientistas sociais têm nas mãos o objeto de interpretação crítica que, normalmente, só seriam conhecidos daqui a meio século depois dos acontecimentos. Este foi o maior vazamento da história, desde que informação começou a ser transmitidas pelo tam-tam dos tambores em sociedades ancestrais.

Já se esperava que os Estados Unidos ocultassem uma obscena indiferença com a maioria dos países. As informações secretas mostram que o império é o que é: domínio, lei do mais forte, negócios sujos, benefícios ilimitados, vitórias a sangue e fogo, luta sem piedade aos que se opõem aos seus interesses. Os Estados Unidos mantêm no mundo ninhos de espiões e manipuladores que não hesitam em interceptar correspondências, fazer grampos telefônicos, escaneamentos intrusivos e humilhantes. Vídeo do serviço secreto da Marinha mostra um helicóptero metralhando civis desarmados no Iraque, numa “operação limpeza”. Dois jornalistas da Reuters também morreram nesse ataque. A publicação dos documentos afeta fundamentalmente os Estados Unidos. Por estas e outras razões o fundador e ideólogo do WikLeaks Julian Assange, um jovem australiano, é caçado no mundo inteiro pela Interpol. Por “crime de traição”, cuja pena é a cadeira elétrica.

Pelo ritmo que se movem as novas tecnologias a concorrência vai aumentar. Outros “vazamentos com princípios”, como qualifica Assange, vão surgir a reclamar essa mesma transparência de outros países. Mais de um milhão de documentos podem ganhar a luz, entre eles o Manual da Prisão de Guantânamo. Assange vive hoje com a mochila onde carrega computador e algumas roupas, de hotel em hotel. Os vazamentos sobre o Brasil não trazem nenhuma novidade. O ex-embaixador em Brasília Cliffor Sobel, informou a Washington que o nosso projeto de submarino atômico é um “elefante branco”. O porta-aviões que compramos da França, uma “sucata”. Segundo a fofoca “diplomática”, Sarkozy trouxe a mulher para o Brasil para ajudar a seduzir Lula a comprar os caças Rafale, considerados pelo Rei do Bahreim de “tecnologia ultrapassada”. Nenhum país, até hoje arriscou a comprá-los. A preservação da Amazônia (como território nacional, certamente) é a “tradicional paranóia brasileira”, para o ex-embaixador.

A informação e o conhecimento não deveriam gerar instabilidade e a ruína do sistema. Mas, a política exterior perversa, de governos pretensamente hegemônicos está fora da realidade. Vivem a serviço da voracidade de um capitalismo selvagem. Aberta a ferida, ficamos convencidos da necessidade de uma assepsia ética. Uma mudança de rumos. A internet é uma arma poderosíssima, ainda fora de controle de qualquer poder. Espécie de terra de ninguém onde ninguém pode mandar, por não encontrar quem lhe queira obedecer. É a velha proposta anarquista de volta. Os ideólogos da revolução digital defendem que a internet pode produzir uma democracia mais direta, emancipada das instituições, e que se autorregulamentaria sem a necessidade de intermediários. O tempo dirá.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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