Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém. O velho ditado cai como uma luva sobre os quatro dias, contados desde ontem, marcados por muita festa, cerveja e calor, apesar da temperatura atípica registrada durante a última semana. E, se falta prudência em alguns quesitos durante a festa de Momo, algo que não pode faltar, certamente, é a tradicional canja de galinha.
O prato é ideal para regenerar o corpo após a balada carnavalesca e, até mesmo por isso, muito concorrido durante o feriado prolongado. Bastante procurado em restaurantes, que prolongam o expediente para atender os extenuados foliões, o caldo, apesar de conter poucos ingredientes e de preparo relativamente simples, supre perdas de líquido e restabelece a energia gasta seja no salão, rua ou sambódromo.
Rica em nutrientes, com alto poder regenerativo ? não à toa é sempre recomendada para pessoas com gripe ou resfriadas ?, a canja aparece também como um "santo remédio" para eventuais excessos cometidos durante a folia, recomendam nutricionistas. "A canja é uma boa opção. Após bailes de antigamente, era muito comum o consumo", recorda o médico nutrólogo Hilton Borgo.
Por ser leve e, ao mesmo tempo, farto tanto em carboidrato como em proteínas, o prato, embora antigo, não saiu de moda durante o Carnaval, apesar da referida tradição dos bailes estar cada vez mais apagada, substituída pela folia de rua ou restrita às performances das escolas de samba na avenida.
Independentemente à forma de diversão ? e respectivos excessos ?, a boa e velha canja segue firme no paladar do folião. "A canja é muito pedida durante o Carnaval, quando praticamente dobra a demanda", observa o comerciante Thiago Vieira Francisco, proprietário da lanchonete Skinão, que, além do famoso sanduíche Bauru genuíno, mantém tradição em servir o caldo durante os festejos carnavalescos.
Segundo ele, o costume teria iniciado ainda quando a lanchonete era sediada ao lado da antiga sede social do Bauru Tênis Clube (BTC), no Centro de Bauru, nos anos em que ainda eram realizados os saudosos bailes carnavalescos de salão. Desta forma, foliões famintos e desgastados após a tríade "samba, suor e cerveja" pediam pelo prato, atualmente elencado no menu o ano inteiro.
Diariamente, contabiliza Thiago, cerca de 50 pedidos ? entre consumo no restaurante e encomendas em domicílio ? são anotados, especialmente no frio. Curiosamente, este Carnaval, ao menos no início, tem apresentado temperatura amena, atípica para a época do ano, algo que também impulsiona a expectativa de consumo do caldo, que, tradicionalmente, em madrugadas de folia, já é vendido em dobro.
?Heróis da resistência? não saem da dieta nem no feriado prolongado
Para muita gente, perder peso ou simplesmente manter a forma controlando com rédeas curtas a alimentação tem apelo maior do que quatro dias destinados, geralmente, a excessos para todos os gostos. O fato de ser Carnaval, para quem é preocupado em seguir à risca o recomendado na tabela nutricional, é indiferente.
Entre aqueles que passam da conta na cerveja, os quilos a mais na quarta-feira de cinzas são praticamente inevitáveis. A situação é ainda mais preocupante para foliões famintos após bailes, festa de rua ou desfiles, que atacam sanduíches ou petiscos gordurosos antes de dormir, hábitos altamente reprováveis por especialistas em nutrição.
Contudo, até mesmo para quem foge da agitação de blocos e bailes, nos tradicionais retiros carnavalescos, onde, apesar da ausência do "reinado de Momo", há leque de atividades programadas, o recomendado é uma alimentação mais leve, repleta de hortaliças, legumes, carne branca e grelhados. "Corte fritura, gordura e comida pesada. Uma alimentação mais leve, acompanhada da ingestão de líquidos vai ajudar o organismo a se preparar, reduzindo o risco de desidratação, tonturas e até desmaios", recomenda a nutricionista Simone Santos.
Especialista em exercício físico, nutrição e medicina na saúde e no esporte, ela recomenda, tanto para festa quanto para atividades alternativas durante o período, refeições intercaladas a cada três horas com atenção para a forma correta de se repor energia. "Como há gasto energético, o correto é comer carboidratos. As barras de cereais são uma boa pedida. Além de práticas, são gostosas e possuem em sua composição tanto carboidratos quanto fibras", especifica.
Outra boa fonte de energia com rápida metabolização por parte do organismo, acentua, é o macarrão, inclusive o instantâneo. "O que fica pronto em três minutos pode ser uma boa opção, mas o ideal é preparar com temperos naturais. Se possível, acrescente alguns legumes picados. O tempero que vem pronto deve ser evitado", acentua.
Longe da agitação das ruas e sambódromos, participantes de retiros asseguram que também estão com a mala cheia de produtos saudáveis para não sofrerem reflexos do excesso, apesar de afastados da folia carnavalesca. "Procuramos seguir um cardápio balanceado, diferenciado. É sempre bom ter cautela quanto à alimentação e muito líquido", assegura o pastor evangélico Eli Parreira, cujo evento, obviamente, bane bebida alcoólica. "O álcool propicia uma alegria artificial", reprova.
Mesmo quem não acampa também se mostra preocupado em não sair do regime, ou ao menos extrapolar nas "transgressões gastronômicas", durante os quatro dias de Carnaval. O dentista Bruno Nogueira Araújo, de 30 anos, é um dos que procura controlar a boca, independentemente dos feriados. "Caso eu saia do regime num dia, procuro compensar no outro com alimentos mais leves. Troco o refrigerante por sucos, com mais saladas e carne branca", explica.
Organização
Além dos apelos - maiores nesta época do ano - para as extravagâncias em todo e qualquer tipo de calorias, sejam elas líquidas, fritas, assadas ou doces, quem segue firme no objetivo de continuar no regime ainda encontra um grande "vilão" dentro da própria casa, especificamente na cozinha. "Abrir a geladeira e deparar-se com uma infinidade de guloseimas é a morte para qualquer pessoa que está de regime", aponta a nutricionista Simone. "Na hora em que bate a fome ou dá aquela louca vontade de comer uma ?coisinha?, se essas tentações estiverem à mão, não tem jeito: vão parar exatamente onde não deveria, na nossa barriga", sentencia.
Para evitar deslizes pela facilidade em encontrar o que não se deve, ela orienta a organização da geladeira de modo a que, mesmo em momentos de fraqueza, a persistência na dieta sobressaia. "É preciso estar de olho em como abastecer a geladeira. Ela deve acomodar alimentos funcionais e práticos", acentua.
Simone recomenda acondicionamento de frutas em locais visíveis. "Elas devem ser deixadas já picadas e prontas para consumir. Lave-as e seque antes de guardá-las. Isso aumenta o tempo de conservação e facilita a ingestão na hora da pressa", orienta, ao mesmo tempo em que bane os "perigosos" sorvetes, refrigerantes, comidas ricas em massa e molhos calóricos", completa.
O mandamento "o que os olhos não veem o estômago não pede", concorda a nutricionista, é mais do que cabível numa situação em que é preciso resistir para vencer a luta contra a balança. "Tenha opções de sobremesa pouco calóricas, como gelatinas diet ou light. Deixe bem visível um queijo ricota temperado com orégano e tomates picadinhos. Você pode passar em uma torrada ou pão integral.
Quem procura manter os alimentos saudáveis à vista e tem a geladeira livre de guloseimas tentadoras é o enfermeiro Manoel Messias do Nascimento Júnior. "Guardo na geladeira, e claro, consumo, muitas frutas, verduras, suco integral e leite desnatado. Pão integral também não falta. Procuro sempre selecionar muito bem os alimentos, de preferência sem conservantes. Isso independe de datas", assegura.