Cairo - A revolta contra o ditador egípcio, Hosni Mubarak, entrou ontem no seu 11º dia, em meio a sinais de cansaço dos oposicionistas e de consolidação do impasse político. A convocação para o protesto da sexta-feira, dia sagrado dos muçulmanos, reuniu 100 mil manifestantes na praça Tahrir, centro do Cairo, um número inferior ao dos protestos dos dias anteriores. Num ambiente sob controle militar mais ostensivo, grupos favoráveis e contrários a Mubarak chegaram a atirar pedras uns nos outros, mas o banho de sangue que se temia, após dias de batalhas violentas nas ruas do centro, não aconteceu. Estrela diplomática do mundo árabe, o chefe da Liga Árabe, Amr Moussa, foi à praça para ajudar na tarefa de "pacificação dos ânimos", segundo seu escritório. O ministro da Defesa do Egito, Mohamed Hussein Tantawi, também foi à praça para pedir diálogo e, segundo a TV estatal, vistoriar o dispositivo de segurança montado no local, a cargo das Forças Armadas. Parece estar funcionando a estratégia de resistência de Mubarak, que alimenta uma repressão sangrenta e aposta no esgotamento dos manifestantes num ambiente social e econômico cada vez mais adverso. A situação de Karim Ibrahim, 35 anos, reflete o dilema de muitos militantes antirregime: continuar os protestos ou retomar o trabalho. Ibrahim esteve na praça desde o início da revolta. Ele passou mal por causa do gás lacrimogêneo, dormiu na rua, esteve dias sem tomar banho e comendo biscoitos e participou da guerra urbana contra os pró-regime. Há dois dias, o empresário voltou para casa. "Fiquei esgotado, física e moralmente. Minha empresa estava parada, e os funcionários me ligavam a toda hora para receber seus salários", disse. "Quero muito que o Egito seja um país melhor, mas tenho coisas a tocar.?? A economia do Egito continua virtualmente parada, dificultando o cotidiano de boa parte da população. Comércios, lojas e bancos continuam fechados. A Bolsa de Valores também. Preços de alimentos não param de subir. Há filas nos postos de gasolina. O lixo não recolhido se acumula. A indústria de turismo, um dos pilares da economia, vive sua pior crise em décadas. O governo também pretende sufocar os protestos mantendo um cerco apertado contra oposicionistas e jornalistas estrangeiros, acusados de incentivar a revolta. Partidários do ditador seguem intimidando a imprensa. Nesse ambiente ao mesmo tempo tenso e confuso, analistas não se arriscam a fazer previsões sobre o desfecho da queda de braço entre Mubarak, no poder desde 1981, e seus opositores.____________________ Obama diz que negocia transição
Washington - Aumentando a pressão pública sobre o Cairo, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou ontem que está em negociações diretas com representantes do governo egípcio para conseguir "reformas significativas?? que poriam fim a uma ditadura de mais de 30 anos no país."Os detalhes dessa transição serão decididos pelos egípcios. Algumas conversas começaram. Estamos fazendo amplas consultas no Egito e junto à comunidade internacional??, declarou o presidente, em rápido comunicado na Casa Branca."É preciso uma mudança real", prosseguiu o presidente americano. "Não adianta fazer alguns gestos à oposição??, disse. As declarações do presidente vão na mesma direção de informação publicada ontem pelo jornal "New York Times", de que o plano da diplomacia americana é substituir Mubarak pelo seu vice, Omar Suleiman. Ele comandaria um governo de transição, com membros da oposição, até eleições, no segundo semestre. Suleiman, ex-chefe do serviço de espionagem egípcio, é considerado o braço direito do ditador e tem laços fortes com os governos americano e israelense. A dúvida é se sua nomeação seria aceitável para as massas de opositores nas ruas.
Washington - Aumentando a pressão pública sobre o Cairo, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou ontem que está em negociações diretas com representantes do governo egípcio para conseguir "reformas significativas?? que poriam fim a uma ditadura de mais de 30 anos no país."Os detalhes dessa transição serão decididos pelos egípcios. Algumas conversas começaram. Estamos fazendo amplas consultas no Egito e junto à comunidade internacional??, declarou o presidente, em rápido comunicado na Casa Branca."É preciso uma mudança real", prosseguiu o presidente americano. "Não adianta fazer alguns gestos à oposição??, disse. As declarações do presidente vão na mesma direção de informação publicada ontem pelo jornal "New York Times", de que o plano da diplomacia americana é substituir Mubarak pelo seu vice, Omar Suleiman. Ele comandaria um governo de transição, com membros da oposição, até eleições, no segundo semestre. Suleiman, ex-chefe do serviço de espionagem egípcio, é considerado o braço direito do ditador e tem laços fortes com os governos americano e israelense. A dúvida é se sua nomeação seria aceitável para as massas de opositores nas ruas.