Geral

Na rua, pet pode ser fonte de doenças

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

A conta pelo crescente índice de abandono e maus-tratos sofridos pelos animais de estimação tem sido paga pelos próprios agentes causadores do sofrimento, ou seja, o ser humano. É o efeito bumerangue.

A posse irresponsável, sem planejamento, que resulta no descarte dos animais logo nas primeiras dificuldades que a família tem com os bichos reverte em prejuízos para a comunidade. Na rua, os animais passam fome, quando comem, comem mal. Ficam expostos à variação do tempo e sofrem com o frio. Tudo isso, reduz a imunidade do animal, que o deixa vulnerável às doenças.

Uma vez infectado, ele se transforma numa fonte de doenças, como, por exemplo, a leishmaniose, a raiva e a leptospirose. Todas transmissíveis e que podem afetar o homem. Ao contrário do que muitos imaginam, a leptospirose não é provocada apenas pela urina do rato. A doença é transmitida por várias espécies animais, como caninos, suínos, bovinos e outras, além dos roedores.

Animais sem cuidados estão sujeitos também à erliquiose, também conhecida como a doença do carrapato. Os casos em humanos vêm aumentando muito em países como os Estados Unidos. No Brasil, a doença ainda é pouco diagnosticada em humanos. Mas o risco existe.

Além disso, animais soltos estão sujeitos a atropelamentos, que podem resultar em grandes prejuízos para os proprietários de veículos. Em alguns casos, chegam a custar não apenas a vida do animal, mas também de pessoas.

Outros efeitos diretos dos maus-tratos e abandonos é que os animais ficam traumatizados e medrosos. Segundo o professor Stelio Pacca Loureiro Luna, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, é por isso que os cães de rua, muitas vezes, são arredios e têm dificuldades de contato. "Eles estão sempre desconfiados", diz.

Considerando a alta capacidade reprodutiva dos animais, especialmente dos gatos, quando soltos, o problema se agrava a cada novo animal abandonado e a cada nova ninhada que surge.

Segundo a veterinária Ana Lúcia Geraldi, o cio canino ocorre a cada seis meses, aproximadamente. Isso significa que, em sete anos de vida, uma cadela pode ter até 67 mil descendentes. Quando se trata dos felinos, os números são ainda maiores porque a gata entra no cio com mais frequência.

O professor Stelio afirma que o abandono de equinos tem sido um problema tão grave quanto o de cão e gato. Ou até mais. Ele lembra que, por ter uma sociabilidade maior com o ser humano, os cães e os gatos se viram. Sempre tem um açougueiro ou alguém da comunidade que oferecem comida e ajuda.

Com os equinos, o relacionamento não é tão próximo. Por isso, os efeitos são mais drásticos. Para eles, não basta um prato de comida ou um pedaço de carne. Para saciar a fome de um animal com o porte de um cavalo é preciso muito mais que isso.

O abandono de equinos tem uma agravante, também gerada pelo porte físico, que é o risco de provocar graves acidentes quando invadem rodovias movimentadas. Os danos são sempre maiores.

De acordo com o professor, mesmo que não ocorra o abandono, a falta das condições mínimas de sobrevivência pode motivar a "fuga" de um equino. Na busca por saciar a fome, por exemplo, eles aproveitam que estão soltos para procurar capim ou outro alimento.

"Nem é por maldade (do proprietário), mas por falta de poder aquisitivo, eles não conseguem atender as necessidades básicas do animal, porque sustentar um cavalo não é fácil", afirma Stelio.


____________________

?Humanização? dos animais deve ser evitada

Tratar animais de estimação como se fossem seres humanos não é bom para nenhum dos dois lados. Na maioria dos casos, essa prática deixa o animal muito mimado e o dono muito dependente.

Certos exageros, como passar esmalte, perfume e outros produtos químicos, também devem ser evitados a todo custo. "Isso é a morte para os animais porque eles têm um olfato muito apurado e sofrem muito com todos esses cheiros", afirma o professor Stelio Pacca Loureiro Luna, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, especialista em bem-estar animal.

Segundo ele, nem tudo o que é bom e agradável para o ser humano é também para o bicho. "O animal tem de ser respeitado como tal", recomenda.

Para o ambientalista e cuidador de animais, Marco Ciampi, presidente da Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal (Arca Brasil), são exageros que muito pouco atendem à natureza dos animais. "O animal precisa ter como referência outro de sua espécie, não o ser humano. Muitos sofrem crise de personalidade. Cachorrinhos de madame, que fica só no colo, quando chega perto de outro animal, ele rejeita, não quer nem ficar perto", comenta.

Ciampi explica que, por esses motivos, a associação sempre recomenda que o animal tenha a companhia de pelo menos mais um da sua espécie dentro da residência. "Ele precisa se sentir um animal", afirma.

De acordo com o professor Stelio, a ideia de tornar o animal humanizado tem sido adotada com muita frequência pelos donos. Como consequência, tem sido muito frequente também alguns efeitos colaterais.

"É interessante observar que o animal está acompanhando todos os problemas que o ser humano apresenta, como depressão, ansiedade, neuroses. Isso está acontecendo numa taxa cada vez mais alarmante, por conta dessa humanização do animal", observa ele.

Segundo o professor, o importante nessa relação é que os humanos saibam que suas atitudes trazem consequências. "Da mesma forma que nós mimamos os filhos dando tudo a eles, o mesmo ocorre com os animais", adverte. Stelio diz que dependendo do grau de intimidade, o animal pode ficar agressivo quando vê o dono ou a dona com um namorado ou namorada nova.

De acordo com a psicóloga Maria José Barbosa, tratar um animal como se fosse uma pessoa pode ser um indicativo de que algo não está bem. Pode ser uma carência emocional grave, que precisa ser tratada.

"O animal não precisa disso (ser humanizado). É algo totalmente avesso à natureza dele", afirma ela. Segundo a psicóloga, o contato com um animal é saudável para o ser humano, mas cada um no seu canto. "Não devemos misturar as coisas. A natureza humana é diferente da natureza animal. Cada um deve viver em seu habitat natural. Isso tem de ser respeitado", orienta.

Para Maria José, desde que a relação esteja dentro da normalidade, o humano tem muito o que aprender com os animais. Basta observar com atenção o comportamento deles. "Eles respeitam a natureza, têm hora para dormir, para comer, para se recolher, avisam os demais quando o perigo se aproxima", enumera. Na opinião dela, todos deveriam ter um animal em casa para aprender com eles.


Inseparáveis

Treze anos e meio de convivência diária. Assim tem sido desde que o chiuaua Teddy, então com apenas um mês de vida, entrou pela primeira vez na casa de Maria Cavalcanti de Araújo, 79 anos. Na verdade, o cãozinho foi um presente para a filha Soraia, oferecido pelo então namorado dela.

Teddy veio de Caxias do Sul e de cara conquistou o coração da mãe e da filha. Tornou-se um novo membro da família. Toda vez que viajam, levam o cãozinho junto. Maria é quem passa mais tempo com o animal. Como a filha trabalha, cabe a ela cuidar dele o dia todo.

Mas isso não é nenhum sacrifício. A mãe adora animais. Sempre gostou. "Desde pequena, sempre convivi com cães. Meu pai tinha vários. Ele gostava de caçar", conta Maria. Por causa do apego aos bichinhos, quando eles morrem, a tristeza faz com que ela diga a si mesma que não terá outro animal em casa.

"É muito triste. É como se morresse uma pessoa da família", compara. "Mas, não tem jeito. A gente sempre pega outro", comenta. Maria sabe que Teddy não tem muito mais tempo de vida. A idade avançada dele e os problemas de coração e de pulmão que o cão enfrenta faz com que ela considere a possibilidade de perdê-lo em breve.

Mas, por enquanto, essa é apenas uma possibilidade. Enquanto isso, ela aproveita para passear na companhia do animal. São quatro passeios diários pelas redondezas do prédio onde mora, no bairro Higienópolis.

E os passeios têm hora marcada. O primeiro ocorre por volta das 7h. O segundo às 11h, depois às 17h e o último às 21h. Com isso, já fez amizade com vários moradores da vizinhança.

Comentários

Comentários