Brasília - Dilma Rousseff tomou posse ontem como a primeira presidente mulher do Brasil dizendo que a pobreza extrema "envergonha o País". Repetiu a promessa feita pelo antecessor Luiz Inácio Lula da Silva em 2003 de erradicar a fome, e defendeu que o País se torne de "classe média sólida e empreendedora". "A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos."
Aos 63 anos, a ex-militante de esquerda e ex-presa política foi declarada empossada às 14h52 por um antigo integrante do campo político da ditadura que combateu, José Sarney (PMDB-AP). Ela dedicou sua vitória aos que "tombaram pelo caminho".
Na qualidade de presidente do Senado, Sarney comandou a posse de Dilma e do vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP), comportando-se como mestre-de-cerimônias. Fez discursos articulados, homenageando Lula e admoestando Dilma.
O discurso de 40 minutos de Dilma foi basicamente uma repetição dos temas que ela vem citando desde sua eleição, além da elegia dos anos Lula. A novidade foi a introdução daquele que pode ser seu bordão de discursos: "Queridas brasileiras, queridos brasileiros".
O texto teve como mote a afirmação de que seu antecessor e padrinho político promoveu o "despertar de um novo Brasil" e "o maior processo de afirmação" que o país já viveu. "Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos na mesa", disse a petista, que é a 40.ª pessoa a ocupar ocupar a Presidência da República.
Dilma reafirmou que a luta de seu governo será "a erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos", além da melhora na "educação, saúde e segurança."
O trajeto que levou a presidente da Granja do Torto - residência oficial - até o Congresso Nacional, onde ela foi empossada, durou 30 minutos e ocorreu abaixo de forte chuva, o que a impediu de desfilar em carro aberto.
Ao chegar ao plenário da Câmara, foi recebida por gritos de "olê, olê, olê, olá, Dilma". Sua fala, cuja montagem teve a participação do marqueteiro de campanha, João Santana, e do novo ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, teve duas referências ao escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967), seu conterrâneo.
Na economia, prometeu a estabilidade de preços, sem falar em juros. "Podemos ser, de fato, uma das nações mais desenvolvidas e menos desiguais do mundo - um país de classe média sólida e empreendedora."
Defendeu, genericamente, reformas política e tributária. Destacou a geração de empregos e disse que a descoberta as reservas do pré-sal é um passaporte para futuro.
Dilma enfatizou o compromisso de gênero, lembrando que seria a primeira vez "que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher."
Além de Lula, a presidente fez homenagem particular ao ex-vice-presidente José Alencar, internado.
Dilma reafirmou compromissos com as liberdades individuais, religiosas, de imprensa e opinião. "Reafirmo que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras".
Voltou a dizer que "estende a mão" à oposição e deu as linhas gerais de como agirá na relação externa, dizendo que atuará de forma dura contra protecionismo de países ricos e de que não tolerará a existência de "enormes arsenais atômicos" e o terrorismo". Prometeu continuar junto aos "irmãos africanos e da América Latina", mas também "aprofundar" as relações com EUA e Europa.
Tendo sido alçada à condição de favorita de Lula após o principal escândalo de corrupção do governo, o mensalão, Dilma disse que "não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito."
Dilma vestia um tailleur branco-gelo e salto baixo, e o cabelo armado característico de seus dias de campanha. Durante a leitura praticamente sem improvisos do discurso, engasgou algumas vezes, recorrendo à água.
Chorou brevemente quando disse que seria a "presidenta de todos os brasileiros". E encerrou homenageando a mãe, a filha e a neta, adotando um tom maternalista lembrando o estilo Lula: "É com este mesmo carinho que quero cuidar do meu povo".
No parlatório
Como no discurso do Congresso, Dilma voltou a destacar o governo Lula em sua fala após receber a faixa no parlatório do Palácio do Planalto. "A alegria que sinto com a minha posse como presidente se mistura com a emoção de sua despedida", afirmou, em discurso de 12 minutos e 48 segundos de duração que seguiu a mesma linha do feito no Congresso.
Segundo ela, suceder Lula é uma tarefa desafiadora. "Hoje o presidente Lula deixa o governo depois de oito anos, período que liderou as mais importantes transformações deste País."
Dilma também falou de novo sobre a sua condição de primeira mulher presidente. De acordo com ela, o governo Lula é que permitiu o avanço do Brasil eleger uma mulher.
Lula é citado cinco vezes
Brasília - A presidente Dilma Rousseff, citou cinco vezes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no seu discurso de posse, no Congresso Nacional, prometendo "consolidar a obra transformadora" dele. "A maior homenagem que posso prestar a ele é ampliar e avançar as conquistas do seu governo. Reconhecer, acreditar e investir na força do povo foi a maior lição que o presidente Lula deixou para todos nós", afirmou a presidente. "Sob sua liderança, o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história", completou.
Dilma iniciou seu discurso reforçando sua condição de primeira mulher presidente do Brasil. Disse que não usará o cargo de presidente para enaltecer a própria biografia, e sim para "glorificar a vida de cada mulher brasileira".
"Venho para abrir portas para que muitas outras mulheres, também possam, no futuro, ser presidenta; e para que - no dia de hoje - todas as brasileiras sintam o orgulho e a alegria de ser mulher", disse.
Ao longo do discurso, Dilma relembrou as conquistas sociais do governo Lula, como os milhões de famílias retiradas da miséria e outros milhões que foram levados à classe média. "Vivemos um dos melhores períodos da vida nacional: milhões de empregos estão sendo criados; nossa taxa de crescimento mais que dobrou e encerramos um longo período de dependência do FMI, ao mesmo tempo em que superamos nossa dívida externa".
A presidente defendeu ainda a liberdade de imprensa ao citar frase que já havia dito ao longo da campanha eleitoral: "Reafirmo que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. Quem, como eu e tantos outros da minha geração, lutamos contra o arbítrio e a censura, somos naturalmente amantes da mais plena democracia e da defesa intransigente dos direitos humanos, no nosso País e como bandeira sagrada de todos os povos".
Novo governo deve ser
marcado por perfil técnico
Diferente de Lula, um sindicalista que se acostumou a negociar em qualquer situação, Dilma é uma gestora nata, visivelmente pragmática e reconhecidamente menos carismática. Para muitos, o diferente perfil já será suficiente para garantir sensíveis mudanças no modo como a política externa será levada pelo próximo governo - e de como será vista lá fora. O perfil técnico de Dilma contrasta com o estilo "amistoso" de Lula, que abriu portas com diversos líderes e fez com que ele ganhasse popularidade internacional.