Meu pai, Roberto Vieira, ingressou no Exército como um recruta em 17 de julho de 1939 e foi para a reserva remunerada com proventos de major em 8 de junho de 1970. Cumpriu com denodo seus deveres, haja vista inúmeros elogios registrados em ficha funcional. Já escrevi no JC sobre meu pai, como um militar. Mas e o cidadão que existia dentro dele? Ele votava, tinha opinião política. De origem humilde, estudou, venceu na vida com sacrifício, tinha QI privilegiado. Pegou a ditadura militar, pois servia na 6ª CR de Bauru em 31 de março de 1964. No seio familiar, comentava que a União Democrática Nacional (UDN), de Carlos Lacerda, Brigadeiro Eduardo Gomes &. Cia., não se conformava em perder as eleições presidenciais para políticos populares como Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek e Jango Goulart. Houve, então, um conluio comandado pela UDN para eliminar tais lideranças. Eles deram o golpe militar de 64, alegando uma iminente ascensão comunista ao poder. O governo militar maquiavelicamente criou o bipartidarismo. A Arena, que agregava os simpatizantes do regime militar. Os que eram contra os militares constituíram o MDB. O que significava que todos os opositores eram identificados como inimigos da revolução. Ali estavam: 1) os comunistas; 2) também aqueles que haviam inicialmente apoiado o golpe de 64 para fugirmos do comunismo; 3) pessoas sem coloração política, mas que não queriam uma ditadura militar; 4) muitos opositores foram simplesmente rotulados de comunistas sem que efetivamente professassem a ideologia marxista. Meu pai se encaixava no item nº 3 acima citado. Meu pai nunca votou (era um direito inalienável dele) nos candidatos da Arena. Sempre votou nos candidatos do MDB (depois, PMDB). Ele desejava o retorno imediato à democracia plena, com civis dirigindo o País. Mas nunca, jamais, pensou em pegar em armas (fraticídio) para conseguir isto. Suas ideias de democracia foram absorvidas por mim e assim segui fielmente sua cartilha. Porque estava impregnada de bom senso. Assim é que uma ex-guerrilheira ascendeu ao cargo de presidente da República, pelo voto popular e não pela luta armada. Isto é democracia, o resto é ditadura, quer seja direita ou da esquerda.Gilberto Sidney Vieira
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