Cultura

No limbo artístico

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 8 min

Descaso, abandono, desprezo. Esses foram os principais substantivos que pautaram o debate sobre a cultura de Bauru, nos últimos dias. A semana, que começou com um incidente marcado pelo desmaio de uma atriz durante a primeira apresentação da Mostra de Teatro Paulo Neves, trazendo à tona os velhos problemas de estrutura do Teatro Municipal, chega ao fim deixando, entre os artistas, a sensação de esquecimento.

Embora questões como a do ar condicionado quebrado e as precárias condições do único espaço público de apresentações da cidade serem velhas conhecidas da comunidade artística, o que pairou entre os profissionais que se dedicam à cultura foi o sentimento de desvalorização de seus trabalhos.

"Eu me sinto ferida, porque essa é uma situação humilhante. Esse é um momento de vergonha para nós artistas", resume a arte educadora Regina Ramos. "A cultura precisa ser olhada com mais carinho", sintetiza o poeta Luiz Vitor Martinello. A discussão cultural, além dos artistas, mobilizou a comunidade em geral, que, durante toda a semana, manifestou-se por meio de cartas e comentários enviados ao JC. "Descaso: Isso em Bauru já é lei?", escreveu Wilson Carlos de Oliveira no site do jornal.

Para Mariza Basso, diretora de uma companhia bauruense de teatro, a Mariza Basso Formas Animadas, o poder público desconhece seus artistas. Com espetáculos que ganharam destaque em diversos festivais dentro e fora do País, a artista lamenta ter dificuldades em se apresentar na própria cidade. "O que é da cidade é sinônimo de má qualidade. O poder público mal sabe o que fazemos, desconhecem nossa competência e valor artístico e se ele não valoriza o artista local como a cidade terá acesso?", questiona.

A diretora reclama ainda da falta de comunicação entre a comunidade artística e o poder público. "Tem sido muito difícil falar, ter acesso aos últimos secretários da pasta. Nada pode fazer pela Cultura uma secretaria que não recebe seus artistas, que não se interessa pelo o que eles pensam ou necessitam", completa.

Para Regina, embora a indignação predomine no momento, os artistas devem aproveitar o debate para refletir sobre suas ações e contribuir com o desenvolvimento cultural da cidade. "Essa discussão que tomou conta da cidade é benéfica para que a classe artística e a população se mobilizem para reverter essa realidade. Mais do que um momento de reflexão, é a hora de mudar a atitude. Precisamos nos unir mais para lutar pelos nossos objetivos e para que possamos ter orgulho e não mais vergonha", afirma.

Artistas reconhecem desmobilização

Embora se sintam carentes em relação ao apoio do poder público, os artistas reconhecem que a falta de união e articulação entre eles dificultam a conquista de melhorias e projetos para a área de cultura.

Existente há mais de 10 anos, a Sociedade Amigos da Cultura (SAC), por exemplo, tem como maior obstáculo o que é seu principal objetivo: a aglutinação dos artistas. Embora ativa, a entidade admite que carece de representatividade.

"Isso acabou acontecendo porque as dificuldades e a desmotivação fizeram com que cada um fosse seguindo seu caminho. A SAC perdeu força para cobrar mudanças, porque cada um acabou correndo atrás das próprias necessidades", afirma o presidente da associação, André Zambello.

"Os artistas não encontram respaldo aqui enquanto são premiados fora da cidade e no Brasil. Isso desmotiva e, como precisam sobreviver, procuram outras saídas", explica Regina Ramos, membro da Associação de Teatro de Bauru (ATB).

Para Zambello, os artistas precisam valorizar a função política que a entidade pode ter. "Quanto mais pessoas se unirem, mais poderemos cobrar do poder público".

De acordo com ele, essa pode ser a principal mudança na busca pelo desenvolvimento da cultura local. "De uma certa forma, se ainda existe cultura em Bauru é em função do movimento do artista, embora individual e feito de forma isolada. O importante agora é que essa busca pela viabilização de nossos trabalhos seja coletiva", conclui ele.

"Me sinto co-responsável. O teatro, por exemplo, é dos artistas, do povo, todos deixamos que chegasse a esse ponto. Nós artistas também somos responsáveis, não dá para adormecer, embora cansados da falta de mudanças, temos que nos movimentar", completa Regina.

Falta consumo de cultura em Bauru, avalia prefeito


Para o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), membros da classe artística têm razão de cobrar mais da cultura. "Bauru não é uma cidade que compra e investe em cultura. Temos um investimento em cultura de massa. A cidade nunca teve tantos shows e eventos. Tanto por parte do poder público quanto da iniciativa privada", pondera.

Rodrigo observa que, em alguns setores, a estrutura precisa ser melhorada. "Por exemplo, a dança. Em Bauru, ela acontece por vontade de artistas, dos dançarinos." Ele explica que no ano passado aprovou projeto para criação do grupo de dança da prefeitura, que sairá em 2011 por conta de previsão orçamentária. "Com a implantação, eles terão bolsa para ajuda", diz.

Porém, o prefeito reconhece que ainda falta investimento em estrutura e espaços. "Os artistas querem sobreviver de sua arte. Se você não tem espaço para apresentação, empresas investindo em cultura, fica complicado. Só o poder público não vai conseguir atender essa demanda."

Ele reconhece que falta espaço fora do Centro. "Nos bairros não temos locais para a presentação. Queremos voltar com o caminhão palco, mas, mesmo assim, ele vai suprir de forma paliativa, pois é itinerante. É uma forma de conseguir levar para uma praça, um bairro, um show, um evento", pondera.

"Eu não estou contente ainda com os resultados de todo o nosso esforço no poder público. Acho que a gente pode fazer muito mais. Mas não dá para avaliar toda a situação de cultura por conta de um problema de um ar condicionado que existe desde que o teatro foi inaugurado. Não dá para que isso seja colocado como se fosse a situação da cultura, porque isso não é verdade."

Rodrigo enumera as ações que a prefeitura tem feito na cidade. "Não temos circo fixo na cidade, mas estamos montando uma estrutura, com equipamentos para aula. Contratamos instrutor para teatro. Temos o projeto do grupo de dança, inclusive com bolsas, mas não é para profissionais", elenca. "Na literatura, levei a proposta de apoio do ponto de vista de publicar artistas locais. Em patrimônio histórico, estamos analisando processo de tombamento. Já tombamos a Casa Lusitana. Desapropriamos a casa mais antiga da cidade. Mesmo que tenha sobrado pouco, tentamos preservar esse pedacinho que sobrou", relaciona.

Ele também lembra dos investimentos feitos no Museu da Imagem e do Som, que está com projeto adiantado e no Museu da Indústria, idealizado pelo Ciesp, para mostrar a evolução econômica da cidade. "Também temos o projeto do Museu do Trem. E com a saída da Câmara para a Estação - que foi um projeto importante de preservação histórica também - teremos esse espaço a mais. Podemos levar o Museu Histórico para lá, levar a ABL. O Plenário pode receber encontros literários", observa o prefeito.

Mas Rodrigo observa que não cabe à prefeitura patrocinar os artistas locais. "O poder público pode ser o agente fomentador. Achar que músicos, dançarinos, artistas plásticos vão sobreviver só com dinheiro público, infelizmente isso não acontece em nenhum lugar do mundo."

Ele afirma que tem levado apresentações para periferia. "A orquestra e a banda estão entre as melhores públicas do País", ressalta. O JC tentou falar com a secretária de Cultura, Janira Bastos, mas, até o fechamento desta edição, ela não tinha sido localizada.

Conselho de Cultura é ineficaz?

Para o produtor cultural Gabriel Ruiz, membro do Enxame Coletivo - organização que tem realizado uma série de atividades culturais em Bauru, de forma independente -, a articulação dos artistas deve ser o cerne da discussão sobre os desafios da área em Bauru. A saída, para ele, está na transformação do Conselho de Cultura em uma ferramenta verdadeiramente atuante, presente e funcional. "Falta no conselho entidades representativas que, de fato, gerenciem as políticas culturais, promovam debates, estudem mesmo onde os recursos estão sendo investidos, quais os projetos que a secretaria apoia, porque o conselho é a principal arma que a cidade tem para cobrar e desenvolver suas atividades."

Segundo Gabriel, desde novembro, membros do Enxame acompanham as reuniões do grupo e lamentam o desinteresse de muitos artistas. "O conselho está engessado. Muitas vezes, as reuniões não acontecem por falta de coro; muitos têm cadeiras e não comparecem."

De acordo com um dos representantes da Secretaria de Cultura no conselho, a última reunião foi realizada em dezembro e será retomada em fevereiro. A nova gestão para o próximo biênio será composta em abril. Segundo Susana Nogueira Godoy, a principal questão da pauta de discussões do próximo encontro serão as modificações necessárias para que o conselho funcione de forma eficiente.

"Entre as mudanças, está a de que o presidente possa ser escolhido entre os conselheiros e não necessariamente ser o secretário e Cultura", adianta. "A Secretaria de Cultura do Estado tem uma cadeira, por exemplo, e nunca compareceu", completa.

O Conselho de Cultura tem 27 membros, representantes da Seplan, Semel, da Oficina Cultural "Glauco Pinto de Moraes", do Sesc, da Universidade Paulista (Unip), das associações Bauruense Difusão Cultural, Aposentados Fundação Cesp, de Teatro, de Dança, Amigos dos Museus, da Sociedade Amigos da Cultura, da Academia Bauruense de Letras, do Cineclube "Aldire Pereira Guedes" e do Instituto Cultural Yauaretê.

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