Sempre que um novo ano começa, há promessas de que tudo será diferente. Entretanto, na tarde de ontem, Bauru já registrou uma das ocorrências que mais assustaram a cidade em 2010: os homicídios. O ano passado terminou com a triste marca de 46 assassinatos - conforme contagem feita pelo JC - e, com apenas três dias, 2011 já contabiliza o primeiro caso.
Em pleno dia, um homem de 27 anos foi baleado e assassinado dentro de uma oficina mecânica de sua família, no bairro Vila Bela. Pedro Amaral Júnior ajudava o pai a administrar o estabelecimento, localizado na quadra 6 da rua São Vicente.
Por volta das 15h15, ele estava no escritório da oficina quando o crime ocorreu. Segundo informações da polícia, a vítima foi atingida por dois disparos nas costas.
No momento do crime ainda havia outro mecânico na oficina. Neimar Rocha dos Anjos, 27 anos, estava consertando um dos veículos quando ouviu os tiros.
"Eu estava no fundo e escutei dois disparos. Corri e ainda ouvi ele gritando de forma desesperada meu nome. Ele me chamou por três vezes. Foi o tempo em que vi ele saindo do escritório cambaleando. Ele andou um pouco e já caiu de joelhos no corredor", relembra.
No chão, era possível visualizar uma munição deflagrada e marcas de sangue. Apesar do mecânico Neimar ter socorrido a vítima, ele disse não ter visto os suspeitos. Porém, um casal que chegava na oficina conseguiu visualizá-los.
Segundo as testemunhas, que tiveram as identidades preservadas, um rapaz gordo, alto e de cabelos encaracolados correu em direção a outro homem, que o esperava com uma motocicleta na esquina.
"O homem era gordo e estava segurando um capacete. Ele não conseguia correr direito. Até achamos que ele era a vítima de um assalto pela agitação que estava. Ele corria e só gritava ?Vamos, vamos, vamos?".
Fuga
Assim que chegou até a motocicleta pilotada pelo outro homem, descrito como moreno e magro, ambos fugiram. "Cheguei e vi o Pedrinho caído no corredor. Fiquei desesperado. Não sabia o que fazer. Minha única reação foi a de chamar a ambulância", conta o homem, mostrando seu celular com uma chamada registrada às 15h19 para a Emergência.
Pedro Amaral Júnior chegou a ser socorrido com vida, porém, morreu no Pronto-Socorro Central. Com isso, ele se torna a primeira vítima de homicídio em 2011.
Segundo o que a reportagem apurou no local, o pai da vítima e proprietário da oficina, Pedro Amaral, havia acabado de sair do estabelecimento para "socorrer" um cliente. Ao saber da notícia, ele ficou em estado de choque e precisou ser acalmado com medicamentos.
Outra pessoa que também estava com Pedro minutos antes do ocorrido foi Ivanildo Júnior. Cliente e amigo da família, o comerciante conta que havia acabado de sair do local quando tudo ocorreu.
"Eu nem acredito. Tinha saído no mesmo instante que essa tragédia aconteceu. Saí e logo recebi a ligação desesperada dizendo que Pedrinho tinha sido baleado. Parece que eles estavam esperando eu sair e a oficina ficar vazia".
De acordo com conhecidos da família, a mãe da vítima havia falecido há algum tempo. Na tarde de ontem, somente seu pai estava em Bauru. Pedro Amaral Júnior ainda tinha um irmão, que juntamente com o restante da família, passava férias na praia de Ilha Comprida. Todos foram avisados da tragédia e tiveram que interromper a viagem.
Duas hipóteses
Segundo o delegado Cledson do Nascimento, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), há duas linhas de investigação para o caso. A primeira seria latrocínio - que é o crime de roubo seguido de assassinato - e a segunda, homicídio.
Tais hipóteses foram levantadas uma vez que, após uma análise primária, os autores do crime teriam ido embora sem levar qualquer valor ou objetos da oficina. "Teremos que analisar primeiro a motivação. É isso que estamos tentando apurar. Enquanto não confirmarmos isso, trabalharemos nessas duas linhas de investigação".
Vítima não teria desafetos, afirmam amigos
Minutos após o acidente, a oficina palco da tragédia começou a ser visitada por inúmeros vizinhos e amigos da família. Ao chegar ao local com ares de incredulidade, todos afirmavam que a vítima era muito comportada e calma.
"Ele era um garoto excelente. Há muito tempo ajudava o pai aqui. Não tinha vícios e nem nada. Sempre foi um jovem exemplar", conta o amigo Ivanildo Júnior.
O marceneiro José Pires, 54 anos, afirma que conhecia "Pedrinho" desde criança e que "era um garoto muito bom". "Ele não fazia mal para ninguém. Ele namorava e pediu para que eu fizesse uma mesa para presentear a garota. Ficou muito feliz quando eu fiz. Ele era desse jeito: atencioso com todo mundo", descreve o senhor, emocionado.
Na oficina, havia apenas um familiar da vítima. Porém, abalado, o primo não quis falar com a reportagem sobre o ocorrido.
Já o delegado Cledson do Nascimento também confirmou que, de acordo com as primeiras apurações, o perfil traçado foi de uma pessoa calma, comportada e que não teria inimigos capazes de cometer tal crime bárbaro.
?Foi um assalto que deu errado?, diz funcionário
Enquanto a Polícia Civil trabalha em duas linhas de investigação e não descarta a hipótese de homicídio, os vizinhos e amigos afirmam com convicção que o caso se trata de "um assalto que deu errado".
Eles afirmam isso pelo comportamento pacato de Pedro Amaral Júnior e por um fato recente: a cobrança de contas de energia propiciadas pela instalação do CPFL Total no estabelecimento.
O mecânico Neimar Rocha dos Anjos, que estava na oficina no momento do crime, aponta que, desde que as contas de energia passaram a ser pagas no estabelecimento, o movimento aumentou.
"Antes, somente tínhamos clientes aqui. Agora o pessoal passou a vir para pagar as contas. Um dia, entraram de noite e levaram algumas ferramentas, porém, nada grave. Acredito que, agora, os bandidos acham que há mais dinheiro", completa.
Entretanto, mesmo com as suspeitas dos vizinhos, amigos e até funcionários, até o fechamento desta edição não foi confirmado se os suspeitos levaram algo da oficina. Por isso, as investigações trabalham na linha de assalto seguido e morte ou de um possível homicídio motivado por outros fatores.
Número alto em 2010
Conforme o JC divulgou no ano passado, Bauru ultrapassou em outubro o limite que a Organização das Nações Unidas (ONU) considera aceitável para homicídios durante o intervalo de um ano. Analisando o tamanho populacional, a cidade não poderia ter mais de 36 assassinatos em 2010, mas encerrou o ano com 46 casos. No ano passado, o primeiro assassinato foi registrado no dia 8, ou seja, cinco dias depois do crime de ontem. Em 2009 inteiro, o município totalizou 28 casos.
No início desta década, por quatro anos seguidos Bauru registrou mais de 40 casos por ano. O recorde foi em 2004, com 49 assassinatos, somente três a mais do que em 2010.