"Teve um dia que eu rodei Bauru inteiro para comprar maconha. Como não achei, me ofereceram uma pedra (de crack) para não ficar careta. Eu ainda não havia experimentado o crack. No mesmo dia, voltei lá e comprei mais cinco pedras." Começava aí o tormento que iria transformar radicalmente a vida de um jovem empresário. Em pouco tempo, Fernando (nome fictício) viu ruir diante de seus olhos tudo o que havia conquistado até então. E não era pouca coisa.
Ele chegou muito próximo do "fundo do poço". Quando se deu conta que estava prestes a perder seu bem mais precioso, sua filha de 4 anos, Fernando decidiu buscar ajuda. A esposa ameaçou ir à Justiça para impedi-lo de ter contato com a filha se continuasse envolvido com as drogas. Depois de uma primeira tentativa mal sucedida, ele encontrou no acolhimento de um grupo religioso um ambiente propício para sua recuperação.
Desde então, já são oito meses de abstinência total. Tempo suficiente para sua vida dar outra reviravolta. Só que desta vez, para o lado positivo. "Nunca estive tão bem comigo e com a minha família", comemora. Segundo ele, a alegria e a satisfação da família por vê-lo recuperado servem como um "baita" estímulo contra recaídas. "É um grande incentivo ver as coisas tão bem como estão", revela.
Na opinião dele, a religiosidade presente no local e o tratamento de igual para igual oferecido pelos responsáveis pela comunidade terapêutica Esquadrão da Vida, onde está internado, foram fundamentais para o sucesso da sua luta para abandonar as drogas. O fato dos responsáveis terem passado pelo mesmo problema no passado, também ajuda, segundo Fernando.
Estudo
E esse não é um caso isolado. Um estudo feito pela pesquisadora Zila Van Der Meer Sanchez, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), órgão ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que a religiosidade é um fator decisivo para os dependentes abandonarem o vício.
Não tanto a pregação religiosa, mas a prática da doutrina cristã no relacionamento com os dependentes é o que tem feito a diferença de imediato. "Quando eles chegam (nas comunidades terapêuticas cristãs) encontram um grupo acolhedor, que trata o dependente de forma diferenciada, humanizada, sem preconceito. É diferente do que ocorre fora dali", justifica Zila.
Segundo ela, ao conviver com pessoas que não os ficam julgando nem taxando-os como culpados, os dependentes sentem-se mais à vontade para recomeçar. "Ao se sentirem perdoados e fazendo parte de uma família, a autoestima deles melhora e eles veem que é possível começar de novo", relata. Mas para que tudo isso seja uma realidade, é preciso que a pessoa queira ser ajudada. Este é o princípio de toda e qualquer mudança.
A pesquisadora lembra que a importância desse apoio, de caráter humanitário e cristão, torna-se ainda maior quando o dependente perdeu a credibilidade dentro de casa. Depois de diversas recaídas, Zila conta que é natural que haja um desgaste na relação com a família. "Ela passa a não acreditar mais na recuperação", observa.
Zila ouviu 85 pessoas em São Paulo, entre homens e mulheres, jovens e adultos, e outros 30 na Espanha. Segundo ela, todos estavam abstinentes há pelo menos seis meses. Alguns há mais de cinco anos.
De acordo com a psicóloga Lindsey Paulo, da comunidade terapêutica Bom Pastor, a religiosidade estimula, inclusive, o trabalho voluntário. Ela comenta que muitos dependentes de drogas sentem-se realizados quando percebem que estão sendo úteis.
Segundo a psicóloga, esse tipo de trabalho serve como uma reinserção dos voluntários à sociedade e ajuda a desenvolver o respeito ao próximo. Lindsey comenta que os dependentes, pela necessidade de sustentar o vício, tornam-se egocêntricos. Portanto, o trabalho voluntário serviria para corrigir esse desvio de personalidade.
Para a psicóloga, a adoção da doutrina cristã é imprescindível para o sucesso do tratamento, mas é preciso ir além. "O resgate tem de ser em todas as dimensões. Além do aspecto espiritual, tem também o social, mental e emocional. Só assim a recuperação será completa", afirma.
Salviano concorda. Segundo ele, a espiritualidade é apenas um aliado. Assim como a disciplina, a atividade física, o relacionamento e o trabalho.