Geral

Pró-reitora fala do isolamento de áreas

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Ela escreveu recentemente, em uma de suas inúmeras publicações acerca do universo acadêmico nacional, sobre a ideia do isolamento entre as áreas de conhecimento nas universidades. Para a professora e doutora Maria Arminda do Nascimento Arruda, pró-Reitora de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo (USP), uma série de fatores levam a esta situação, um deles a segmentação.

Graduada em ciências sociais pela USP, com mestrado e doutorado em Sociologia livre-docente em 2000 e, desde 2005, professora titular do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), ela falou ao JC sobre o divisionismo do pensamento no mundo moderno e da falta de interconexão.

"Há uma conjunção de fatores a explicar o motivo de tal coisa acontecer. Eu chamaria atenção para pelo menos dois que me parecem muito relevantes. O primeiro deles é que há uma segmentação no mundo moderno, sobretudo nos ambientes das universidades, entre o que chamamos da dimensão da cultura - no que envolve as artes, enfim, todas as chamadas disciplinas de humanidades, as disciplinas sociais - e as chamadas ciências, que com uma concepção de ciência que está por trás, que é sobretudo ligada às ciências experimentais", diz.

Para Arminda, este processo é responsável pela separação acentuada, e por vezes até radical, entre a cultura e a ciência. "Evidentemente, se isso está na origem dessa separação, é preciso entender o porque que ela ocorre. Por isso falei que dois fatores merecem uma atenção especial. A primeira é bastante conhecida e tem até uma certa banalidade, que é o fato de que hoje todos os domínios do conhecimento, que sejam os da ciência propriamente dita, stricto sensu, que seja os da cultura em sua abrangência, são muito vastos e muito complexos, e portanto dominar todas as duas áreas é praticamente impossível para a escala humana. E isso é banal e tende, naturalmente, a certa dificuldade de fazer essa junção", aborda.

O segundo aspecto, aponta a professora, é fruto desse próprio processo de separação, o que o explica. Ela absorve que a partir, especialmente, do seculo XVIII, e sobretudo, no século XIX, as ciências adquiriram uma certa centralidade muito grande, onde se romperam as relações entre cultura e ciência, como se a ciência fosse desconectada da cultura.

"Este processo mutila tanto a cultura quanto a ciência. Em primeiro lugar porque a valorização da ciência e a própria ciência é fruto de uma transformação da cultura, que tem no século XVIII sua forma mais avançada. É o movimento da ilustração, o iluminismo, o processo de racionalização do mundo, o processo que um grande sociólogo, um dos fundadores da sociologia, chamou de desencantamento do mundo, o momento no qual Deus já não está mais na centralidade da explicação do mundo e da vida. Isso é desencantar o mundo, não há mais, é a rejeição das dimensões mágico-religiosas e que até o século XVIII eram dominantes", avalia.

Para a socióloga, isso caminha no sentido de que a racionalização extrema, que é fruto de uma mudança da cultura, emerge como saber identificado com a explicação da dinâmica da vida. Mas a vida e o mundo entendidos num sentido mais preciso: dos organismos e aos mesmo tempo das dimensões físico-culturais.

"Essa é a ciência no seu desenvolvimento. E ela passa, se transforma, na grande magia do mundo contemporânea. Como se tudo se resolvesse a partir da explicação científica. Esses elos são rompidos, entre cultura e ciência, no processo de desenvolvimento da ciência, como se ela não tivesse nada a ver com a cultura, quando no fundo ela é fruto da transformação da cultura. E é essa a questão que estava na base da minha reflexão. É mais complexo, mas é substancialmente isso", finaliza.


Morte dos intelectuais

Desta avaliação, Arminda Arruda partiu para a reflexão de que, levando-se em conta diferentes fatores, acontece, no meio acadêmico a morte dos intelectuais, isso no sentido do que é o mundo dos cientistas na sua forma mais estrita.

"O que eu estou pensando como intelectual? Aquela figura que busca uma compreensão mais abrangente da via, aquilo que Tolstoi, um grande escritor russo, falou, tem problema que a ciência jamais vai resolver. É o problema da própria existência e ela ultrapassa essas dimensões. E que o filósofo Heiderger diz: o que vai distinguir no fundo a humanidade é que nós somos seres que sabemos que vamos morrer. E isso nos distingue. Entre as espécies existentes, nós sabemos que somos transitórios. Diante desse transitoriedade é preciso repor os nexos entre cultura e ciência", pontua.

Por isto, a socióloga aborda que nessa medida é que acontece a morte dos intelectuais. É aquela figura que tem um compromisso mais abrangente com o mundo e que é capaz de fazer a crítica do existente. Ou seja, a comprovação de que a técnica sem a crítica resulta nas piores formas de dominação.

"Isso aconteceu no nazismo, no stalinismo e em todas as formas totalitárias. A pergunta que se faz, por exemplo para a Alemanha, ou para a Rússia e União Soviética. Eram duas culturas muito importantes no ocidente e viviam momentos pujantes: por que foi possível o nazismo e o stalinismo, que ao mesmo tempo destruíram esse ambiente intelectual, cultural, artístico, enfim, tudo, tão importante no ocidente? A pergunta que se faz é: por que que os intelectuais não fizeram a crítica? Ou não puderam fazer?", questiona.

Ela pondera que os intelectuais não vivem fora do mundo. Eles estão submetidos a tudo: a todas as vaidades, todas as vontades de poder, como todas as pessoas comuns, inclusive às grandezas e mesquinharias das pessoas comuns. "É preciso acabar com essa aura de que são figuras superiores capazes de olhar o mundo e dizer: olha, este mundo deve ser assim ou assado. Não é disto que eu estou falando. O que quero dizer é que cabe à vida intelectual, ou ás figuras que tenham esse lugar, buscar uma relação de maior tensão entre o mundo existente e outras possibilidades de realização desse mundo", finaliza.1

Comentários

Comentários