Ciências

Remédio: descobrimos, pouco inventamos


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A indústria farmacêutica representa o ramo de atividade que mais movimenta dinheiro, muito na frente da indústria de energia como muitos suporiam em primeiro lugar. Alguns remédios surgem de pesquisas, mas outros vieram de observações sobre plantas e animais.

A aspirina foi descoberta em 1763 pela observação do reverendo Stone em 1763 sobre os efeitos analgésicos da madeira do salgueiro ou chorão, uma árvore inglesa conhecida cientificamente como Salixalba. Até 1971 o mecanismo de ação da aspirina não era conhecido, apesar de quase centenária, mas quando desvendado outras drogas imitando-a foram sendo sintetizadas com o mesmo objetivo: analgésicos contra a dor, anti-inflamatórios contra o edema e antipiréticos contra a febre.

Em 1928, o escocês Alexander Fleming observou o crescimento de um fungo em uma de suas culturas de estafilococos, “estragando-as”. Mas percebeu que ao redor dos fungos não havia crescimento bacteriano. Sua mente preparada percebeu que o fungo produzia uma substância inibidora do crescimento bacteriano e a denominou penicilina, pois o fungo produtor era o Penicilliumnotatum.

O petróleo foi fabricado pela natureza ao longo de milênios e cada país beneficia-se de sua exploração econômica. Estes dois exemplos de descobertas de medicamentos foram a partir de uma árvore e de um ser vivo como o fungo. Tal qual o petróleo, a flora e a fauna de um país devem ser explorados pelos seus respectivos povos.

Na história do aparecimento dos remédios percebemos que as pesquisas não são produtivas. Somos péssimos “inventores” de remédios. Mais de 70% dos medicamentos disponíveis foram descobertos, mas não inventados pelo homem, pois são derivados de produtos naturais. Em outras palavras, a biologia dos bichos e das plantas são generosos em oferecer medicamentos, basta pesquisar na fauna e flora para descobrir. Tal qual fazemos com os minérios como o ferro e o petróleo.

Imagine um país jogar fora e acabar com seu petróleo e outros minérios; corresponde a rasgar dinheiro, oportunidades e desenvolvimento social. Eliminar florestas, animais, rios e oceanos é a mesma coisa: rasgar dinheiro ou estupidez!

No Japão, em outubro e novembro, representantes de 190 países decidiram um acordo espetacular para proteger a biodiversidade mundial: o Protocolo de Nagoya. Há previsão de que a extinção anual de espécies animais e vegetais está 100 vezes mais rápida do que o ritmo que seria determinado pela natureza. Pelo acordo, a velocidade das extinções deve cair pela metade até 2020 e as áreas de terras protegidas deve subir de 12,5% para 17% e as oceânicas, de 1% para 10%.

Não só medicamentos, mas animais e vegetais fornecem outros produtos químicos e muito mais insumos. Apenas os medicamentos representam a principal fonte de dinheiro do mundo. Entre os representantes dos países descreveu-se um verdadeiro desespero para reduzir a velocidade de destruição. É uma questão financeira e de inteligência, mesmo deixando de lado a preservação do planeta.

A extinção de espécies pode acontecer sem descobrirmos a maior parte delas. Temos milhões de espécies, mas apenas um milhão foi identificado pela ciência. Precisamos identificar muitas espécies vegetais e animais: que potencial econômico! O Brasil tem a maior diversidade do mundo e os benefícios financeiros são tão grandes que o valor da exploração do petróleo do pré-sal fica muito pequeno. Calcula-se que em cada área do tamanho de um campo de futebol da floresta amazônica tenha mais espécies de árvores do que em toda a Europa.

Analisemos o Protocolo de Nagoya: os recursos genéticos presentes no território de cada país são pertencentes a ele e não podem ser explorados sem autorização. Explicitamente está proibida e será combatida a biopirataria.Não se pode transferir um recurso natural de um país para um outro explorar sem pagar royalites. Para se ter uma vaga idéia, a cada ano a industria farmacêutica fatura em média aproximadamente um trilhão de dólares: imagine 10% ao ano. O Protocolo de Nagoya deve ser ratificado por cada um dos 190 países participantes para entrar em vigor; o protocolo de Kyoto demorou-se 8 anos, mas vale a pena esperar.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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