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Com restrição de antibióticos, farmácia faz outras indicações

Da Redação
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Se há duas semanas era simples entrar em uma farmácia e sair de lá com um antibiótico, após a nova regra da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em vigor desde o último dia 28, não se compra o medicamento sem receita médica nas farmácias de Bauru. A reportagem do Jornal da Cidade foi a oito estabelecimentos e, em nenhum deles, conseguiu adquirir remédio à base de amoxicilina, indicado para combater infecção de garganta. Algumas delas afixaram no balcão a nova lista de medicamentos que exigem receita médica. Porém, a maioria dos estabelecimentos - sete - indicou anti-inflamatório.

A Anvisa proíbe a venda de antibióticos sem indicação médica. Como já acontecia com os medicamentos controlados, agora os pacientes precisam apresentar receita com duas vias, sendo que uma delas fica retida na farmácia. A medida tenta coibir a automedicação, fator que favorece o surgimento de bactérias super resistentes, como a KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase), que tem deixado em alerta hospitais de todo o Brasil.

Apesar de as farmácias de Bauru visitadas pela reportagem estarem cumprindo as normas da Anvisa quanto ao antibiótico, os farmacêuticos orientaram o repórter - que simulava estar com dor de garganta - a comprar anti-inflamatórios para combater uma suposta infecção.

CrimeK

Para o médico Carlos Alberto Monte Gobbo, membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), indicar medicamento sem receita médica é uma prática criminosa. “É como tratar da dor de cabeça e da febre em um paciente com meningite. O anti-inflamatório pode aliviar a dor, mas não vai combater a bactéria. O medicamento vai mascarar a infecção, que poderá voltar a se manifestar de forma mais intensa”, aponta Gobbo.

Fábio Valentim, diretor da seccional de Bauru do Conselho Regional de Farmácia (CRF-SP), afirma que farmacêuticos não podem indicar o uso de medicamentos que exigem prescrição médica, mas ponderou que, em muitos casos, os profissionais procuram ajudar os clientes que não encontram atendimento no sistema de saúde. “Existe a preocupação com as pessoas que não podem ficar por horas na fila dos hospitais públicos (para consultar-se com médico) e mesmo com as que esperam muito tempo para conseguir uma consulta particular. Em muitos casos, trata-se de uma orientação consciente e responsável”, explica.

Balconistas sem formação especializada também indicaram ao repórter medicamentos anti-inflamatórios. Valentim explica que, nessas situações, o farmacêutico responsável deve responder pelas irregularidades. “Primeiramente eles são chamados para orientação no Conselho. Se acontecer de novo, pagam uma multa e podem até perder a carteira do CRF”, alertou.

• Serviço

Denúncias por irregularidades na venda de medicamentos podem ser no Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo pelo telefone 0800-7702273 ou pelo e-mail denuncia@crfsp.org.br

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Cai a venda de medicamentos que exigem receita

André Luis de Mello Urso, responsável por uma farmácia de rede em Bauru, afirma que a venda de antibióticos caiu consideravelmente após a proibição da comercialização sem receita médica.

“Muitas pessoas deixam de comprar o remédio porque não conseguem ser atendidas por um médico. O máximo que podemos fazer é orientar o uso de analgésico ou antitérmico”, apontou.

Ele explica que, além da apresentação da receita em duas vias, é preenchido na farmácia um formulário com o nome, RG, endereço e telefone do comprador. “Também são registrados o lote e a quantidade emitida do medicamento. Esse documento tem que ficar guardado por, no mínimo, cinco anos”.

Enquanto a reportagem do Jornal da Cidade estava em uma das farmácias consultadas, clientes reclamavam por não conseguirem comprar antibióticos sem receita médica. “É um absurdo!”, lamentou uma senhora.

Segundo relatório do Instituto IMS-Helath, em 2009 o comércio de antibióticos movimentou cerca de R$ 1,6 bilhão somente no Brasil.

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Antibiótico x anti-inflamatório

De acordo com a médica pediatra Sandra Ricchetti, o principal problema na indicação de anti-inflamatórios está na diferença entre o tipo de ação entre eles e os antibióticos. Ela explica que os antibióticos combatem e erradicam infecções causadas por micro-organismos, como fungos e bactérias. Já os anti-inflamatórios aliviam os sintomas de dor, inchaço, calor ou rubor em decorrência de agressões sofridas pelo nosso organismo.

“Muitas vezes tratamos uma infecção bacteriana com o antibiótico e com o auxílio do anti-inflamatório para combater os sintomas, mas não tem cabimento tratar uma infecção de origem micro-orgânica só com anti-inflamatório. Apenas um médico pode detectar qual o tratamento adequado para cada caso”, explica a pediatra.

Ricchetti ressalta que anti-inflamatórios não agem contra infecções e cita mais um exemplo em que o tratamento com eles ou com antibióticos faz toda a diferença: “Existe a artrite infecciosa e a artrite inflamatória. Cada uma delas deve ser submetida a um tipo de tratamento para que os resultados esperados sejam alcançados”, alerta.

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Automedicação

Segundo a pediatra Sandra Ricchetti, responsável pela distribuição de antibióticos no Hospital das Clínicas de Botucatu, todos os medicamentos possuem uma indicação precisa e podem causar efeitos colaterais, sejam analgésicos, anti-inflamatórios ou antibióticos. Ela exemplifica citando algumas reações adversas do anti-inflamatório indicado nas farmácias visitadas pelo jornal.

“Pode causar dores abdominas, náuseas e até mesmo gastrites e úlceras, caso usado de forma indiscriminada. Depende também do medicamento e da suscetibilidade do paciente”, aponta Ricchetti.

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