O uso das redes sociais, como Orkut, Twitter, Facebook, MySpace, YouTube e outros, durante o horário de trabalho tem gerado um impasse ao mundo empresarial. De um lado, há quem defenda o bloqueio do acesso a essas redes dentro das empresas, alegando risco de perda de produtividade. Outros acreditam que a liberação é benéfica porque amplia as fontes de informação dos funcionários, melhorando, assim, seu repertório cultural e social.
No Brasil, a tendência dos empregadores está mais para o bloqueio do que para a liberação. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que utilizam esses meios como ferramenta de comunicação, informação e diversão.
Consequentemente, fica cada vez mais difícil proibir. A pressão cresce, muitas vezes, até por uma questão profissional, seja para conversar com outras pessoas para trocar ideias e conhecimentos ou para saber de notícias e acontecimentos em tempo real.
Porém, além da justificativa do risco da perda de produtividade, parte dos empregadores que bloqueiam o uso das redes sociais alega que o acesso livre deixa a empresa vulnerável ao ataque de hackers e provoca lentidão na rede interna, especialmente se o site usado exibe vídeos.
É o caso da Editora Alto Astral, onde sites como YouTube têm acesso restrito. "Restringimos o uso porque a rede não aguenta. Ela fica lenta. A qualidade da conexão cai bastante", argumenta Alessandro Paveloski, gerente de produtos editoriais da editora.
Aliás, ele se diz totalmente favorável à liberação do acesso dos funcionários às redes sociais, desde que o uso seja feito com responsabilidade. "As redes sociais já fazem parte da vida de muitas pessoas. De uma forma ou de outra, eles vão estar conectados."
Paveloski diz que mesmo diante da proibição, muitos utilizam meios próprios, como um smartphone para, durante o cafezinho, por exemplo, dar uma espiadinha na Internet ou escrever sobre o que ele está pensando naquele momento. "Eles vão ter acesso de qualquer jeito. Não adianta fechar os olhos para isso", afirma.
Na opinião dele, acima de tudo, as empresas têm de fazer um trabalho de conscientização de seus funcionários. Segundo Paveloski, é o que a editora tem feito, com sucesso. Foram estabelecidas regras de comportamento, que são repassadas aos funcionários novos e ficam à disposição de todos na intranet (rede de uso interno da empresa). "Até hoje, não tivemos nenhum problema com uso indevido das redes sociais por parte de funcionários", diz.
A sobrecarga do servidor, somada aos cuidados com a segurança e com a manutenção do foco no trabalho, fizeram com que o Grupo Nelson Paschoalotto bloqueasse o acesso aos seus funcionários durante o expediente.
"O foco do nosso trabalho não é esse. É voltado às soluções corporativas e, por isso, temos uma preocupação muito grande com a segurança das informações. Se liberar o acesso aos sites, corremos o risco de invasões", justifica Juliana Dorigo, gestora de recursos humanos, comunicação e marketing do Grupo NP.
Apesar disso, a empresa não restringiu por completo a utilização das redes sociais. Funcionários que queiram usar a Internet podem fazê-lo fora do horário de trabalho nos computadores instalados no piso térreo da empresa, onde estão a lanchonete, o café e outros ambientes de descontração.
"Sabemos que as pessoas precisam de entretenimento, por isso oferecemos os computadores com acesso irrestrito fora do horário de trabalho para os funcionários usarem do jeito que quiserem", explica Juliana.
De acordo com a analista de recursos humanos Livia Cordeiro, o tempo gasto nas redes sociais é o que mais tem preocupado as empresas. Segundo ela, é fácil perder a noção do tempo quando se está navegando na Internet.
"Você entra para ver uma coisa e aí surge outra e outra, quando vê passou-se muito tempo. Isso diminui a produtividade. Por isso, muitas empresas restringem o uso. É para o funcionário não perder o foco e a concentração no trabalho", comenta.
Empresas vivem crise de identidade
As empresas estão vivendo hoje uma crise de identidade diante do avanço constante e rápido da tecnologia da informação. Essa é a avaliação de Paulo Milreu, especialista em mídias digitais e presidente da Associação Centro-Oeste Paulista das Agências Digitais (ACOPADi).
Segundo ele, em algumas empresas, há uma mistura de colaboradores da velha guarda e empresários mais tradicionais com um novo quadro de funcionários composto por jovens da chamada geração Y ou qualquer outra nomenclatura mais adequada.
"Sendo assim, é necessário sempre avaliar cada caso e compreender se a cultura da empresa comporta tamanha liberdade, isto é, permitir o uso de redes sociais durante o trabalho e até mesmo usar isso como estratégia para aquisição de conhecimento e experiência. E, às vezes, de potencialização da visibilidade.
Sobre o risco que a liberação do uso das redes sociais representaria à segurança das empresas, Paulo diz que, há anos, as pesquisas sobre segurança de dados mostram que a maior ameaça para uma empresa está relacionada aos colaboradores internos. Pois são eles que mais têm acesso a dados sigilosos e os usam indevidamente.
Ele argumenta que o mais preocupante nas empresas é quando não estabelecem políticas claras sobre o acesso e uso da informação interna, seja em qualquer tipo de ambiente ou rede social. "O colaborador pode sair da empresa, acessar uma rede social e compartilhar informação sigilosa da empresa", aponta.
Segundo ele, isso não significa que as redes não representam risco. Relatório da inglesa Sophos, empresa de segurança digital, mostra que, no ano passado, de cada cinco perfis postados em redes como Facebook, Orkut e Twitter, dois receberam ou enviaram alguma mensagem que levava a ataques aos computadores dos internautas. O volume foi 90% maior que em 2009.
O que atrai os criminosos digitais é a popularidade das redes. Só no Facebook são quase 600 milhões de perfis.
O fato de as pessoas se relacionarem virtualmente com outras que fazem parte do círculos de amizades traz uma sensação de segurança que abre as portas para os ataques.