Bairros

Em alta, Getúlio sofre efeitos colaterais

Por Vitor Oshiro | Com Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Getúlio Vargas. Certamente, os bauruenses e pessoas da região que acabaram de ler este nome não se lembraram do presidente que governou o Brasil e até mesmo aplicou um golpe de Estado para continuar no poder. A primeira lembrança que a denominação remete é a da famosa avenida localizada na zona sul de Bauru e que se torna cada dia mais sinônimo de badalação, lazer, via de acesso e, principalmente, eixo econômico.

Entretanto, o que ainda hoje é glamuroso começa a apresentar efeitos colaterais, uma vez que o "boom" da via causa problemas como o excesso de barulho, vandalismo e até mesmo ações criminosas mais graves.

Este último efeito negativo foi escancarado no último fim de semana. Na ocasião, em um intervalo de apenas 24 horas, o mesmo trio de bandidos assaltou um casal de amigos e também uma autoridade policial. Os homens, que ainda tentaram levar as vítimas, foram presos e reconhecidos na madrugada de anteontem.

E tal ousadia pode ter uma explicação. Do mesmo modo como fez durante anos e anos com a região central da cidade, a criminalidade começa a perceber o "filão" altamente lucrativo a ser explorado na Getúlio Vargas.

Segundo a Secretaria Municipal de Finanças, a avenida possui 325 inscrições municipais, ou seja, de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços. Um imenso shopping ao ar livre que, com certeza, tornou-se a mais importante via da zona sul, área nobre conhecida por concentrar a maior quantidade de bairros de classe alta.

De acordo com a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Bauru conta com 410 condomínios verticais. Juntamente com a região central, esses condomínios estão concentrados exatamente na zona sul. A localidade ainda concentra a maioria dos loteamentos fechados da cidade.

Para se ter uma ideia da importância econômica da região, o antigo presidente da extinta Asa Sul, empresário Luís Evandro Manflin, aponta que, há dois anos, a zona sul já mantinha mais de mil estabelecimentos.

"Esse levantamento é de 2009. Na época, a zona sul já tinha mais de mil estabelecimentos. Podemos calcular uma média de cinco funcionários para cada local. Ou seja, cerca de 5 mil pessoas trabalhando na região. E isso aumentou muito hoje em dia", afirma Manflin.

Apesar de os dados serem gerais de toda a área sul, é possível ter a dimensão da visibilidade e da proporção econômica da avenida Getúlio Vargas, que sem dúvida é a maior representante dessa localidade.


Via de acesso


Além do alto potencial comercial, outra explicação para a atratividade por parte dos criminosos que a Getúlio Vargas está assumindo é justamente por ser a única via de acesso no sentido Centro-bairro da zona sul, que abriga esses bairros de alto poder aquisitivo.

De acordo com a arquiteta da prefeitura Maria Helena Carvalho Rigitano, a questão é histórica. Ela explica que, antes da década de 80, não havia um planejamento de crescimento. "Antes, a cidade ia sendo loteada de forma contínua e sem regras. Assim, os lotes eram construídos mais e mais, porém, a extensão das ruas não aumentava".

Com isso, as vias existentes não se tornaram vias de acesso completas, deixando essa função unicamente para a avenida Getúlio Vargas. "Ela acabou virando essa via de acesso pelo tamanho que sempre teve. Na verdade, a Getúlio era uma estrada que ligava Bauru a Agudos. Por isso, hoje tem essa característica de única via de acesso", completa a arquiteta.

Mesmo sem ter todo esse embasamento histórico, os bandidos já perceberam que, para se chegar até os pontos de maior "glamour" da cidade, é necessário passar pela avenida. E é nesse momento que eles planejam suas ações.

Questionada se haveria alguma alternativa para o fato, a arquiteta Maria Helena Rigitano aponta que a maior dificuldade é devido à avenida estar localizada entre a rodovia Marechal Rondon e a linha férrea.

"Uma das saídas possíveis seria a de fazer marginais na Rondon, pois obviamente, não podemos direcionar o trânsito urbano para a rodovia sem mexer em nada. Outra alternativa seria construir travessias sobre a linha férrea, mas também é algo complexo e com grande custo", conclui.

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Vida noturna


O movimento na avenida Getúlio Vargas não se restringe ao período diurno em função do horário comercial. Quando a noite chega, a característica de shopping ao ar livre dá lugar ao ?point de balada?. Povoada por bares, casas noturna e restaurantes, a extensão da avenida foi eleita desse modo pelos frequentadores.

Porém, sua abrangência não para na diversão. Além de atrair os olhos dos bandidos, tal vida noturna também incita e facilita outros dois grandes males que atormentam moradores e comerciantes: o barulho desenfreado e atos de vandalismo. As polícias Militar (PM) e Civil estão concentrando esforços para coibir esses dois problemas. Em relação ao barulho, além de intensificar operações de trânsito e bloqueios de quinta a sábado na avenida, o comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior (BPM-I), tenente-coronel Nelson Garcia Filho, aponta outras estratégias.

"Iremos fazer uma reunião na quarta-feira (amanhã) com a presença de vários órgãos para discutir outras medidas efetivas. Hoje (ontem), nos reunimos com a Polícia Civil e analisamos alguns procedimentos, como até mesmo a apreensão, que já é realizada em cidades da região, dos veículos que desrespeitam a lei e fazem barulho", diz, afirmando que um medidor de decibéis será solicitado.

Sobre os atos contínuos de vandalismo, Garcia reconhece o problema, porém, aponta um grupo pontual como responsável. "São cerca de seis adolescentes que sempre estão aprontando. Eles já são até conhecidos no meio policial. Já foram recolhidos, mas voltaram às ruas. Como sabemos que também consomem drogas, vamos tentar que sejam recolhidos novamente", conclui o comandante.

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Comerciantes convivem com insegurança


Cansados de conviver com vitrines arrombadas e repetitivos furtos, os comerciantes da Getúlio Vargas confirmam que o crescimento econômico e de fluxo atrai o olhar da criminalidade e propicia os atos de vandalismo. Segundo a maioria, tais práticas frequentes caminham para que a beleza da via seja esquecida aos poucos.

É o caso de Roberto Oliveira, proprietário de um restaurante na quadra 11 da avenida. Ele afirma que, em seis anos, já foi furtado sete vezes e que, por isso, teve que investir R$ 5 mil em equipamentos de segurança.

"A estética do nosso estabelecimento está sendo perdida, e mesmo com a polícia atuando, nada pode ser feito porque grande parte dos crimes são praticados por adolescentes", afirma.

A mesma reclamação faz Amilton Bissoli, gerente de uma filial de lojas de móveis, que prevê prejuízos à cidade. "Temos que sentar e discutir isso com as autoridades. Precisamos de uma estratégia, pois quem perde com isso é a própria cidade de Bauru. Em breve, pessoas da região não vão mais prestigiar nosso comércio", teme.

Além da criminalidade, os atos de vandalismo também se tornaram um calvários ao comerciantes que, diariamente, encontram surpresas em seus estabelecimentos. "Toda vez que vamos abrir a loja de manhã, alguém urinou no canto da vitrine. Temos que tocar no cadeado impregnado com essa urina. É algo horrível", conta Kátia Regina Broco do Amaral, proprietária de uma loja na avenida.

E se o problema incomoda os comerciantes, imagine aqueles que, além de ter um estabelecimento, moram na avenida. É o caso de Cláudia Maria Bertoni, que sofre duplamente: com a insegurança e o barulho. "É um transtorno imenso. É impossível conseguir dormir. Parece que temos que nos adaptar ao barulho. Vivemos com algo terrível", reclama.

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