A tragédia humana e a catástrofe natural pelas quais passa o Japão nesse momento não podem passar em vão. Devem servir de início para uma discussão séria sobre o futuro da nossa espécie a partir das nossas atitudes cotidianas e do nosso consumo de energia. Terceira economia mundial, sede de empresas mundiais de alta tecnologia, com um povo trabalhador e possuidor de uma tradição cultural reconhecida em todo o mundo, o Japão sofre hoje com o nosso modelo suicida de desenvolvimento, onde são necessárias montanhas de energia para que ele se mantenha.
Construiu 55 usinas atômicas para matar essa fome de energia. E com o terremoto e o tsunami ocorridos recentemente, a Usina Atômica de Fukushima sofreu severos abalos com explosões, podendo ocorrer algo mais grave nos próximos dias.
A partir da 1ª Revolução Industrial, começou-se a produzir muita mercadoria em pouco tempo, necessitando-se mercados consumidores enormes em escala planetária. Para que isso fosse possível, nos tornamos consumidores ávidos de energia, que é difícil de ser obtida: em primeiro lugar foi o carvão, depois, a eletricidade e hoje, para obtê-la, fazemos qualquer coisa, inclusive usar a controvertida energia nuclear.
Essa armadilha histórica e econômica sufoca o Japão e toda a humanidade, pois como poderemos gerar indefinidamente essa quantidade de energia necessária para o nosso consumo desenfreado? O mundo inteiro diz que hoje isso só seria possível através da energia atômica, menos poluente do que os combustíveis fósseis. Esse argumento é difícil de combater, mas a tragédia japonesa nos lembra que catástrofes acontecem e os erros humanos também. O imponderável e o acaso fazem parte da nossa espécie para o bem ou para o mal, como estamos vendo no país do sol nascente.
Sobre a energia nuclear, é necessário também argumentar que temos que guardar o lixo atômico por 500 mil anos. Isso mesmo, você não leu errado, são 500.000 (quinhentos mil anos) convivendo com um lixo que mata seres humanos e altera o código genético dos seres vivos.
Essa prepotência humana de querer dominar, controlar o que não pode ser controlado está nos custando o nosso futuro e o futuro dos nossos.
A catástrofe natural japonesa e a sua tragédia humana nos dão um recado claro: não é possível, de forma segura "apenas", gerar mais energia, chegou a hora de começarmos a pensar em novos arranjos econômicos, em novos contratos sociais, novas formas de consumo, novas maneiras de nos sentirmos belos e atraentes, onde a vida humana esteja acima de todas as coisas.
Não podemos desperdiçar o recado que nos vem da catástrofe japonesa com seus milhares de mortos. Vamos começar a refletir as mudanças para o futuro já, imediatamente em nome da Humanidade.
O autor, Fábio Pallotta, é professor de história e colaborador de Opinião