A vida é inerentemente caótica e imprevisível e nossa condição existencial é frágil, arriscada, como sempre lembram os desastres vistos nos jornais diários. De todas as espécies animais, a nossa é a mais incapaz de sobreviver por conta própria, sem cuidado, proteção e atenção. Sobrevivemos apenas se o destino nos proporcionar fontes internas flexíveis, boas intenções daqueles ao nosso redor e um ambiente relativamente benigno. Mesmo assim, nenhum de nós sobrevive sem uma considerável capacidade de adaptação e é ela quem poderá nos livrar do que está por vir. Nossa sociedade também não terá chance sem a verdadeira educação, aquela que penetra fundo no interior da pessoa, capacitando-nos a usar a informação que absorvemos para sermos intrinsicamente mais produtivos. Nossa sociedade não sobreviverá sem aquela educação que sensibiliza a nós mesmos para um mundo inteiro de verdade, para um comprometimento com um bem maior que os desejos de cada um. É a educação que melhora nossa adaptação e nos permite aceitar o diferente, o hostil, o manipulador, o orgulho arrogante, a falta de civilidade e de cooperação. Educar significa crescer e crescer significa não apenas confrontar as mensagens que carregamos dentro de nós mesmos ou as advertências que nos negaram nosso destino, mas permitir arriscar-se no mundo, sem garantias, sem aprovação consensual e sem a esperança de resgatar aquela velha inocência. Certa vez, ainda adolescente no jardim, mostrava ao meu avô o boletim escolar. Ele pegou uma pedra e dois gravetos. Disse-me que uma vida sadia e produtiva é como um círculo. Colocou a pedra no chão e, utilizando o graveto menor como compasso e a pedra como centro, traçou uma bela circunferência. Educar-se mais significa aumentar seu raio de ação e mantendo a pedra no mesmo lugar, mas com o graveto maior traçou nova circunferência. As duas coisas são importantes, completou ele, educar-se cada vez mais e manter o centro determinado e fixo. Se o centro mudar de lugar, você jamais conseguirá desenhar uma circunferência e sua vida será instável e insegura. Muitas pessoas estabelecem uma carreira de sucesso, mas nunca instituem um centro espiritual ao redor do qual as atividades de suas vidas orbitem. Sem este centro somos intimidados pela imensidão do mistério do cosmos e pelo impenetrável mistério de nossas próprias almas.A maior parte dessa angústia humana se origina do medo de aniquilação, de perder o mundo a nossa volta, o mundo com o qual estamos tão acostumados. Por conta deste medo, criamos a ilusão de ordenar e prever nossas vidas por meio da rotina. Acordamos todas as manhãs, tomamos o café, lemos o jornal, fazemos a mesma rota para ir ao trabalho. Estressamo-nos quando nossa rotina é interrompida; ficamos bravos pelo desvio de nossa construída "normalidade". O que há de errado nisso? Nada, mas a dura rotina pela sobrevivência pode ser inimiga de uma vida ou de uma resposta à possibilidade de algo novo ou emergente. Mesmo com as melhores intenções e as maiores aspirações para realizar grandes coisas, seu dia é preenchido com atividade cotidiana, simplesmente não há tempo para mais nada. Com tantas horas devotadas a ganhar a vida, a comer, a cumprir obrigações sociais, a dormir, quanto tempo sobra para satisfazer nossas verdadeiras necessidades, para perseguir nossos objetivos superiores ou para procurar o centro do círculo que construímos? Em meio à agitação de uma vida caótica, como se pode ouvir a voz da alma? Quando encaramos o mundo material como o único mundo existente, estamos fadados a ter medo de perdê-lo, porque ele é tudo que conhecemos. Esta postura é limitada; por sua natureza, o materialismo é transitório. O alimento que comemos ontem, hoje já não existe. O dinheiro que ganhamos hoje, gastaremos amanhã. O status e o poder que adquirimos com tanto esforço pode desaparecer num instante. Quando a vida é construída sobre um alicerce tão provisório, como se pode sentir seguro? Para um olhar desavisado, nossa meta na vida pode ser buscar uma felicidade momentânea por intermédio do conforto material. Mas, por fim, descobrimos que este é um objetivo superficial e sem sentido. Torna-se cada vez mais óbvio que quantidade alguma de conforto material pode nos satisfazer de verdade e responder às nossas questões sobre o sentido da vida. Essa percepção cria um imenso vazio dentro de nós, gera forças conflitantes e uma tensão interior profunda virá à tona. O desafio que enfrentamos hoje é o de reunir as forças da matéria e do espírito e isto implica no reconhecimento da dicotomia entre corpo e alma, isto implica em reconhecer que o círculo que construímos tem um centro. Responsabilizarmos pela falta dele é o primeiro passo para revisar nossa frágil jornada a bordo dessa partícula de poeira levada por um forte vento através da eternidade.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru