‘Sempre há uma luz no fim do túnel’. Essa frase é muito proferida em momentos de fraqueza, mas para o bauruense e ex-morador de rua Fernando Tavares, 37 anos, o ditado se tornou realidade. Abandonado pelos pais, assim como o irmão mais novo, ele não tinha nenhuma perspectiva de vida.
Hoje, depois de aceitar ajuda de uma equipe de solidários da igreja evangélica Restaurar em meados do ano passado, se livrou do alcoolismo, conseguiu emprego fixo, documentos, casa para morar e encontrou sua alma gêmea. Em janeiro de 2011, vai se casar com Vera Lúcia (leia mais no texto abaixo), que conheceu na igreja onde foi acolhido.
“Eu não sei nem qual é o gosto do leite materno”. Foi com essa primeira lembrança que Tavares, hoje auxiliar de eletricista, começou a relatar à equipe de reportagem do Jornal da Cidade como foi parar nas ruas.
Ele foi personagem de duas matérias publicadas no JC: uma em 2007 e outra no ano passado. Os dois textos contavam um pouco da trajetória e da condição subumana de vida de homens como ele, que sobreviviam de esmolas ou até mesmo procurando comida no lixo.
Os pais de Fernando o abandonaram com uma família de amigos quando ele tinha apenas 3 anos. O mesmo foi feito com seu irmão mais novo. Sem ter condições financeiras de criar seus próprios filhos, a família que acolheu os dois meninos pequenos os levou para um orfanato.
Lá, Tavares nunca imaginava que um dia poderia enfrentar a rua. Cursou as séries escolares e inclusive um ensino profissionalizante aprendendo a lidar com caldeiras. Entretanto, os 18 anos chegaram e ele sentia que tinha que sair daquele lugar.
Decidiu procurar algum familiar. Pegou carona na estrada, às vezes um ônibus pago com dinheiro de esmola, e foi parar em Minas Gerais, depois Alagoas. Não encontrou ninguém.
Mas ele precisava de uma chance de emprego para melhorar de vida. Pensou e continuou a viajar. “Eu fui para o Sul do Brasil, para o Rio de Janeiro, até conseguir um emprego próximo ao Mato Grosso, mas não deu certo e decidi voltar para Bauru”, contou.
Retorno
O retorno a Bauru, aos 20 anos de idade, foi bom no início. Logo encontrou uma parceira, com quem viveu durante sete anos, mas se decepcionou amorosamente um pouco mais tarde. Tavares tinha documentos e também trabalhava nessa época. Mas em consequência desse desafeto, logo ganhou as ruas novamente.
Ele virou andarilho, alcoólatra, chegou a usar drogas. Pedia esmolas. Morou debaixo do viaduto da avenida Nações Unidas e logo depois foi parar em frente ao Pronto-Socorro Central. A equipe do JC fotografou o então morador de rua duas vezes nessas situações.
“Eu não imaginava que poderia sair das ruas. As pessoas passavam e me davam esmolas, alimento. Uma vez eu cheguei a acordar e ter um cobertor novo do meu lado. Eu sei que eram boas intenções, mas nada disso iria me ajudar a sair daquela situação que eu vivia. Até que um dia apareceu uma senhora e me disse: vem comigo meu filho. Cheguei a morar com ela, mas não conseguia emprego, não podia mais ficar ali. Agradeci muito a ela e voltei para as ruas”, contou emocionado.
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‘Olhe para o seu irmão’
No ano passado, o pastor da Igreja Restaurar disse em um dos cultos: “Olhe para o seu irmão”. Fernando olhou. Quem estava ao seu lado era sua futura esposa, Vera Lúcia de Oliveira, 40 anos. “Eu não acredito quando lembro. Olhei para o lado e vi a Vera. Que destino. Nem imaginava que ela poderia ser minha noiva”, disse, sorrindo.
Foi trocando olhares que surgiu primeiro a amizade. O sentimento de Vera aflorou mesmo sabendo quem Fernando era e de onde veio. “A Vera já sabia que eu tinha sido morador de rua. Ela me disse que tinha me visto nas matérias do Jornal da Cidade. Mesmo assim ela decidiu ficar comigo. Eu disse a ela: não tenho família. Mas ela não se importa”, acrescentou, acanhado.
Em janeiro de 2011 eles vão se casar. Ele ainda mora nas dependências da Igreja Restaurar, mas a pastora Renata se empenha para conseguir um lar para o casal até Fernando ter a vida estabilizada. “Nós vamos ajudar. Queremos pagar o aluguel para o Fer até que ele se estabilize. Ele já quase mobiliou a futura casa com doações dos membros da igreja, que ajudam muito e até ajudaram a pagar parte do tratamento dentário dele. Mas ainda faltam algumas coisas.”
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Vida resgatada
Sem nenhuma visão de futuro, em uma noite muito fria, em julho do ano passado, Fernando Tavares recusou um prato de sopa da equipe solidária da Igreja Restaurar. “Eu me lembro que quando chegamos lá com a sopa, só o Fernando não aceitou. Mas nós não insistimos. Oramos por aqueles homens e demos alimento a eles. Até cantamos hinos da igreja. No outro dia decidimos tirá-los daquele lugar”, relatou a pastora Renata Ariane Costa Matheus.
Ela não imaginaria que esse dia seria crucial na vida do então morador de rua. Parte da equipe da igreja foi até o local e buscou quatro homens que estavam ali, em frente ao Pronto-Socorro Central.
“Eu vi aquilo e na hora pensei: eu posso ter uma oportunidade nessa vida, posso mudar. E decidi ir. Mas havia um combinado entre nós. Poderíamos ficar nas dependências da igreja, mas teríamos que deixar o vício e mudar de vida. Eu aceitei”, destacou.
Passados dois meses, dois dos homens voltaram para o convívio familiar, um desistiu e sobrou o guerreiro Fernando. “Nós o salvamos do vício sem medicamentos. Nós orávamos com ele, dávamos carinho a ele. Foi o nosso amor que o ajudou a superar. Seus pais te abandonaram, mas o Pai te abraçou, Fer”, disse a pastora.
Ele se recuperou e se tornou zelador da igreja. A confiança depositada nele pela pastora e por seu marido, também pastor, Delton Tadeu Matheus, fez Fernando Tavares crescer, se sentir importante, amado e essencial a alguém.
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Emprego
Há pouco mais de três meses, Fernando Tavares conseguiu um emprego como auxiliar de limpeza em uma empresa. Logo começou a mostrar suas habilidades e foi promovido a auxiliar de eletricista. “Eu agradeço muito pela oportunidade que me deram e sou muito feliz com nesse emprego”, disse Fernando.