Cultura

Bate-papo teatral

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 5 min

Expressivo, espirituoso e, extremamente, crítico. Por momentos, é tomado pela alegria que algumas lembranças de sua trajetória lhe trazem. Segundos após, irrita-se, enfurece-se e esbraveja diante das “cenas” e “personagens” que preferiria ter visto serem excluídas das peças, novelas e filmes. Levanta, gesticula, caminha pela sala, pausa para um cigarro. A sensação de entrevistar o ator Adriano Garib é de vê-lo interpretar a própria vida.

Em visita à família em Bauru, o artista recebeu a reportagem do JC Cultura no apartamento da mãe, onde está hospedado, e, no decorrer de mais de uma hora, falou com carinho da cidade que lhe apresentou o teatro e relembrou as passagens marcantes da carreira, além de comentar sobre o papel em “Tropa de Elite 2”, seu mais recente trabalho.

Natural de Gália, Garib morou em Bauru entre os 7 e 18 anos, antes de mudar-se para o Paraná para cursar jornalismo na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Foi aqui, pelas mãos de Paulo Neves, que ele conheceu o teatro. Sua estreia foi na peça “Achados e Perdidos”, em substituição a um ator que teve de deixar o elenco. “Tive apenas de atravessar a rua”, brinca o artista, que, na época, morava na rua Rio Branco, em frente ao espaço onde o diretor bauruense ensaiava suas peças.

“Fui muito feliz no tempo em que vivi aqui. Foram anos do final da infância e toda a adolescência e isso não é qualquer coisa, só tenho boas lembranças. E foi no final desse período, que eu descobri o palco”, resume. Marcado pelas sensações que a experiência de estar em cena lhe haviam causado, Garib, logo que iniciou a faculdade, integrou o Grupo Delta de Teatro. Considera o papel de Patrício, em “Toda Nudez Será Castigada” (Nelson Rodrigues), o responsável por dar início a dedicação ao teatro como profissão.

“Viajamos o Brasil e o mundo com esse espetáculo. Ficamos cinco anos em turnê e recebemos vários prêmios internacionais, além dele ter sido considerado uma das principais montagens do ano no Rio de Janeiro e em São Paulo”, recorda sobre os anos em que teve de trancar o curso de jornalismo em nome do teatro. Também em Londrina, integrou a Companhia Armazém de Teatro, dirigida por Paulo de Morais, e fundou o próprio grupo, batizado Teatrotal. “Escrevi, dirigi e atuei três peças (“Clinch”, “Rosana nas Alturas” e “Mágica Matemática”). E fazia tudo tirando dinheiro do próprio bolso, do trabalho como jornalista. Foi uma das melhores épocas da minha vida”, considera.

Na telinha

A mudança de palcos aconteceu em 1996, quando Garib assinou contrato com a Rede Globo por três anos e estreou na telinha em “Salsa e Merengue”, novela escrita por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa e direção de Wolf Maya. “Integrava o núcleo rural e fazia o Juarez. Mas o que estava previsto para o personagem não rolou e ele acabou sobrando. Tornou-se um personagem ser força, um cara sem expressão e eu também ainda estava cru em televisão”, avalia.

Foi no mesmo período também que o ator conheceu a famosa “geladeira” da emissora. “Na época, a política da casa era se é bom contrata, mas se vamos ter onde colocar é outra coisa. Ganhava bem, estava lá feliz da vida, mas o que queria era trabalhar. Fui fazendo programas especiais e participações, que me deram versatilidade na televisão”, pondera. Também de Wolf Maya, Garib fez “Duas Caras” (2007).

“Fiz o Silviano, que também era um papel pequeno. Não tive sorte nas novelas. O bom é que conseguir conciliar com o teatro, que é a arte que tem o modo de criação e mentalidade que eu mais me identifico. Também comecei a dar aulas na CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), onde estou há quase 15 anos”, conclui. Atualmente, Garib integra a companhia carioca Teatro Autônomo, com a qual já encenou as peças “Uma Coisa que Não Tem Nome”, “Um Bando Chamado Desejo”, “Deve Haver Algum Sentido em Mim Que Basta”, “E Agora Nada É Mais Uma Coisa Só” e “Nu de Mim Mesmo”, montagem de 2009, a mais recente do grupo.

‘Coadjuvar não me incomoda’

“Minha vida segue a mesma coisa depois de “Tropa de Elite 2”, sem nenhuma modificação”, afirma o ator Adriano Garib sobre o papel no filme de José Padilha, produção mais vista da história do cinema brasileiro (bateu o recorde de “Dona Flor e seus Dois Maridos”).

O ator encarnou o Secretário de Segurança Pública Guaracy, mas, de acordo com o ele, apesar da importância e visibilidade propiciada pelo filme, sua estrada ainda é longa. “Me orgulho de ter participado de um filme que escancarou uma série de articulações que se dá na política do Brasil. Por conta de sua lente de documentarista, o Padilha queria as coisas vivas; chegava no set e falava ‘rasguem o roteiro, mostrem mais ou menos o que vocês entenderam da cena’, conta.

“Mas as pessoas pensam, você fez “Tropa”, então agora, agora nada. Ainda estou comendo pelas beiradas, depois de 20 anos; você tem que continuar trabalhando da mesma forma”, completa. Segundo o ator - que teve sua primeira participação de peso no cinema em “Meu Nome Não É Johnny” (2008) e acaba de filmar “A Novela das Oito”, do pernambucano Odilon Rocha -, protagonizar não está entre suas preocupações.

“Em um filme você faz um corrupto, no outro, um padre. Esse tipo de versatilidade, mesmo sendo coadjuvante me interessa muito. Em primeiro lugar, porque coadjuvar não me incomoda. Também não estou dizendo que quero viver a vida inteira de coadjuvante; estou dizendo que não fico naquela ‘ai, preciso protagonizar’. Isso vai acontecer ou não, mas não tenho problemas com relação a isso”, revela.

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