Bairros

Uma oportunidade, muitos sonhos

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min
Garapeiro profissional Uma boa prosa, muita sombra e caldo-de-cana gelado o dia todo. É combinando estes três elementos que o ambulante Sadi Lourenço de Moura, 70 anos, pretende passar o resto de seus dias. Garapeiro profissional, como ele se autointitula, Sadi entrou no ramo de comércio informal há 20 anos e, antes de estabelecer sua perua branca em uma praça na entrada do Núcleo Mary Dota, distante algumas quadras de sua casa, passou por diversos pontos da cidade."Já trabalhei no Centro, já fiz eventos particulares, já rodei muitos bairros por aí... mas agora sosseguei. Aqui, vendo praticamente a mesma coisa que no Centro e tenho menos gastos e poucos concorrentes por perto", explica ele, deixando claro que a proximidade do local com sua residência e a larga sombra de uma árvore foram fatores que pesaram na decisão de estabelecer o ponto no bairro. Antes disso, Sadi trabalhou por muitos anos como motorista no intenso trânsito de São Paulo. "Já sofri demais. Agora, o que eu quero é sossego", brinca. E é no sossego de um banco de madeira e na companhia revezada de alguns moradores da redondeza que ele passa a maior parte de seus dias. A rotina, que dura de segunda-feira a sábado, das 12h às 18h, resulta na venda média de 20 copos de garapa por dia - com preços que variam de R$ 1,00 a R$ 2,00, dependendo do tamanho do copo -, além de muitas histórias para contar."Vai sair no jornal, é? Então põe que eu faço o melhor caldo-de-cana de Bauru. Pode pôr, porque é verdade. Pelo menos é o que falam, né!", frisa Sadi, animado.
Doce fama Qual o doce predileto do Chaves? Quem já assistiu à famosa série de televisão "A Turma do Chaves" certamente responderá a esta pergunta com facilidade, afinal, em vários episódios o personagem trapalhão deixa claro sua paixão por churros. Em Bauru, Benedito Lopes, o Benê, 57 anos, compartilha da mesma opinião de Chaves. Para ele, o churros é o melhor doce que existe. Tanto é que, para divulgar a iguaria, há 15 anos ele apostou suas fichas no comércio informal do alimento e estabeleceu na Praça da Paz um trailler especializado na produção do doce."Eu já havia trabalhado como gerente em grandes empresas, montado uma agência de turismo e até comercializando batata frita em parques e exposições, mas meus filhos eram pequenos e a vida de viajante estava ficando muito arriscada. Foi quando tive a ideia de vender churros", conta. Para atrair a clientela, Benê decidiu arriscar e inovou nos sabores, misturando os ingredientes doces, como o chocolate, a goiabada e o doce de leite, com os salgados, como o requeijão. Além disso, passou dar nomes sugestivos aos seus churros, como Hilda Furacão, para a mistura de requeijão, chocolate e doce de leite, e Café...tão, para o de doce de leite com café. A aposta deu tão certo que, atualmente, o cardápio de Benê contabiliza 38 sabores diferentes e vende, nos dias de maior movimento, 300 churros por noite. Há alguns anos ele até tentou abrir um comércio formal, em forma de lanchonete, mas o estabelecimento funcionou apenas por dois anos com procura bem menor que a do trailler, que continuava funcionando a todo vapor na Praça da Paz."Chega a formar fila para comer os meus churros e eu fico muito feliz por isso. Acredita que o churros já foi exportado para 17 países?", orgulha-se.
Fisgado pelo estômago Quem tem ou já teve avós certamente já ouviu o conselho de que a melhor maneira de fisgar um bom pretendente é pelo estômago. E é levando em consideração o sábio dito popular que José Arnaldo da Silva, 40 anos, administra seu comércio, uma barraquinha de lanches. A máxima é aplicada por ele o dia todo, porém com uma pequena adaptação: no lugar dos pretendentes, os clientes."Aqui existe muita concorrência, por isso me esforço para que o meu lanche seja o melhor. Para isso só uso produtos de qualidade, trato bem as pessoas e cuido da higiene. A ideia é fisgar o cliente pelo estômago", brinca. Tudo começou há 18 anos, quando ele deixou o emprego de chapeiro em um posto de conveniência da cidade para montar seu próprio negócio na praça Rui Barbosa. Desde então, tudo mudou. Seu trabalho, que antes lhe tomava cerca de oito horas do dia, atualmente lhe consome 14 horas, já que a rotina começa às 9h e só termina às 23h, quando o Centro da cidade já está deserto. E o salário, é claro, também aumentou. Em quase duas décadas trabalhando como permissionário, Arnaldo se enche de orgulho ao dizer que tem mais clientes fixos que esporádicos. Além disso, afirma vender a média de 100 lanches por dia. "Mas em épocas que o comércio abre à noite, este número quase triplica", acrescenta. Há tanto tempo no mercado, ele já descobriu as manhas do negócio e, mesmo cercado pelo forte cheiro de lanche da concorrência, não se intimida."Meu cardápio tem apenas cinco lanches porque não fico inventando moda, mas são todos muito bem feitos. Além disso, quem prova do meu lanche nem testa o de outro lugar", garante, seguro, mostrando o cardápio de lanches com valores que variam de R$ 2,50 a R$ 5,50. A afirmação é assinada embaixo por Roberto de Souza Angelino, 48 anos, cliente fixo do estabelecimento. "Como aqui quase todos os dias e não mudo por nada. É o único chapeiro da cidade que sabe o que é ?pão louco?!", brinca, explicando a preferência por lanches feitos em pães com pouco miolo.
Especializado em hot dog Quem quer se deliciar com o famoso cachorro-quente feito pelo comerciante Mário Silveira Moreti, 62 anos, precisa esperar, em média, de 40 a 50 minutos. Isto porque, devido à enorme procura pelo lanche, Mário precisa da ajuda da sobrinha para organizar uma fila de espera."As pessoas estão acostumadas e não se importam de esperar. A maioria já chega perguntando quanto tempo vai demorar para sair o lanche", conta, rindo. Quem passa pelo local, que fica ao lado da sede social da Associação Luso-Brasileira, custa a entender o fato do furgão de Mário estar cercado por clientes e os comerciantes vizinhos, quase sempre, desocupados. Porém, ele ressalta que o sucesso veio com muito trabalho. Tudo começou há 18 anos e, na época, Mário precisava trabalhar o dobro do tempo para conseguir vender cerca de 20 lanches por dia."Pensei em desistir. Foi um tempo de vacas magras. Somente depois de ter muita paciência conquistei minha clientela e hoje faço questão de valorizar isso", frisa ele, que chega a vender 250 lanches durante as quatro horas que trabalha todas as noites. "É mais que um lanche por minuto", comemora. Outro segredo descoberto pelo comerciante foi a especialização em um tipo específico de lanche: o cachorro-quente. O cardápio do estabelecimento, estampado em adesivo nas portas do furgão-lanchonete, aponta apenas duas opções: o lanche completo e o simples."É preciso limitar, não adianta querer fazer uma grande variedade de lanches que não dá. O sabor acaba misturando na chapa e o lanche perde o gosto. Optei por fazer apenas o cachorro quente, muito bem feito e temperado com carinho", explica, orgulhoso.
Espetinho irresistível Não há como resistir. O cheiro de carne assada que exala da churrasqueira de Sônia Martha de Lima, 42 anos, é sinônimo de clientela durante todo o expediente, que vai das 17h às 21h. Com ponto fixado há 4 meses na esquina da rua Dos Andradas com a Bernardino de Campos, em frente à Paróquia de São Benedito, Sônia chega a vender cerca de 40 espetinhos por dia, a R$ 2,00 cada, e com sabores que vão da carne à kafta, além do queijo, linguiça, misto e frango. Boa parte de seus clientes já se tornou freguês. "São pessoas que sempre passam por aqui, pegam ônibus aqui perto ou até gente que mora nas redondezas", explica Sônia. Mas faz pouco tempo que ela descobriu que podia ganhar dinheiro no comércio informal. Até três anos atrás, Sônia trabalhava como cuidadora de idosos na casa de uma família. "Ela sempre gostou de mexer com o setor de alimentos e por isso resolvemos montar um negócio para comercializar espetinho. Está sendo ótimo porque, além de ajudar no orçamento, ela está realizada", comemora Antônio Borba Junior, marido de Sônia, que trabalha em uma oficina na avenida Castelo Branco, mas sempre está atento aos chamados da esposa em casos de imprevisto. "Vi que o tempo começou a virar para chuva e corri aqui ajudar ela", explica. Mas Sônia também se vira bem sozinha. Ela própria faz as compras no supermercado, tempera a carne, assa e faz o atendimento ao cliente."Quem anda pela cidade vê um monte de gente vendendo espetinho e acha que é fácil, mas não é. Te garanto que a pessoa tem de gostar muito do que faz e ter jogo de cintura", ensina Sônia.
É batata! Fiu-fiu! Quem já passou pelo Parque Vitória Régia nas noites de quarta-feira a domingo certamente vai ligar a onomatopeia do início desta frase com o tradicional assobio de Francisco Cesar Tiengo, 46 anos, vendedor de batata frita há 22 anos. O assobio, que se tornou marca registrada do comerciante, foi responsável por dar a ele fama e notoriedade na cidade, além de render-lhe o apelido de Tio Fiu-Fiu."Desde que comecei a trabalhar me estabeleci ao lado do Vitória Régia. Daí muitos clientes passavam e me cumprimentavam. Como eu não conseguia identificar a pessoa, dava com a mão e assobiava. Com o tempo a marca se tornou algo pessoal", conta, rindo. A carreira de Francisco como vendedor ambulante de batatas começou há 22 anos, depois que ele foi demitido do banco onde trabalhava. No início, uma panela transformada por um amigo em cortador de batatas, um fogão e um pequeno tacho de fritar pastel eram seus instrumentos de trabalho. Atualmente, Francisco é proprietário de um moderno trailler, adequado especificamente para a atividade que desenvolve. E, acompanhando a evolução do equipamento, sua clientela também aumentou. Nos dias de maior movimento, como o sábado, por exemplo, ele chega a atender cerca de 80 famílias e precisa de cerca de 100 quilos de batata para dar conta da demanda. De acordo com ele, o ponto onde seu trailler está localizado é fundamental para o sucesso do negócio, isto porque, na opinião dele, o ambiente ao ar livre e a paisagem ao fundo são atrações à parte."Já pensei em abrir um estabelecimento formal, tipo uma casa de batatas, mas desisti da ideia. Acho que a clientela não iria se adaptar. Além disso, seria necessário subir o preço da batata, que hoje é vendida a R$ 9,00, para dar conta de pagar o aluguel do prédio", avalia.

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