Bairros

455 famílias vivem em áreas de risco

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

Bauru tem atualmente oito áreas de risco, todas elas localizadas à beira de córregos, onde vivem 455 famílias, de acordo com levantamento da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan). Além de suas casas estarem em locais que inundam ou perto de erosões, essas pessoas estão em situação de vulnerabilidade social.

Em épocas de chuva, como agora, a vida destas 455 famílias fica ainda mais difícil. O Jardim Yvone, o Parque Real e o Jardim Vitória, três das oito áreas, são as consideradas de maior risco. Por conta disso, 200 famílias que vivem nesses locais estão sendo assistidas por programas de assentamento conduzidos pela Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) e serão removidas para casas em local seguro, construídas pelo programa "Minha Casa, Minha Vida".

Segundo Darlene Tendolo, titular da Sebes, 132 famílias do Jardim Yvone poderão ir para as novas casas no mês de maio e as 38 que vivem no Jardim Vitória serão removidas já no mês de fevereiro.

A falta de segurança das residências nas áreas de risco de Bauru normalmente está associada à pobreza. Moradores do Jardim Maria Célia, outra área também considerada de alto risco, já foram removidos por ocasião do início das obras da avenida Nações Norte. As famílias estão abrigadas em casas de parentes e, através da Sebes, recebem subsídios de programas sociais.

Apesar da expectativa dessas famílias de receberam casas, outras 255 famílias que vivem no Parque das Nações, na favela São Manoel, Vila Zillo e Parque Jaraguá não contam com previsão do poder público para serem removidas e, enfim, viverem com o mínimo de traquilidade dentro de suas próprias casas.

Sem esperança

As condições da casa onde vive a faxineira Miriam Dionísio, na quadra 2 da rua Guilherme Garmes, na favela São Manoel, são assustadoras. Completamente inclinado, a impressão é de que o imóvel pode deslizar barranco abaixo a qualquer momento. "Toda chuva que vem é uma agonia. Enche por baixo, cai água por cima, dá problema na parte elétrica. A gente aprendeu a conviver com o medo", relata.

De acordo com a Seplan, não há previsão para o início de projetos de reassentamento dos moradores da favela São Manoel. Miriam afirma que funcionários da Prefeitura nunca foram a sua casa para orientar a respeito dos perigos no local. "A única coisa que fizeram aqui piorou ainda mais a situação. Antes, o esgoto caía direto no barranco (do córrego). Depois de uma obra que fizeram, parece que tudo entope com a chuva e o esgoto passa de baixo da minha casa", diz.

Segundo a faxineira, a presença do esgoto provocou o aparecimento de uma quantidade grande de moscas e outros insetos em sua casa. "Eu tenho uma filha que já passou por cinco cirurgias e não pode viver em um lugar assim. A gente mora na favela, mas merece respeito", reivindica.

?Entra água por todos os cantos?

Os colchões da dona de casa Silvana de Oliveira, que vive com seu marido e os quatro filhos nos três cômodos de um barraco de madeira no Parque Real, em Bauru, estavam expostos ao sol na tarde de ontem. Eles molharam durante a chuva desta semana.

O acesso da quadra 4 da rua Bráz Fernandes até sua casa é nem um pouco receptivo, tornando necessário todo o cuidado para descer o barranco de terra de aproximadamente três metros de altura. "Quando chove, a gente fica ilhado porque é impossível ter acesso da rua até aqui. Não dá para dormir porque a gente tem que ficar de olho nas crianças para, se acontecer alguma coisa, a gente correr com elas. Nada dá mais medo do que o barulho da pancada da enxurrada na casa", conta.

As histórias de insegurança se agravam a cada relato dos moradores do Parque Real. Maria Aparecida dos Santos, vizinha de Silvana, já viu sua casa cair no ano passado com chuva e vento. "O telhado foi embora e não tem jeito de conseguir impedir que a água entre. E logo logo, vai acontecer de novo. Fora isso, eu sinto a minha casa descer cada vez mais. Vou colocando pedra e madeira para tentar conter. Eu faço o que posso, mas sinto que a situação já chegou no limite", afirma.

Doralice Sobral mora na quadra 5 da Bráz Fernandes e, com um brilho triste no olhar, conta que já se acostumou com o sofrimento rotineiro nas épocas de chuvas. "Tem um buraco no meio da minha casa e entra água por todos os cantos. A Defesa Civil traz os plásticos para a gente cobrir o barraco, mas ele se dissolve e não dura muito tempo", lamenta.

Segundo Doralice, sua filha, que morava em outra casa do bairro, abandonou o lar com tudo o que tinha dentro. "Não tinha condições dela continuar vivendo lá com a minha netinha de dois anos, que estava até doente por causa da umidade. Ela está na casa da sogra, vivendo de favor, e os móveis dela estão todos apodrecendo", conta.

Elisângela Fernandes tem em casa sua filha recém-nascida, de apenas um mês e meio. "Eu estou desesperada. Além da falta de sossego, a água destroi tudo. Foi embora o leite da minha neném, as fraldas. A gente pede ajuda, mas o serviço social não consegue atender a todas as nossas necessidades", aponta.

Defesa Civil ajuda com lona plástica

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro Brito, confirma que, no período de chuvas, as condições de vida nas áreas de risco da cidade se tornam ainda mais graves. "É uma situação frequente durante esses meses. No entanto, o município está tomando medidas importantes para combater essa realidade", afirma.

Brito explica que, em alguns casos, obras de reparos podem ser feitas para amenizar ou eliminar os perigos. Determinadas condições, porém, exigem que as famílias sejam removidas para locais seguros. "Existem pessoas que passam por isso há anos. Infelizmente não podemos fazer tudo no tempo em que nós queremos nem em que elas querem. Mas é importante destacar que o poder público está percebendo, cada vez mais, a necessidade de investir em prevenção para que tragédias não aconteçam", aponta.

Segundo o coordenador da Defesa Civil, comunidades que vivem em área de riscos podem colaborar com a manutenção das condições das casas onde vivem. "Essa é uma medida fundamental, pois é muito comum, inclusive em residências de classes médias, acidentes que poderiam ser prevenidos com a limpeza de ralos e calhas. Nós ajudamos, por exemplo, fornecendo o plástico para cobrir as casas, mas essa é uma medida de emergência, que não deve ser confundida com a resolução do problema", explica.

O mais importante, no entanto, é ressaltar a importância do contato com o Corpo de Bombeiros em casos de situações de perigo ocasionadas pela chuva. Brito afirma, porém, que permanecer em locais seguros é sempre a melhor forma de se proteger.

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