Bairros

Como é a vida de um morador de rua em Bauru

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Fé em Deus e pé na tábua

Há dez anos o bauruense Adilson de Souza, 38 anos, não sabe o que é retornar para o conforto de um lar depois de um dia intenso de trabalho. Isto porque, para isso, faltam duas coisas: o lar e o trabalho.

Adilson nasceu, cresceu, casou-se e teve cinco filhos na Cidade Sem Limites. Também foi no município que provou o gosto de bebidas alcoólicas pela primeira vez. Saiu de casa aos 28 anos, depois de brigar com a esposa por conta do vício adquirido e, desde então, a sarjeta tem sido seu endereço constante.

Para sobreviver, cuida de carros durante a noite e pede doações de alimentos, roupas e dinheiro. A Bíblia, uma mochila do Corinthians, duas panelas e algumas peças de roupa são seus únicos e inseparáveis companheiros.

"Deixei minha casa e minha família porque sabia que estava atrapalhando. Foi uma escolha minha e não me queixo da vida que levo, mas sinto falta dos meus filhos. Tenho de arcar com as consequências. Creio que é um plano que Deus tem para mim. É preciso que eu passe por provações para alcançar o reino dos céus", filosofa ele, buscando encontrar uma explicação para a situação que vive atualmente.

E quando o assunto é rua, Adilson é escolado: conhece Bauru como se fosse a palma de sua mão, sabe os melhores pontos para se abrigar nos dias de chuva e detecta de longe gente mal intencionada.

Em conversa com a reportagem, ele se mostrou bem articulado e foi logo fazendo as reivindicações: "Já que é pra falar, vou soltar o verbo. É o seguinte: estou na rua porque este é meu destino, mas não é fácil. Quem puder ajudar doando roupa e comida, agradeço muito. Qualquer R$10,00 tá bom", pede, em tom de brincadeira.


____________________

Amigos para sempre

"Um por todos e todos por um." Quem conhece os moradores de rua Luiz Marcelo Vieira dos Santos, 36 anos, João Batista Mizael, 55 anos e Lourival Jesus Ribeiro, 59 anos, sabe que o famoso lema dos Três Mosqueteiros se encaixa perfeitamente na história de vida deles.

O trio, que se conheceu nas ruas da cidade, tem histórias de vida parecidas: todos saíram de casa por conta de conflitos familiares, já passaram frio e fome, sofrem com o alcoolismo e, atualmente, moram na zona sul da cidade, especificamente em uma praça em frente à Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag), no Jardim América.

As condições de vida oferecidas pela rua fizeram com que Luiz Marcelo, João Batista e Lourival se tornassem amigos inseparáveis. Tão inseparáveis a ponto de afirmarem que nem se tivessem onde morar sairiam das ruas abandonando os parceiros.

"Ô, Grande, aqui é assim: mexeu com um, mexeu com todos. Somos uma irmandade, vivemos melhor que uma família. É um por todos e todos por um", avisa João Batista.

Lourival é o mais velho do grupo e também o mais tímido. Durante a entrevista foi quem menos falou e ficou a maior parte do tempo tomando um líquido branco engarrafado em uma pet. "Cachaça com refrigerante", soprou um deles.

Já João Batista, apesar de tímido, falou bastante, quase sempre dando alertas se que seria capaz de fazer qualquer coisa para defender os companheiros. Além disso, é cismado: perguntou cinco vezes à equipe de reportagem se éramos assistentes sociais.

"Eu estou nesta vida porque quero. Já fui bancário e hoje recebo uma pensão. Saí de casa porque brigava muito com minha esposa. Agora quero curtir a vida e meus amigos. O negócio agora é vadiar, nem penso em trabalhar. Quero sossego", afirma, propondo, na sequência, um desafio matemático, para provar que realmente trabalhou em banco.

Luiz Marcelo é o mais espontâneo do trio. Veio do Espírito Santo em busca de emprego e passou por diversas cidades até chegar em Bauru. A vida que leva ao lado dos companheiros não é a que ele sempre sonhou, mas garante que não a troca por nada.

"A gente se acostuma. Não sairia da rua para ir para o albergue, é muita humilhação. Assim tenho uma vida de liberdade, sem regras. É complicado para arrumar emprego, mas cada coisa tem seu preço", pondera.


____________________

Vida intensa

O assassinato da mãe e o abandono do pai foram os fatores que levaram Márcio Colacino dos Santos, 27 anos, a conhecer a dura realidade das ruas. Foi após se sentir sozinho no mundo que ele decidiu vir de São Paulo para o Interior em busca por parentes.

"Mas cheguei aqui e descobri que meu parentes também já tinham morrido. Sem ter onde morar, passei algumas noites nas ruas de Bauru, mas há três semanas estou dormindo no Albergue e passo os dias no Centro de Referência Especializado em Atendimento à População em Situação de Rua (Creas-Pop). Até consegui um emprego em uma agência de publicidade! Começo dia 10", comemora, animado.

Seus dias sob os viadutos de Bauru foram poucos, mas suficientes para se tornarem inesquecíveis. Ele conta que os olhares de desprezo e indiferença que recebeu de algumas pessoas o marcaram para toda a vida.

"A rua é o mundo das tentações. Lá você passa frio, sente fome e solidão. Além disso, é desprezado e sofre provações com o álcool e drogas. Para não sucumbir é preciso muita determinação", avalia ele, que gosta de escrever poesias.

Com a vida retomando o rumo, Márcio confessa que não vê a hora de conquistar seu próprio espaço onde, segundo ele, não vão faltar noites animadas pelo som de um violão, que pretende comprar com seu primeiro salário.


____________________

Amarrado pelo vício

O tom de voz baixo e os gestos tímidos denunciam a vergonha que Everton do Nascimento, 23 anos, sente ao confessar que há cerca de dois meses passou a morar nas ruas de Bauru por conta do vício em crack.

Usuário da droga desde os 17 anos, Everton preferiu deixar a casa da família quando notou que a situação já estava se tornando insustentável.

"Eu não me sentia bem em casa e direto brigava com minha mãe. Nossas ideias não batiam mais. Decidi me tornar morador de rua quando passei a roubar coisas de casa e agredir minha família para comprar crack", conta.

Desde então, qualquer marquise é lugar para passar a noite. Durante o dia, ele frequenta o Centro de Referência Especializado em Atendimento à População em Situação de Rua (Creas-Pop), na tentativa de se manter afastado da criminalidade.

"No início, eu dormia no albergue, mas um dia aprontei e fui fichado, então não posso mais ficar lá. De dia venho no Creas-Pop porque é melhor. Se eu fico na rua, de bobeira, acabo indo para os sinais, faço qualquer coisa para conseguir a droga", explica ele, que confessa fumar a pedra quase todas as noites.

Sobre a experiência de morar na rua, Everton não consegue descrevê-la. "Para falar a verdade, eu nem sinto nada. De noite, quando vou pra rua, logo me drogo, passo a noite perambulando. Só me dou conta da humilhação que passei no dia seguinte", lamenta.

Ciente de que deve travar uma batalha contra si próprio, Everton, ao mesmo tempo que deixa transparecer que não tem perspectivas, sonha em ser cantor.

Comentários

Comentários