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Construção civil já seduz mulheres

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min


Quem disse que construção civil é coisa de homem? O número de mulheres que trabalham no setor, que impulsionou o crescimento da economia no ano passado, aumenta cada vez mais. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a contratação de profissionais do sexo feminino deu um salto de 44,5% no País entre 2007 e 2009, quando o número de mulheres contratadas na área era de 172.734 (7,78% do total) contra 119.538 de dois anos antes.

O crescimento foi maior do que o registrado nas contratações de trabalhadores na construção civil com um todo, que teve taxa de 32,65%. Esse cenário foi avaliado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) como uma conquista da sociedade e das mulheres em um segmento historicamente dominado pelos homens.

A participação das mulheres na atuação da construção civil, porém, pode ser muito maior do que a apontada pelos números. Renato Parreira, diretor regional do Sindicato da Construção (SindusCon-SP) em Bauru, afirma que a contratação formal de mulheres é uma realidade na Capital do Estado. No entanto, a maioria delas, inclusive na região de Bauru, trabalha de forma autônoma, realizando principalmente serviços de acabamento nas obras.

É o caso da pedreira Andréia Cristina Andrade, 43 anos. Casada e mãe de quatro filhos, ela conta que há 10 anos largou o emprego de cabeleireira, que exercia em um salão de beleza da cidade, para aprender o ofício com o marido. "Comecei como servente de pedreiro. Ele ia trabalhar e me ensinava tudo. Hoje, meu marido faz a parte dele do trabalho e, depois, eu faço a minha, e ganho mais do que no antigo trabalho", afirma.

Quanto às limitações físicas para a atividade no setor, a pedreira explica que, quando começou, sentia muitas dores nas pernas e nos braços ao fim do dia. "Mas hoje é como se fosse minha academia de ginástica. Já estou acostumada e gosto muito do que faço", conta.

Pensando em se matricular em alguns cursos para aperfeiçoar seu trabalho, Andréia diz que, quando começou a trabalhar na construção civil, muitas pessoas não entendiam como uma mulher poderia fazer esse tipo de serviço e alguns até a criticavam. "Tinha gente que torcia o nariz, mas hoje, depois de muito trabalho, a maioria dos meus serviços é feita por indicação de clientes. Meu marido e eu trabalhamos como autônomos", explica a pedreira, orgulhosa.

Preconceito


O presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e do Mobiliário de Bauru, Cláudio da Silva Gomes, confirma que ainda existe preconceito na contratação de mulheres neste setor. "A maioria ainda atua na área administrativa das obras. Em muitos casos estão, inclusive, ocupando as vagas que eram de homens nesse segmento. No entanto, já temos algumas trabalhadoras na área produtiva aqui na região e a tendência é de que isso aumente, apesar dos obstáculos", aponta.

Ele explica que o sindicato reivindica a implantação de reserva da mão de obra de, pelo menos, 5% para trabalhadoras do sexo feminino no setor produtivo da construção civil. "Se a média nacional é de mais de 7%, estamos muito aquém. A contratação de mulheres em obras é bem mais recorrente nas regiões Norte e Nordeste. Ainda precisamos avançar muito" afirma.

O dirigente sindical comemora, porém, a diminuição constante do trabalho informal na construção civil. "A maioria de homens e mulheres são contratados com carteira assinada ou atuam como autônomos", garante.


Salários ainda são desiguais entre sexos

O número de mulheres contratadas em importantes atividades econômicas do País segue em crescimento. Em dezembro de 2010, elas eram 17,9 milhões, ocupando 41,48% das 43,3 milhões de vagas de empregos formais. Em 2006, a taxa era de 40,64%.

Apesar da expressividade cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho brasileiro, elas ainda são em menor número na maioria das 99 atividades que fazem parte da Classificação Nacional de Atividades Econômicas. Em apenas nove delas as mulheres ocupavam mais postos de trabalho em 2010. A maioria são atividades nas quais o gênero feminino tradicionalmente se destaca, como nas áreas de confecção, educação, alimentação, saúde, doméstico, organizações associativas e outras atividades de serviços pessoais.

Para a presidente do Conselho Municipal de Condição Feminina, Acyr Santinho, a diferença entre os salários de homens e mulheres que ocupam as mesmas funções ainda é o principal desafio no mercado de trabalho. Acyr aponta também a violência doméstica contra as mulheres e a baixa representatividade política do sexo feminino como problemas que precisam ser superados.

"A eleição de Dilma Rousseff abriu caminhos. Em Bauru temos uma vice-prefeita, o que é importante. Por outro lado, apenas uma mulher está na Câmara Municipal. Nas secretarias municipais, apenas duas comandam pastas."

Falta qualificação profissional

A entrada das mulheres no mercado de trabalho da construção civil é confirmada pelo diretor regional do SindusCon-SP em Bauru, Renato Parreira. Ele destaca como ponto positivo, principalmente, a qualificação técnica da mão de obra feminina e a vantagem em relação aos homens na execução de alguns serviços. "Elas não estão sendo contratadas para fazer força, mas para aplicar seus conhecimentos técnicos, principalmente nos trabalhos de acabamento, como pintura e revestimento de pisos e azulejos. Elas são mais cuidadosas que os homens e podem fazer isso melhor", destaca.

Parreira aponta também o crescimento no número de matrículas de alunas nos cursos técnicos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-Bauru), especialmente no de Edificações. Larissa Fiorenzi, 16 anos, é uma dessas alunas. Moradora de Pederneiras, ela também cursa o 2º ano do ensino médio no Sesi. "Eles apresentaram três tipos de cursos técnicos para a gente e eu me interessei muito pelo de Edificações porque pode me ajudar na carreira de arquiteta que eu quero seguir", explica.

Segundo a estudante, apesar do equilíbrio entre alunos do sexo masculino e feminino no curso, as mulheres são maioria na turma de Larissa, que iniciou as atividades no começo desse ano. "Nós estamos na frente, mostrando para a sociedade que não existem atividades exclusivas de homens ou mulheres. Todos podemos fazer tudo o que quisermos", destaca.

Larissa Caires Stratassoni, 17 anos, também está matriculada no curso de Edificações do Senai e mostra estar bastante empolgada com as aulas. "No mercado de trabalho, a gente fica no meio termo entre o arquiteto e o mestre de obras. Quando me formar, posso assinar construções de prédios menores. Temos aulas teóricas, práticas e de desenho técnico. Já aprendi a assentar tijolos e medir o nivelamento da obra", conta animada.

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