Tribuna do Leitor

UM PEIXE FORA DA ÁGUA


| Tempo de leitura: 2 min

No dia 01/08/1959, desembarcamos (meu pai, mãe, irmã e eu) na gare da NOB-Bauru. Vínhamos de Santos (minha cidade natal). Meu pai (oficial do Exército) havia sido transferido da Fortaleza de Itaipu (S. Vicente) para a 6ª R (Bauru).Na praça Machado de Mello, a Banda do Liceu Noroeste executava magistralmente música em homenagem ao dia da cidade. Sempre vivera no litoral. Com minha bicicleta pedalava até o Guarujá, S.Vicente, Praia Grandeetc. Minha retina estava acostumada ao mar azul, aos dias de sol, às peladas nas areias da praia. Banhos de mar numa água então limpa. Lá não havia preconceitos de raça ou de poder aquisitivo. A praia nos unia. Foi um choque cultural confrontar-me com costumes diferentes na nova cidade. Bauru era aquém de Santos em termos de evolução.

Aqui, nas ruas era proibido andar com ber-mudas. Uma equipe masculina de basquetebol de Santos (1960) foi presa na rua Batista (onde hoje fica o Calçadão) por estar de bermudas na rua. No Cine São Paulo (onde hoje está o Magazine Luíza), homens só entravam com paletó e gravata. Havia naquele cinema poltronas reservadas, com pano branco no encosto, para autoridades. Mesmo com o cinema lotado, as cadeiras ficavam vazias e algumas pessoas em pé. Divertimento no fim de semana eram: cinema, "footing" (Praça Rui Barbosa ou Primeiro de Agosto) ou bailes nos clubes da cidade. Lá em Santos, não. Você saía às ruas e se divertia nos sete quilômetros de praias. Havia (Bauru) o preconceito contra afro-descendentes.Eles tinham um clube só para negros. Pelé, já campeão mundial de futebol, foi barrado num clube social destinado às classes "A" e "B".

Bauru era uma cidade provinciana. Classes sociais conviviam, mas apartadas. Sofri muito até me sentir bem aqui. Era um peixe fora da água. Estava inserido num contexto social diametralmente oposto ao que fui criado lá na Bai xada Santista. Estava a mais de 400 km de minha cidade natal, de meus amigos, das diversões de uma cidade praiana, de um outro estilo de vida. Sentia uma profunda e dolorida nostalgia. O tempo foi passando, passando. Bauru foi crescendo, crescendo. Evoluindo nos costumes. E o peixe fora da água, que existia em mim, sofreu gradativa metamorfose, adaptou-se, ambientou-se, transformou-se num anfíbio, aprendendo a gostar de Bauru.

Gilberto Si-dney Vieira

Comentários

Comentários