Lair: a professora, a acadêmica, a mãe de família, a companheira de todas as horas. Lairana: artista. Antes de adjetivá-la, uso de um pensamento de José Saramago: "Para ser pintor, não basta pintar". Parece-me um enunciado óbvio, mas, em sua simplicidade, implicitamente, define o que é um pintor: criativo, conhecedor da estética, pesquisador da história da arte e dos vários estilos, manipulador de telas, pincéis, tintas.
O pintor sente a dor da expressão, busca linguagens e gêneros, o seu pincel tem a precisão formal de um bisturi, que constrói e investiga o tecido de seu texto pictórico. Conta uma história ou faz poesia. É trágico ou lírico.
Todas essas reflexões, após um perpasse pelos meus teóricos de cabeceira, exercito uma leitura pelas telas de Lairana exposto no É +Arte, e, mais uma vez, recito Saramago: "Quem pintar um retrato, a si mesmo se retrata!" É assim que vejo a exposição de Lairana: um retrato dela mesma - uma explosão do seu eu lírico. Mas vejo, igualmente, um ponto de chegada de suas pesquisas e leituras sobre a busca do espaço e do tempo presentes em suas telas tematizadas por papoulas e girassóis.
Ao rabiscar este texto relembro o texto de Francastel "Realidade Figurativa" e um artigo de Arnaldo Jabor, publicado no Caderno 2, Jornal Estado de São Paulo, em 8 de fevereiro de 2011.
O autor, referindo-se à importância de ícones do século XIX que antecederam a Picasso, escreve: "Picasso mudou o olho humano. Cezanne já tinha pintado a matéria íntima da natureza. Van Gogh já tinha pintado o tempo. Olhem um Van Gogh e vejam o tempo passando sobre as coisas". Abraçando o pensamento de Jabor, passo a preocupar-me com a importância do espaço e do tempo na pintura de Lairana.
Para minha leitura selecionei quatro delas que, pelas suas composições, direcionam parte das outras expostas na É+Arte: Tropicália; Amesterdam; Olhar Augusto (foto) e Conceptio II. Todas elas têm traços comuns - o movimento e a busca do espaço pictórico, a ausência da perspectiva (inserir as imagens dessas telas). A questão do espaço e dos planos pictóricos criam uma profundidade já usada por Giotto, especialmente, na Capela da Siena ou Scravegnia (Pádua) onde os protagonistas não se sobrepõem. A tela Tropicália, cujo motivo é o girassol, revela essa técnica de construção do espaço prectórico. O olhar do espectador passeia pela tela e vislumbra a proximidade e o distanciamento pelos girassóis que se afastam e perdem a dimensão.
Em Amesterdam, tem-se uma outra posição planar: as papoulas movimentam-se quase que em uma diagonal em fuga da tela. O campo dessa flor busca exceder o limite da tela e invadir o horizonte.
O meu andar pela galeria deteve-se na tela "Olhar Augusto". Nela, Lairana cria um conflito, uma tensão explícita através do movimento, das cores, das invasões pictóricas. O ritmo torna-se agressivo. É a expressão lírica tensional. Os girassóis são matizados pelas cores amarelo e azul, alguns são duplamente coloridos, outros permanecem amarelos ou azuis. Ante ela, o espectador pensa se está doente dos olhos. (Fernando Pessoa)
Uma outra tela instigante é a Conceptio II, onde a papoula se metamorfoseia, se metaforiza, se desconstrói para invadir a tela pelo movimento. A papoula, através de uma haste, adentra-se por ela e movimenta-se, de suas pétalas sai a forma que se amplia e preenche o quadrado branco. Porém, em uma ação coesiva, tudo afunila-se para o eixo gerador: o da papoula invasora pictórica. Além da exposição em É+Arte, o livro de Ney Vilela, "Lairana, artista brasileira", edita outras telas da pintora, ambos revelam um percurso pitórico, a busca de uma pesquisa, um estilo criador: o seu retrato.
Outras telas deixo-as aos demais leitores expectadores de Lairana. Recolhendo as velas da minha navegação pelas telas dessa artista bauruense, perguntam-me se a Lairana não esteve sempre presente na Lair. (Nelyse Salzedas)