Secas intensas e prolongadas de um lado, inundações de outro, vendavais, nevascas, verões inusitados, mortes de toneladas de peixes... Lições a aprender e praticar. Mudanças climáticas nos apavoram, mas quem as provoca? A Primeira Conferência Mundial do Clima (1979) foi o primeiro evento mundial da ONU para tratar do tema. A repercussão pareceu tímida. No Brasil, ainda tentávamos sair da ditadura. Foi só na Rio 92 (mais conhecida como Eco 92) que governos de diversos países adotaram a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, primeiro instrumento internacional que entrou em vigor somente em 1994. As mulheres montaram o "Planeta Fêmea" e fizeram barulho na defesa do equilíbrio ambiental. Às vezes ridicularizadas, eram chamadas de "catastrofistas". Sabemos como o governo estadunidense boicotou o Protocolo de Quioto assinado na COP 3, em 1997. Houve mobilizações por conquistas na COP 15, em Copenhague (2009), mas acabou num fiasco: o Brasil deixou a desejar. A Cop 16 (Cancun, fim de 2010) também quase não avançou. Os movimentos sociais se mobilizaram. Convocados (durante a COP 15) pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, realizaram em Cochabamba, em abril de 2010, a Conferência Mundial dos Povos sobre Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra. Diante dos tímidos avanços de Copenhague, propuseram ações mais contundentes para deter o aquecimento global. Foi divulgada uma carta exigindo dos países desenvolvidos o cumprimento das metas de redução de emissões de gases que causam o efeito estufa. Para visibilizar as propostas dos movimentos sociais, na Cop 16 organizaram mobilizações paralelas: as Milhares de Cancuns. O presidente Evo Morales coordena uma grande Consulta Mundial para denunciar os responsáveis pelo desequilíbrio climático e propor saídas mais corajosas, rápidas e criativas. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sempre alerta às necessidades mais urgentes do povo brasileiro, tem proposto, incentivado e oferecido subsídios e condições para a realização de oportunas campanhas nacionais. Neste ano de 2011, lança a CF 2011 com o tema "Fraternidade e Vida no Planeta". As desastrosas consequências da adoção de um modelo predador da natureza aí estão a nos convidar à reflexão e atitudes urgentes e corajosas. As migrações provocadas pelas mudanças climáticas atingem números assustadores: em 2010 já são 50 milhões e, dentro de 40 anos, poderão ser 700 milhões. As mulheres, em especial as das camadas pobres, são as que mais são obrigadas a migrar. Iniciativas de um modelo predador ocorridas em todo mundo impediram 60 milhões de meninas de frequentar aulas, obrigadas que foram a buscar água percorrendo grandes distâncias, quase que diariamente, com pesadas latas sobre suas cabeças, em prejuízo do crescimento e da saúde. Nos últimos 50 anos, as mudanças climáticas foram maiores do que em 1.300 anos, o que levou Paul Crutzen a afirmar que estamos entrando em uma nova era: o antropoceno. Se não quisermos que sejamos atingidos por tragédias ainda maiores, em curto espaço de tempo, urge tomada de decisão que pressionem governos, empresas e instituições mundiais a deter a insensatez da adoção do modelo predador em curso. Fraternidade e Vida no Planeta. Somos apenas uma pequena parte da vida desse planeta tão rico em sua diversidade biológica e tão depredado a ponto de corrermos o risco de transformá-lo numa imensa e árida ilha de Páscoa. A autora, Iolanda Toshie Ide, é integrante da Conferência das Partes, Campanha da Fraternidade e foi prêmio Nobel de Química no ano 2000
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