Belém - Um bebê nascido na noite de Natal, em Belém (PA), sobreviveu por cerca de 12 horas dentro de um saco plástico após ter sido arremessado pela mãe de uma altura de pouco mais de dois metros. O menino, de apenas 2,2 quilos e oito meses de gestação, e a mãe, de 20 anos, foram internados na Santa Casa de Misericórdia da cidade. Os dois passam bem.
Segundo a versão dada pela mãe a conselheiros tutelares, ela tinha medo de que sua família, no Interior do Maranhão, brigasse com ela devido à gravidez.
Por isso, afirmou a jovem, escondeu a gestação e pariu sozinha, por volta das 20h do dia 24, na casa da tia, onde trabalhava havia um ano como babá da prima. Após cortar o cordão umbilical com uma tesoura comum, colocou o filho dentro de uma sacola plástica e o jogou, por sobre um muro de mais de dois metros, no quintal de uma casa vizinha.
Carlos Barros, dono da casa na qual a criança caiu, iria viajar no Natal, mas por um imprevisto teve de ficar em Belém. No dia 25, por volta das 8h30, ouviu o choro do bebê. Abriu o saco, para que ele pudesse respirar, mas não o tirou do chão, com receio de machucá-lo. Inicialmente, a jovem negou ser a mãe. Ela só assumiu ter parido e jogado a criança depois de a tia mostrar aos conselheiros tutelares panos sujos do sangue do parto.
O pai do menino é um mecânico que trabalhava num local próximo, mas que, na versão da mãe, nem sabia que a tinha engravidado.
Um inquérito policial foi aberto para investigar o caso. A mãe pode ser indiciada por abandono de incapaz, lesão corporal e até tentativa de homicídio. Hoje, ela disse a enfermeiros da Santa Casa que está arrependida.
O destino do menino será decidido pela Justiça. Ele pode ficar com a família da mãe ou ser adotado por outra. As chances de voltar para a mãe são remotas, segundo o Conselho Tutelar de Belém. Até essa decisão, ficará num abrigo estadual.
À la Super-Homem
Quando os paramédicos chegaram, perceberam que a criança tinha só escoriações e hematomas. Foram eles que apelidaram o garoto, que ainda não tinha sido registrado, de Kal-El de Jesus.
Kal-El é o nome original do personagem de histórias em quadrinhos Super-Homem, que, dentre outros superpoderes, é invulnerável.
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Reserva da gestação pode ter ajudado
Belém -O fato de o recém-nascido ter sobrevivido por 12 horas dentro de um saco plástico, sem alimentação e com pouco oxigênio, não chega a ser inesperado, disse o pediatra Durval Palhares, membro do departamento científico de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.
O que possivelmente explica a sobrevivência da criança são suas reservas de glicogênio (tipo de carboidrato que serve como reserva de energia) acumuladas durante a gestação. “Tudo vai depender do estado nutritivo da criança. Se estiver bem nutrida, com boas reservas, o período de tolerância (à falta de alimento) é grande”, disse. “Ele devia estar bem nutrido.”
Em seus primeiros dias, dizem pediatras, crianças mamam uma pequena quantidade de leite materno.
Sobre a pequena oferta de oxigênio, Palhares disse que a condição deve ter sido facilitada pela maturidade pulmonar da criança. “Nessa idade, quando o desenvolvimento é normal, ela respira sem dificuldade.”
Paulo Nader, coordenador de neonatologia do hospital universitário da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), diz que o plástico deve ter ajudado a manter a temperatura do bebê, um importante fator de sobrevivência.