Um, dois, três, quatro lances de escada. Depois desse desafio em mais um dia de calor intenso em Bauru era de se esperar que, mais do que uma senhora apaixonada por Carnaval, o apartamento do prédio sem elevador fosse lar de alguém que não perdeu a disposição com o passar dos anos.
De fato, foi cheia de vida e simpatia que Antônia Guilherme, conhecida por dona Toninha, recebeu a reportagem do JC Cultura para falar sobre sua paixão pelos bailes carnavalescos e as histórias colecionadas pelos salões ao longo de seus 73 anos.
Apesar de uma admiradora da Festa do Momo desde menina - "sempre gostei de dançar", frisa -, foi apenas aos 47 anos que Toninha, ainda na Capital paulista, sua cidade natal, participou do seu primeiro baile de Carnaval. "Minha mãe me levava aos clubes para dançar, mas quando chegava o Carnaval meu pai não deixava; sempre dizia: ?não é lugar para menina?", recorda.
Na pele, Toninha só foi mesmo curtir os confetes e serpentinas alguns anos depois de viúva. "Os anos passaram, eu casei e aquela vontade foi ficando dentro de mim. Até que minha filha, dois anos depois do falecimento do pai, me levou ao meu primeiro baile de Carnaval", conta. "Me fantasiei de espanhola e cheguei a escrever o que eu senti naquela noite, que me marcou muito. Para os outros podia não ter valor algum, mas para mim foi lindo", descreve.
Sozinha em São Paulo depois da morte do marido, a mesma filha que apresentou o Carnaval a Toninha, a trouxe para morar em Bauru. "Cheguei aqui achando que tinha terminado tudo, mas os bailes nos clubes me ajudaram a recomeçar. O Carnaval fez parte, sem dúvida, dessa minha adaptação", revela a aposentado sobre a relação de amor entre ela e a folia.
Toninha estreou em Bauru no último baile de máscaras promovido no Automóvel Club, em 2003. "O baile mais bonito de Carnaval que eu estive foi lá", resume. Desde então, a aposentada tornou-se presença garantida nos salões da cidade e coleciona troféus e medalhas de melhor fantasia - como a de Carmem Miranda, em 2009 na Hípica -, e foliona mais animada. "Eu gosto de brincar mesmo, começo e não paro mais, danço das 23h às 4h da manhã", afirma.
Despedida
Apesar de todo amor que nutre pelo Carnaval, Toninha confessa que, neste ano, cogitou "pendurar a fantasia". "Estava desanimada porque nos próximos meses vou me mudar para Santa Catarina", revela. "Mas depois me convenci que ia ficar com pena por não ir", explica.
Despedida do Carnaval de Bauru decidida, Toninha agora passará a dedicar suas tardes à confecção da sua fantasia. "Eu mesma faço, me realizo bolando tudo", comenta sem revelar, em hipótese alguma, como os outros foliões vão vê-la no salão da Hípica. Para ela, é a democracia do Carnaval que a atrai. "Nunca me senti constrangida em meio à juventude. A gente brinca sozinha, com os outros. Em um baile de Carnaval, você é você, é só ter espírito para se divertir", aconselha. Sobre a despedida, ela adianta: "Pretendo brincar a noite inteira como eu faço todos os anos e levar uma linda recordação de Bauru".