Tribuna do Leitor

A culpabilidade da tragédia


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Ao ficar sabendo da tragédia que aconteceu na avenida Nações Unidas, lembrei-me de outra, ocorrida no mesmo local, nos mesmos moldes, a uns tantos anos atrás. Uma mulher e seu bebê de um mês de vida foram arrastados pelas águas da enxurrada. Essa moça era sobrinha de meu padrinho, e morreu tentando resgatar a filha, que a força da natureza arrancara de seus braços. Não me lembro exatamente quando foi. Eu era pequena, lembro do velório, da comoção, do desespero, da frustração. Frustração, essa sensação que nos deixa de mãos atadas diante de fatos que vão além de nosso controle.

Por isso entendo como se sente a família deste rapaz. A tecnologia disponibilizou suas últimas imagens ainda com vida, lutando para assim permanecer, inutilmente. Imagens que eu só conseguia imaginar, em todos estes anos, quando via a Nações Unidas alagada e lembrava dela, a sobrinha de meu padrinho. E só de imaginar, entrava em desespero.

Meu Deus, como somos frágeis! Nosso corpo, esta massa de carne e ossos e nervos, sucumbe tão facilmente! Por maiores que sejam os níveis de desenvolvimento e tecnologia que a espécie humana venha a atingir, seremos sempre carne, ossos, nervos... carne, ossos, nervos... e razão. E emoção. E memória. E imaginação. Imaginamos que, somente por estarmos vivos agora, neste instante, estaremos vivos sempre. Ninguém espera morrer com 24 anos, durante uma simples corrida de taxi.

Como somos cegos e ignorantes. Vamos agora tentar achar culpados! Sim, obviamente, é o Poder Público! O Poder Público, que por anos assiste a este caos e nada faz!

Mas quem é o Poder Público? Somos nós! Nós somos os verdadeiros administradores desta cidade. Eu, você que me lê, seus pais e avós e bisavós. São nossos filhos e netos. Fomos nós que aprisionamos um rio em tubos de concreto, canalizando-o embaixo da avenida! E quando ele grita e se revolta, nós nos surpreendemos. Somos nós que entupimos bueiros, jogamos entulho nas ruas, que cimentamos nossos quintais e cortamos nossas árvores em nome de uma higiene ilógica, como se folhas e terra fossem imundas, esquecendo que a água precisa ser drenada. Somos nós que enfrentamos a natureza, com a pretensão de senhores do mundo!

Certo dia, li em um adesivo, na traseira de um carro: “Não sou dono do mundo, mas sou filho do Dono.” Esta frase serve exatamente para descrever a relação que o ser humano tem com o planeta e com os outros seres que aqui também habitam. A carteirada Divina está em nosso DNA ancestral. Em toda a história da humanidade, vários povos que auto-elegeram filhos únicos e preferencialmente amados de tantos deuses quanto foi possível a mente humana criar. E sob esse pretexto subjugamos outros povos, nações e espécies. Por fim, subjugamos o próprio planeta e a nós mesmos.

Não adianta culpar o “Poder Público”. Essa mania de encontra a culpa no outro é antiga e já ultrapassou os limitas da veracidade. “A culpa não é minha! É do Poder Público!” Nome bonito, pomposo, que se repete de boca em boca até perder o sentido.

O Poder Público muda de quatro em quatro anos. Não podemos culpar o atual pelos erros do passado. E a meu ver, ele está fazendo sua parte. Vamos falar a verdade: Há tempos a cidade não era tão bem cuidada. Mas a solução para a Avenida Nações Unidas não é algo fácil de por em prática. Será necessário trazer o rio de volta à superfície, aumentar as galerias de captação de água dos bairros no entorno, e esperar que Deus envie uma nuvem de consciência, que cubra a cidade e faça com que os moradores parem de jogar lixo e entulho na rua e que faça-os se lembrarem que a terra fértil e as plantas são uma dádiva e não um tormento!

Essas são minhas brilhantes ideias. Só que eu sou atriz. Não sou administradora, nem engenheira, muito menos Deus. Só posso fazer minha parte. Também posso desejar meus sentimentos mais profundos e verdadeiros à família do rapaz que morreu. E esperar que munícipes, Poder Público e Deus façam sua parte.

Susan Lopes

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