Costumamos dizer que o Carnaval nasceu com o chamado samba de morro, ritmo que parece reunir o "sentimento" da alma brasileira. Houve uma época em que a visão que se tinha dos morros era de locais paradisíacos, onde se vivia uma vida de pobre, porém tranquila e feliz, um lugar abençoado por Deus. "Lá não existe felicidade de arranha-céu, pois quem mora lá no morro já vive pertinho do céu", cantaria Herivelto Martins em sua música Ave Maria no Morro, em início da década de 1940. O conjunto de festas, danças e cantos nascidos no seio das classes populares, enquanto circulam apenas no próprio ambiente que os produziu, é conhecido como arte folclórica: o mesmo grupo social a produz e a consome, não há reivindicação de autoria e, consequentemente, ninguém recebe qualquer tipo de remuneração pela criação artística.
Depois, "chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor". Assim começava o samba Brasil Pandeiro, de Assis Valente (1940), para terminar incentivando o Brasil a esquentar seus pandeiros, iluminar seus terreiros "que nós queremos sambar". O samba desceu o morro, incentivado pela elite cultural. Os brancos se encantaram com os folguedos antes rejeitados, passando a consumi-los, alterá-los e, finalmente apoderaram-se do espetáculo. Além dos pandeiros incrementaram cores, peitos e bundas. É aí que a chamada arte folclórica se transforma em arte popular: um grupo social produz para o outro consumir, há reconhecimento de autoria, remuneração ao autor e, aos poucos, o gosto do consumidor irá influenciar e modificar a produção.
O Carnaval de hoje no Rio de Janeiro, praticamente se resume ao espetáculo televisivo do desfile das escolas de samba. Aqui em Bauru, o paternalismo político tentou se apropriar dos desfiles das escolas de samba. Construiu-se até um Sambódromo, mas a média política não foi tão generosa em tempo de crise e o Carnaval bauruense caiu do galho, deu dois suspiros, mas ainda não morreu. Em compensação nos transformamos na Capital do Retiro Espiritual: 40 mil cantam em louvor a Deus. Amém.
A festa carioca costuma ser acusada de ter-se transformado num espetáculo que só pode ser desfrutado por quem possa pagar o alto ingresso do Sambódromo. A folia baiana, por sua vez, também sofre as críticas ao seu elitismo. Só quem pode arcar com o alto preço de um abadá tem direito a brincar nas áreas nobres mais próximas aos trios elétricos, ou assistir à sua passagem dos camarotes. O Carnaval emergente de São Paulo luta contra o fato de ser apontado como uma festa "artificial", inventada como uma espécie de alternativa da televisão. O portentoso Carnaval do eixo Recife-Olinda tem dificuldade em obter a merecida repercussão nacional. E é um dos mais espontâneos, com o Galo da Madrugada que arrasta milhões de foliões pelas ruas do centro do Recife, e as manifestações nas ruas históricas de Olinda. Em Salvador, Ivete Sangalo e Cláudia Leite tomaram conta dos trios elétricos. Por trás dos holofotes escondem-se grandes interesses financeiros e empresariais. O Carnaval não é mais tão ingênuo como no tempo do lança-perfume, proibido por Jânio Quadros, em 1961. Saiu a Rodometálico e entrou a cocaína, maconha, excstazy e outras drogas. Essa mentalidade de festa popular vem desde o século 16, quando se carnavalizou o carnaval. Começaram a achar que nesse período tudo é permitido, desde o excesso à inversão do certo pelo errado. Nas aventuras contadas por Rabelais (séc. XVI), o gigante Pantagruel se diverte urinando sobre a cidade de Paris. Esse tipo de situação, ao mesmo tempo cômica e grotesca, seria associado às brincadeiras que aconteciam no período anterior à Quaresma e à idéia de carnavalização. O jato de urina de Pantagruel era tão forte e quente que deu origem às águas termais da França e da Itália. Hoje, no Rio, se faz campanha para que não se urine na rua. Treze mil banheiros químicos foram colocados à disposição do público. Há até uma nova marchinha de João Roberto Kelly: "Tá com vontade de fazer xixi, não faz aqui..." A campanha também tem slogan: "Se for dirigir , não beba. Se beber,não urine na rua". Divirtam-se. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC )