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A crise e o clima

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Aproximando-se o período do Natal e das comemorações pela chegada do Ano Novo, aproveito este espaço para desejar Boas Festas aos leitores e um feliz e próspero 2011, junto às suas famílias e às pessoas amigas, esperando retomar esses meus comentários na segunda quinzena de janeiro.

2010 não deixa boa lembrança no trato de dois problemas que perturbam a vida do planeta: a desagregação nas famílias de 30 milhões de honestos trabalhadores que perderam seus empregos no Hemisfério Norte desde a crise financeira de 2008 (a maioria ainda sem perspectiva de recuperação) e a resistência dos países em aceitar compromissos que permitam combater, de fato, as causas das agressões ao meio ambiente em todo o mundo.  No primeiro caso, a constatação do profundo desarranjo nas contas públicas de meia-dúzia de países europeus veio confirmar os piores receios a respeito dos níveis da desonestidade dos agentes financeiros e da conivência criminosa de grandes bancos dos dois lados do Atlântico. As investigações em andamento permitem antever muita encrenca pelo caminho.     

Quanto ao clima, terminou de forma melancólica este mês, em Cancun, a Conferência mundial convocada para ampliar o compromisso de reduzir as emissões de dióxido de carbono. Na realidade, poucos países estão levando a sério compromissos anteriores, a não ser talvez o Brasil que foi capaz de mostrar resultados positivos na redução das emissões de CO2 e notavelmente importantes na proteção do acervo florestal. O desmatamento na região amazônica está em declínio pelo terceiro ano consecutivo. As tecnologias desenvolvidas pela Embrapa de recuperação de áreas de pastagens degradadas permitem reduzir fortemente as emissões causadas pela pecuária. Somos o primeiro país em desenvolvimento a aprovar em Lei  metas físicas de controle ambiental: até 2020 , um corte mínimo de 36,1% na emissão de gases de efeito estufa. A integração lavoura-pecuária liberará imensos recursos com o aumento da produtividade de 0,4 bois por hectare para algo como 4 ou 5 cabeças e  cada um deles liberará outros 9 hectares para usos alternativos na produção de alimentos, sem necessidade de novos desmatamentos. O Brasil enfrentou os problemas da crise financeira em 2009/2010 mostrando mais competência que a maioria dos países para superá-los e não descuidou dos investimentos nas pesquisas  para desenvolver novas formas de combustíveis menos poluentes, a partir da biomassa.

O mundo vive um período de lideranças confusas nos países desenvolvidos, com uma enorme carência de estadistas. Eles têm se mostrado incapazes de convencer seus povos da urgência de enfrentar a ameaça à vida no planeta. Recentes pesquisas mostram um aumento da desconfiança dos americanos quanto aos “exageros da mídia” nas discussões sobre o aquecimento global. O Congresso dos EUA, para atender aos interesses dos Estados produtores de carvão, em vias de desindustrialização, tem tergiversado em fixar medidas de controle das emissões de CO2. Na China, sequer gastaram tempo e dinheiro com pesquisas: o Congresso Nacional do Povo já avisou que sem a energia do carvão não há desenvolvimento!

O autor, Antonio Delfim Netto,é economista e professor emérito da FEA/USP

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