Sensibilizado com a situação enfrentada pelas vítimas das enchentes na região serrana do Rio de Janeiro, no último final de semana, o ex-coordenador da Defesa Civil de Jaú (47 quilômetros de Bauru) o administrador de empresas Cristiano Ferreira dos Santos, de 38 anos, deixou o conforto do seu lar para ajudar o Corpo de Bombeiros, como voluntário, na difícil tarefa de localizar e retirar os corpos que, desde o último dia 11, ainda permanecem soterrados sob toneladas de escombros.
O convite para que ele fizesse parte de uma equipe de resgate no Rio partiu da Defesa Civil do Estado. "Eu já participei (do trabalho de resgate de vítimas) na enchente de Santa Catarina, em 2008; já fui para São Luiz do Paraitinga; de uma enchente que teve no Rio Grande do Sul em 2007. Aí aconteceu essa catástrofe no Rio e a Defesa Civil do Estado ligou perguntando se eu queria vir para cá como voluntário para ajudar. Eu aceitei e estou aqui", conta Cristiano.
No domingo pela manhã, ao chegar a Teresópolis, um dos municípios mais atingidos pelas chuvas, o voluntário revela que foi integrado à equipe do tenente Nascimento, do Corpo de Bombeiros da cidade, que é formada por outras quinze pessoas. "A missão nossa aqui é resgatar corpos", diz. "Ontem (anteontem) mesmo, no bairro de Santa Rita, nós retiramos 11 corpos que estavam soterrados".
O ex-coordenador da Defesa Civil de Jaú declara que só se deu conta da real dimensão da tragédia veiculada nos meios de comunicação quando chegou ao local. No bairro Campo Grande, de acordo com ele, após as enchentes, somente uma igreja ficou em pé. "Segundo relato das pessoas, havia cerca de três mil casas lá e hoje não tem nenhuma", afirma.
Na opinião dele, a destruição constatada no município é um triste sinal de que o número de mortos pelas enchentes pode ser bem maior. A quantidade de desaparecidos na região também é grande e centenas de corpos continuam dentro de contêineres aguardando para serem identificados.
Pela última contagem oficial, divulgada ontem, os mortos na região serrana do Rio chegam a 832, 340 deles somente em Teresópolis. Já o número de desaparecidos é de 541, 244 apenas na cidade. A partir de hoje, o trabalho de reconhecimento das vítimas contará com o reforço de Cristiano, que está escalado para atuar no Instituto Médico Legal (IML) da cidade pelos próximos três dias.
Apesar de decorridas mais de duas semanas das fortes chuvas que deixaram a região serrana do Rio sob um verdadeiro mar de água e lama, o voluntário acredita que ainda vai demorar algum tempo para que os moradores consigam retomar sua vida normal. Algumas localidades ainda estão sem água, telefone e energia elétrica.
No bairro Caleme, que também foi atingido pelas enchentes, embora em menor proporção, Cristiano conta que, em uma das encostas, dez pedras do tamanho de um carro ameaçam desabar sobre algumas casas. "O bairro Caleme não foi tão afetado. Foram 16 imóveis atingidos, cerca de 80 pessoas, e 60 já foram retiradas", diz. "Nós estamos tirando as outras pessoas de lá (próximo à encosta) para elas não correram risco de novo".
Ontem, ele revela que sua equipe se emocionou durante o resgate de dois corpos no local, que estavam soterrados sob uma ponte. "O que chamou a atenção de todo mundo é que esses dois corpos estavam abraçados um com o outro", diz. "Parecia um casal de idosos pela aparência". Na semana que vem, a equipe deve auxiliar nos trabalhos de resgate em Nova Friburgo.
Trabalho de resgate
Cristiano admite que o trabalho de resgate das vítimas das enchentes no Rio de Janeiro é longo, difícil e cansativo. "É igual a cachorro. Você tem que usar o faro para sentir o cheiro, outra equipe vem atrás cavando, vendo. Se tiver difícil, vem uma máquina junto com a gente, que cava e localiza o corpo", conta.
Para que as equipes possam saber com exatidão quais são os locais onde ainda existem pessoas desaparecidas, o voluntário ressalta que a ajuda de vizinhos e familiares é extremamente importante. "Eles apontam onde é a residência, falam em que local ela (vítima) estava dentro do cômodo. Isso está ajudando bastante", afirma.
Apesar da sensação de estar contribuindo de alguma forma para aliviar a dor das pessoas que perderam seus familiares na tragédia, o ex-coordenador da Defesa Civil de Jaú diz que as equipes de resgate atuam com base na incerteza. "A sensação é muito difícil. Você tem que, pelo menos, localizar o corpo para tentar fazer a identificação", explica.
"A parte mais difícil é você não ter como identificar a pessoa. Você não sabe se a família está viva ou não. Às vezes, a pessoa está em um imóvel, mas ela não reside ali, rodou com a lama. Fica complicado".