Ciências

Embrulhou, comeu!... a embalagem!


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Ao comer não se deveria deixar resíduos, nem objetos para serem lavados. Copos, pratos, bandejas, talheres e garrafas de plástico duram séculos para serem eliminados. Coisa retrógrada! Os alimentos devem ser servidos em recipientes que sejam alimentos. O pioneiro foi John Montagu, o 4º Conde de Sandwich em 1762. Como aristocrata inglês viciado em jogo de cartas, não queria perder tempo em almoçar ou jantar e pedia refeições servidas no pão. Ao comer, não ficava pratos e talheres para lavar. Assim nasceu o sanduíche!

Os pratos e talheres deveriam ser comidos como as taças de biju dos sorvetes. Ao sair do salão de festas temos o café e o licor. Como é saboroso o licor e gostosa a taça de chocolate dissolvendo-se na boca. Hummm! Não tardaram as calcinhas e cuecas comestíveis. Derretem com o calor e a umidade do corpo e também com saliva e roçar da pele de parceiros. Mas podem complicar; saboreados não sobrará nada ao voltar em casa!

As pesquisas caminham neste raciocínio: não deixar resíduos inconvenientes. Na Universidade Estadual de Londrina pesquisadores desenvolvem bandejas a base de 80% de amido de mandioca e 20% de fibra de cana de açúcar para produtos secos como pães, frutas e verduras que se degradam em 45 dias. As propriedades mecânicas são boas e tem baixo custo, destaca a Suzana Mali de Oliveira que coordena o projeto financiado pelo CNPq.

Diariamente precisamos de películas, membranas ou filmes. Embrulhamos verduras, frutos e alimentos com películas em sacos e sacolas. No plantio, as mudas são transportadas em saquinhos ou caixinhas. No Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da UEL, Maria Victoria E. Grossmann lidera pesquisas com filmes plásticos biodegradáveis para acondicionar mudas, proteger frutas no campo e ainda cobrir o solo no cultivo de verduras e frutas.

As pesquisas desenvolvem películas com graus variáveis de permeabilidade à água e aos gases e controlam a respiração das frutas e hortaliças, a umidade e a secura do micro ambiente, preservando-os por mais tempo. Imagine chegando da feira com mudas de plantas medicinais, flores e frutos dentro de um saquinho, adaptando-o ao vaso, canteiro ou floreira, sem precisar tirar a embalagem. Em algumas semanas a embalagem estaria dissolvida na terra, mas o plástico convencional demoraria séculos até ser eliminado.

Antes de plantar pode-se umedecer esta película degradável com produtos que fariam bem para a planta. As raízes das plantas agradecem pois nem precisam ser manipuladas no replantio. As películas à base de amido de milho, batata e trigo estão sendo comercializadas e aplicadas em várias culturas, como a de morangos. A industrialização de novos produtos está sendo feita com empresas italianas como a Novamont com o nome comercial de Mater-Bi. Outros produtos biodegradáveis: sacos lixo, garrafas, pratos, talheres e brinquedos. Ainda vão ser assim as embalagens de balas e bombons. Quem sabe um dia os chicletes evoluem e passem a ser biodegradáveis!

Na Universidade Federal de São Carlos mudas de reflorestamento são transportadas e replantadas com plástico de amido de milho, resíduos de fibra de coco, serragem de madeira e casca de mandioca. Foi desenvolvido no Departamento de Engenharia de Materiais em projeto coordenado por Elias Hage Jr. com o nome comercial de Ecobras e Ecoflex em parceira com a Basf e se degradam em seis meses.

Algumas películas ou membranas degradáveis substituem a pele, mucosas e até protegem o reparo das fraturas e cirurgias para que seja feito apenas pelas células ósseas. Pesquisas na Universidade Sagrado Coração lideradas por Angela Kinoshita, revelaram que a membrana de látex da seringueira revelou esta propriedade ao ser colocada sobre a superfície óssea operada, acelerando o reparo ao estimular a proliferação de vasos e a formação de osso. São verdadeiros "esparadrapos" inteligentes!

E as roupas poderiam ser de películas ou panos biodegradáveis. Com o banho se dissolveriam. Adeus máquinas de lavar e secar roupas, adeus alvejantes, sabão e contaminação dos rios. Oba! Roupa nova todos os dias!

Ao levantar-se da mesa não se preocupe com os pratos, talheres, taças, guardanapos, toalhas e pratos de sobremesas: todos foram comidos. Se sobrar alguma coisa, é biodegradável e não contaminará o meio ambiente. Se manchar as roupas, nem ligaria, roupas sairiam no banho! O conde de Sandwich nem imaginava que sua mania de comer no pão inauguraria um novo conceito de comer e embrulhar sem deixar nada para ser lavado. Como poderão ser saborosas as embalagens dos presentes natalinos! Nem vou contar essas coisas para minha mãe, ela não acreditaria!


Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br

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