Ao ler e escrever o homem não indica quais são seus sentimentos, caráter, sabedoria, inteligência e cultura. Ler e escrever implica apenas em interpretar símbolos que chamamos de letras. Aprendemos a interpretar letras derivadas do grego como alfa, beta e outras, os que não sabem chamamosde analfabetos. Os japoneses, chineses e outros povos orientais tem ideogramas como suas letras. Os ideogramas são símbolos gráficos que representam sutis objetos desenhados para expressar suas idéias, pensamentos, abstrações e registros. Nestes ideogramas podemos identificar casa, janela, lua, sol, ferramentas e animais. Ao manipular o telefone celular, computador ou eletrodoméstico usamos símbolos que chamamosde ícones.Voltamos a nos comunicar com imagens e menos com letras.
Na antiguidade as convenções de letras não existiam para as pessoas comuns. Nas ruas não haviam sinais e placas indicativas. As casas comerciais não se identificavam com letras e números. As noticias corriam de boca em boca. A dinâmica da vida era outra. A maior parte da população, ou quase todos, não sabia ler e escrever.A parte dominante da população, a elite, aprendia a ler e escrever pois era ferramenta importante de domínio e comunicação com outros reis, imperadorese faraós. Pelo uso da força e da conveniência, muitos destes dominadores eram analfabetos.
No Brasil por séculos o idioma predominante foi o tupi, cuja forma gráfica em letras e símbolos não existia, procura-se agora registrar com nossas letras para que não desapareça. Muitas línguasnão apresentavam formas gráficas de letras, apenas os sons; estes povos não sabiam ler e escrever, não havia a escrita. Nestas populações seus líderes e sábios não sabiam ler e escrever, mas ensinavam, transmitiam sua cultura, eram inteligentes, bons pais e filhos, apenas não registravam seus sons de comunicação na forma gráfica. Alguns sabiam mais que uma dessas línguas.
As letras representam uma ferramenta de registro de nossas observações e abstrações, nada mais. As letras permitem nos comunicar amplamente e ainda deixar registrados nossos pensamentos para as futuras gerações. As letras não aumentam nossa inteligência, nossa capacidade de raciocínio e de abstração e não modifica nossa índole. As letras não nos dão bondade, amor e honestidade. As letras não são as únicas ferramentas de comunicação, existem muitas outras como os gestos, expressões faciais, sons, pinturas e postura corporal. Alguns filmes, peças teatrais e livros não têm letras e nem sons na forma de palavras e são indicados e admirados com prêmios e menções honrosas em festivais e academias.
Há menos de 100 anos, em nosso país, quando alguém completava o ensino fundamental, chamado de primário, podia ser professor. Depois exigiu-se completar o ensino médio ou ginásio para ser professor. Alguns anos passaram-se e tornou-se necessário o colegial chamado de “escola normal”. Agora requer-se curso superior para que um professor possa ser considerado apto e pleno a ensinar nossas crianças. A concorrência, progresso e evolução vai exigindo cada vez mais das pessoas.
As sociedades criavam suas elites pensantes com seus filhos e futuros líderes nas universidades. Por décadas, a universidade passou a ser formadora dos intelectuais e pretensamente sábios. O sistema político foi se aperfeiçoando e a democracia exigiu que todos pudessem freqüentar as universidades. Assim está sendo. Mas o sistema competitivo cria soluções para diferenciar pessoas: surgiram mestrados e doutorados. Todos teremos freqüentado a universidade e muitos já têm o mestrado. A elite hoje é formada pelos doutores, livre-docentes e titulares. Logo, todos terão oportunidades de chegar lá e novas formas de diferenciação o homem encontrará para sobressair-se um sobre o outro, ou para ter salário maior.
Ser letrado, mestre e doutor não nos dá sabedoria, nem maior capacidade de compreender e perdoar o próximo e até a si mesmo. A inteligência, a cultura, o raciocínio e capacidade de liderança não são inerentes ao letrado. Nos dias de hoje, para ter oportunidade se exige escolaridade e isto faz com que os analfabetos e pouco letrados sejam relegados a segundo plano, mas necessariamente não deixam de ser inteligentes, generosos, sábios, bons pais e filhos. Quando escrevi que o cérebro não precisava ser alfabetizado para funcionar bem, em todos os sentidos (JC-Ciências – 29 de novembro), quis deixar a seguinte mensagem: não tenha preconceitos com os analfabetos, pouco letrados, com os que não fizeram faculdade, que não tenham mestrado ou que ainda não fizeram seu doutorado. Eles podem ser generosos, inteligentes e sábios, pois as letras não moldam o cérebro, ou seja, o homem!
O autor, Alberto Consolaro, é professor titular da USP em Bauru e colunista de Ciências do JC