Internacional

Argentina adota o tom anti-EUA


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Buenos Aires - Um incidente diplomático com os EUA foi o estopim para a Argentina encampar um discurso antiamericano digno dos países bolivarianos. A escalada de críticas direcionadas a Washington vem num momento de agitação política interna, pela proximidade das eleições presidenciais, em outubro, e quando fica evidente, pelo menos para a população argentina, a perda de prestígio do país na região.

Além de ter sido preterida da agenda do presidente americano, Barack Obama, em seu primeiro giro pela América Latina, em março, a Argentina recebeu uma péssima análise da diplomacia americana, exposta pelo site WikiLeaks, que alertou sobre uma "corrupção oficial?? em todos os níveis de governo.

A crise com os EUA começou há dez dias, quando o governo argentino barrou no aeroporto de Ezeiza, na grande Buenos Aires, um voo militar do Exército americano que transportava homens e equipamentos para um curso que seria dado à Polícia Federal, ligada à Presidência.

Um terço da carga, segundo a denúncia, não estava declarada. O carregamento incluía armas e uma mala com equipamentos de espionagem e drogas vencidas. O material foi apreendido e será analisado pela Justiça. O governo da Argentina avisou que pode destruir os equipamentos.

Os EUA questionaram a atitude "desrespeitosa?? e "inédita?? da Argentina, e exigem a devolução do material. Os governos também trocaram notas de protesto. Para Rosendo Fraga, diretor do instituto Nova Maioria, a apreensão dos equipamentos parece uma resposta política da Argentina às revelações do WikiLeaks, que expuseram a opinião da diplomacia dos EUA de que há uma corrupção institucionalizada no país.

A relação diplomática entre os países era de moderação, que marcou, por exemplo, a atitude da Argentina, em dezembro, quando foi divulgado o primeiro lote dos documentos sigilosos pela organização. A diplomacia americana questionava a saúde mental da presidente Cristina Kirchner.


Eleições


Em dois meses, e influenciado pelo período pré-eleitoral, a atitude mudou. Jorge Arias, especialista em política externa da consultoria Polilat, diz que o episódio é revelador da política externa "adolescente e pendular?? da Argentina.

Rosendo Fraga e Arias, contudo, questionam o efeito eleitoral das críticas. "Essa mania de apontar sempre um inimigo externo, ainda mais os EUA, já não cola em uma sociedade como a argentina??, diz Jorge Arias.

Cristina ainda não anunciou se será candidata à reeleição em outubro, como esperado. Sobre o episódio, ela fez uma declaração indireta, sem citar os EUA. Evocou ao povo a defesa da soberania nacional.

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