Polícia

Quadrilha come, bebe e depois rouba bar

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min


Uma quadrilha formada por três homens e uma mulher levou R$ 163,55 em dinheiro e cerca de R$ 500,00 em mercadorias de um bar em Bauru anteontem à noite após render e ameaçar de morte o proprietário do estabelecimento usando um revólver de brinquedo e uma espingarda calibre 36. Eles chegaram ao bar por volta das 23h, comeram uma porção de salame, beberam cerveja, jogaram sinuca e depois anunciaram o assalto. Com o dinheiro, fugiram, mas meia hora depois os acusados do crime foram presos no Fortunato Rocha Lima.

O assalto aconteceu em um bar da quadra 11 da rua Antônio dos Reis, no Higienópolis. Segundo o proprietário do estabelecimento, que pediu sigilo da identidade, ainda havia outros clientes no local quando a quadrilha chegou no veículo Peugeot 207 cor prata, de placas DHZ 8000, de Umuarama (PR). "Eles chegaram, sentaram, pediram uma porção de salame, comeram, pediram cerveja e beberam, pediram uma ficha para jogar sinuca e, em seguida, quiseram outra porção de salame com queijo. Quando os clientes foram embora, eles anunciaram o assalto", contou.

O comerciante foi obrigado a deitar-se no chão e ficou alguns minutos sob a mira do revólver de brinquedo e da espingarda enquanto dois ladrões levavam o dinheiro do caixa e também mercadoria que podiam carregar, como latas de cerveja, balas, chicletes, salgadinhos, isqueiros e até uma garrafa de champanhe. "Eles gritavam um com o outro: Mata! Mata ele logo! E um deles dizia: vou matar nada, depois vão reconhecer a gente".

Apesar de não se lembrar de ter visto ou ouvido um dos homens puxar o gatilho da espingarda, o dono do bar poderia não estar mais vivo já que os policiais militares constataram que uma das balas da espingarda estava "picotada", ou seja, o gatilho foi acionado, mas por uma falha, ou sorte do proprietário do bar, o projétil não deflagrou. "Eles me deitaram no chão e ficaram pisando na minha cabeça e nas minhas costas. A Polícia Militar sempre faz patrulhamento no meu bar. Nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo", relatou ainda.

Após encher o porta-malas do veículo com as mercadorias do bar, a quadrilha fugiu. Logo em seguida, ainda consternado com tudo o que tinha acontecido, o dono do bar, que teve o celular roubado pelos assaltantes, foi até a casa de um vizinho e acionou a Polícia Militar através do telefone 190. "Eu tenho o bar aqui há 5 anos e nunca havia sido assaltado, só furtado", afirmou a vítima.

Imediatamente, viaturas de várias localidades da cidade estavam informadas do ocorrido e já fazendo diligências com o objetivo de prender os criminosos. Por volta das 23h30, o soldado Marcelo Venturini e cabo Júlio César, da Base Noroeste, faziam patrulha pelo Núcleo Fortunato Rocha Lima já com vistas aos assaltantes, quando avistaram o Peugeot de cor prata, com as mesmas características descritas pela vítima, estacionado na quadra 3 da rua Benedito Daniel.

"Quando nós vimos o carro e constatamos que era o usado pelos assaltantes, fizemos a abordagem. De início eles falaram que não sabiam da procedência das mercadorias, mas depois eles confessaram o crime. Nós demos voz de prisão a todos e trouxemos eles para o Plantão Policial", contou Venturini. Toda a mercadoria, inclusive o dinheiro e o aparelho celular, foram devolvidos à vítima.

Procurado pela Justiça

Wellington Alves Batista, 21 anos, Paulo Sérgio Batista, 34 anos - tio de Wellington -, Felipe Antônio Alves Pereira, 19 anos e Isaura Alves Pereira, 29 anos, foram presos pelo roubo ao bar e apresentados no Plantão Policial, onde o delegado ratificou a voz de prisão em flagrante. Apesar de Isaura e Felipe terem o mesmo sobrenome, não foi informado se havia grau de parentesco entre eles, apenas que Isaura morava em Santa Catarina.

Segundo os policiais militares, após consulta via Processamento de Dados de São Paulo (Prodesp), ficou constatado que Paulo Sérgio Batista era procurado pela Justiça e deveria estar cumprindo pena pelo crime de receptação. Wellington Alves Batista também possui registros em sua ficha policial e foi solto recentemente depois de ter sido preso por furto. Já Felipe Antônio Alves Pereira não possui passagens pela polícia. O histórico de Isaura não foi divulgado.

Demora


Mais uma vez, a elaboração do boletim de ocorrência demorou muito. Os quatro acusados de roubar o bar foram presos no final da noite de segunda-feira, mas o boletim de ocorrência só foi finalizado no final da manhã de ontem. Os três rapazes seriam levados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru e a mulher encaminhada à Cadeia Feminina de Avaí. O quarteto permanecerá preso até decisão judicial.

?Perderam a noção de punição?, diz capitão

Para o capitão Renato Ramos, comandante da 1ª Companhia da Polícia Militar (PM) de Bauru, os bandidos não pensam nas consequências futuras na hora de cometer crimes. "O que essas pessoas roubaram, dividido em quatro, daria cerca da R$ 40,00 para cada um. E responderão por roubo qualificado e formação de quadrilha. Às vezes um indivíduo ou outro até trabalha, tem uma profissão. Mas o que se perdeu foi a noção de punibilidade. Não imagina que será preso. E com isso as cadeias estão abarrotadas", opina.

Como a Polícia Militar atua diretamente nos efeitos da desestruturação familiar e social, o capitão acredita que falta agir nesse ponto crítico para que os registros desses crimes não continuem a aumentar. "A célula base da sociedade, que é uma família, está desestruturada. Esse processo leva a uma má educação que, por sua vez, acaba caindo nas escolas. Mas o problema está mesmo na educação dada pela família. A escola deve ser apenas um instrumento de transmissão de conhecimento", salientou.

O capitão acredita que políticas sociais atenuariam o problema, uma vez que esses crimes, em sua maioria, são cometidos para sustentar o vício. "E esse problema não está só nas classes baixas, mas também nas mais altas. É um problema de educação e da recuperação desses usuários de entorpecentes", acrescentou.

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