Nas últimas semanas, os bauruenses voltaram a sofrer com uma situação bastante desagradável. Ao abrirem as torneiras, o que escorreu não foi o líquido transparente de costume, mas sim uma água suja de barro. E o problema, que perpassa pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) da cidade, pode voltar à tona. O motivo é o precário estado do rio Batalha, que é a fonte abastecedora de grande parte da água da população da cidade e está cada vez pior por conta do processo de assoreamento.
O rio Batalha tem 167 quilômetros de extensão e nasce na Serra do Jacutinga, em Agudos. Findando em Reginópolis, onde desemboca no rio Tietê, o Batalha passa por grande área em Bauru.
Em uma lagoa específica, o DAE faz a captação das águas desse rio e, após o tratamento, abastece 40% da população bauruense, o que equivale a cerca de 140 mil habitantes. Há uma semana, toda essa população sofreu com a presença de água com barro em suas torneiras. O problema, que voltou a se repetir neste fim de semana no Conjunto Habitacional Joaquim Guilherme e no Parque Viaduto, teria ocorrido também pela existência dos processos de erosão e assoreamento do rio Batalha.
E a população pode se preocupar novamente, uma vez que a situação do Batalha é desanimadora. A pedido do JC, o coordenador técnico do Fórum Pró-Batalha, Eliel Pacheco Júnior, detalhou um diagnóstico do rio e dos córregos que o abastecem e o assoreamento é bastante preocupante.
O diagnóstico foi feito desde a nascente do rio até onde é feita a captação das águas para o fornecimento do DAE. Essa área é denominada de bacia Alto Batalha e, nela, a preocupação maior são com as pastagens.
"Em toda essa área, cerca de 70% do território é composto por pastagens, que é o tipo de cultura que mais degrada os recursos hídricos. Toda cultura provoca uma perda de terra, mas a pastagem apresenta maior processo erosivo e, com isso, a sedimentação em rios próximos", afirma Eliel Júnior.
O restante dessa área da bacia mantém 15% de vegetação nativa, 13% de plantio comercial ? como eucaliptos ? e 2% de área urbana. "Fora a área de Piratininga, todo o restante dessa bacia é formada por propriedades rurais, nas quais o que prevalece são as pastagens e os prejuízos que elas trazem".
Divisões
Para a realização do diagnóstico, o coordenador técnico Eliel Júnior dividiu o território em três sub-bacias. A primeira, a bacia das Nascentes, é a mais preocupante, uma vez que é quase completamente tomada por propriedades de criação de gado. "Nessa bacia, a área mais degradada é a do córrego Santa Rita, que desemboca exatamente no Batalha. Esse córrego grande tem bastante assoreamento e leva grande parte desses resíduos em direção ao Batalha".
Já a segunda bacia, a do Córrego Lagoa Dourada, é onde estão sendo desenvolvidos os projetos atuais do Fórum Pró-Batalha. Apesar disso, o estado da região, que compreende o município de Piratininga, é alarmante também pela grande presença de pastagens.
A terceira bacia, a do Ribeirão do Veado, é a mais preservada e, infelizmente, a de menor área. Segundo Eliel Júnior, há pequenas propriedades com pastos e muitas chácaras. Em contrapartida, a quantidade de florestas plantadas é grande, o que dificulta o processo de assoreamento.
Possíveis soluções
Para o coordenador técnico do Pró-Batalha, Eliel Júnior, a solução viável para o alarmante quadro é a substituição de culturas. "O certo seria haver um plano de manejo e conscientização dos proprietários rurais. O que seria mais positivo seria transformar parte das pastagens em cultura florestal, como o plantio de eucaliptos, por exemplo".
Além dessa mudança de culturas, que é bastante difícil, outras soluções apontadas são a recuperação da mata ciliar e a fiscalização e conscientização dos proprietários rurais em relação à área de reserva legal, que, por lei, obriga haver 20% de mata nativa nas propriedades.
"A situação é preocupante. O rio já não está mais em seu estado natural. Se essas soluções não forem adotadas, cada vez mais resíduos serão jogados nas águas e o assoreamento somente aumentará", aponta.
Visto isso, um estudo que já está em fase final analisa a possibilidade de fazer a captação do rio Água Parada, em Bauru, para o abastecimento da cidade. "O DAE estuda realizar essa captação (no Água Parada) justamente para diminuir a exploração no Batalha. Por conta da situação complicada desse processo de degradação, é algo que pode acontecer nos próximos anos", revela Eliel Júnior, que além de coordenador técnico do Pró-Batalha, é assessor de gabinete do DAE.
Condema promete atuar na conscientização na região
Segundo o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) de Bauru, agora que foi feito tal diagnóstico do rio Batalha, haverá incursões nas regiões críticas para atuar, principalmente, na conscientização dos produtores rurais.
"A situação está precária e piora constantemente com as chuvas. Temos que atuar na prevenção e orientação para que o problema não se agrave. Mesmo que não haja essa transformação de culturas, algumas medidas podem ser tomadas", aponta o presidente do Conselho, Dorival Coral.
Segundo ele, um exemplo de orientação é a instalação de piquetes nas pastagens. "Em locais de pastos, o gado vai sempre beber água nos rios. Com isso, ele faz uma trilha, que favorece a chegada dos resíduos ao leito do rio quando chove. Se fossem instalados piquetes que impedissem a formação dessas trilhas, já ajudaria bastante", opina.
Outra questão é a manutenção das curvas de níveis. De acordo com o apurado pela reportagem, na área onde as curvas de níveis romperam e originaram o problema da água barrenta em Bauru na semana passada, o proprietário foi notificado e já está providenciando o conserto dessas curvas. Mas ele foi chamado pela Polícia Ambiental e a postura de orientação prevaleceu e o proprietário não foi multado.
Água barrenta pode voltar às torneiras
O problema da água barrenta que chegou às casas de cerca de 40% da população bauruense na semana passada pode voltar a atormentar. Pelo menos é o que afirma o coordenador técnico do Pró-Batalha, Eliel Pacheco Júnior.
Na ocasião, bairros como o Beija-Flor, o Parque City, Novo Jardim Pagani, Parque Santa Cecília, Parque São Geraldo, Jardim Godoy, Jardim TV, e Vila Garcia foram afetados pelo problema.
Por conta do volume excessivo de resíduos, o procedimento é de reduzir a vazão da água (o que pode ser realizado até à metade da produção normal) para evitar que o líquido captado venha com muito barro. A vazão normal pode chegar a 650 litros por segundo.
Entretanto, mesmo com a redução dessa vazão por conta da turbidez, alguma água com barro, na ocasião, teria passado pelos processos de filtragem e chegado às casas das pessoas.
Eliel Júnior aponta que, após a constatação do problema, o helicóptero Águia da Polícia Militar (PM) percorreu o rio Batalha e encontrou a origem. "Foi uma área bem próxima da lagoa de captação do DAE. Esse local, que fica a cerca de três quilômetros da lagoa, está com grande sedimentação. Com a chuva, várias curvas de nível se romperam, os resíduos foram parar no rio e, de lá, para as casas das pessoas. Não foi a primeira vez e não será a última. Se chover de novo, é bem provável que isso volte a ocorrer".
A preocupação na área realmente procede, visto que, bastante sedimentado, qualquer medida tomada pode até mesmo piorar o problema. "Há muitos resíduos já sedimentados nesse ponto. Qualquer intervenção poderia levantar esses sedimentos e fazer com que cheguem até a casa das pessoas".
O problema é que o DAE já sabe da situação há alguns anos e, até agora, não demonstra que tenha agido em relação aos proprietários de áreas no local para tentar contornar a situação. A turbidez na água se repetiu nos outros períodos de chuva na cidade.
Neste fim de semana, fato semelhante ocorreu novamente. Entretanto, a estranheza é que atingiu somente o Conjunto Habitacional Joaquim Guilherme e o Parque Viaduto, principalmente, no Parque Residencial dos Sabiás.
Segundo a assessoria de imprensa do DAE, o problema teria sido o rompimento da adutora, fato estranho, pois esse tipo de problema apenas interromperia o abastecimento de água. Já funcionários do próprio DAE ouvidos pela reportagem informaram que o origem do dilema mais uma vez ocorreu na captação no rio Batalha.