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O negócio chamado Carnaval

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O Carnaval tem a capacidade de se reinventar. Quando dizem que ele está "morrendo" ressurge com mais força.Tornou-se um negócio que interessa a todos: atrai turistas, movimenta o comércio e o espetáculo televisivo rende publicidade bem paga. Também é verdade que, há muito, deixou de ser uma festa só do povo. Os preços dos ingressos no Sambódromo do Rio e de São Paulo custam caro. A folia baiana virou coisa de elite, onde só quem pode arcar com o alto preço de um abadá tem direito a brincar nas áreas nobres próximas aos trios elétricos ou assistir à sua passagem desde os camarotes. Mas ainda há muito sangue carnavalesco pelas veias do Brasil. O Galo da Madrugada arrasta milhões de foliões pelas ruas do centro do Recife e o Cordão do Bola Preta, no Rio de Janeiro, também não fica muito atrás em termos massivos. É muito xixi, mas o que se há de fazer...

Carnaval é caro e alguém tem que pagar. Uma escola de samba do Rio ou de São Paulo não sai por menos de R$ 4 milhões. Durante muitos anos, a conta foi paga pelos bicheiros, como jogada de marketing para ter o apoio da comunidade. Em 1969, os bicheiros foram presos pelo regime militar, na vigência do Ato Institucional n° 5. Justamente na época decisiva à conclusão das fantasias e carros alegóricos. Com os bicheiros em cana, as escolas de samba sofreram as consequências. Perderam recursos para a produção de desfiles. A Portela inventou os calendários ilustrados pelas sambistas seminuas, para serem vendidos e assim amealhar alguns trocados. Mangueira cobra ingressos para os ensaios. Quem ganhou naquele ano foi o Salgueiro, que fez acordo com a Coca-Cola, por imposição da ditadura. Hoje, a dependência dos bicheiros é muito pequena. A coisa se sofisticou. A Unidos de Vila Isabel, em 2006, conseguiu o patrocínio de Hugo Chávez. O samba-enredo "Soy loco por Ti, América" teve a chancela da PDVSA, empresa venezuelana de petróleo. A estátua de Simón Bolívar, com 13 metros de altura, conduziu Vila Isabel à vitória bolivariana. Empresas, políticos e prefeitos entram na dança para terem suas obras e perfis servindo de mote para os enredos do tipo pagou-rimou. O País também ganha com o Carnaval, que é destaque internacional no Hemisfério Norte, carente de fatos no inverno rigoroso. Em 1994, o destaque internacional foi um recorde. Nem tanto pela criatividade das escolas de samba ou pela alegria das multidões. Foi o ano em que fotografaram o então presidente da República Itamar Franco, na arquibancada do Sambódromo, ao lado da cearense Lilian Ramos. O ângulo da imagem revelava a falta de calcinha da foliona. Do The New York Times ao Corriere Della Sera foi um prato cheio. Nem só de samba vive o Carnaval. Começou com o maxixe no século 19, passou para a marchinha, batucada, frevo, maracatu e hoje Ivete Sangalo e Cláudia Leite exploram o axé. Em 1995, o Carnaval chegou a desaguar no funk, com Uh! Tererê. Anos depois, quem diria, Padre Marcelo foi o azarão que abalou o reinado de Daniela Mercury. Os efeitos Hollywood também já tiveram vez. Uma escola de Duque de Caxias contratou o dublê Eric Scott, que recebeu R$ 6 mil para sobrevoar o sambódromo com uma mochila turbinada com um foguete portátil criado pela Nasa, movido a peróxido de hidrogênio.

O público ficou encantado, mas os jurados não se convenceram de que o homem voador seria coisa de raiz. A escola ficou em sexto lugar. O Sambódromo mandado construir em 1984 pelo governador Leonel Brizolla é que permitiu as criações monumentais. Aproveitou-se de um projeto de Oscar Niemeyer, com acomodações para 50 mil espectadores. Neste Carnaval estão sendo inauguradas novas arquibancadas para um reforço de 12 mil lugares. Muitos carnavalescos viram a passarela de 700 metros como uma loucura a ser preenchida por milhares de figurantes.

Joãozinho Trinta, pelo contrário, percebeu que era a chance de nadar e rolar em tão generoso espaço. Deu início ao primado da Beija-flor. Acabou aquela visão do samba como resumo dos sentimentos da "alma brasileira". O morro nunca foi o paraíso onde se vivia uma vida pobre, porém tranqüila e feliz. "Lá não existe, felicidade de arranha-céu, pois quem mora lá no morro, já vive pertinho do céu". A bandidagem diminuiu. Agora, já dá para cobrar ingresso de turista estrangeiro que quer conhecer a pobreza de perto.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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