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Entrevista da Semana: Aparecida Brito Caleda

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

A ?mãezona? guerreira do samba

Idealizar um sonho e traçar metas são ações comuns ao ser humano. Porém, o que não acontece todo dia é ver tais sonhos realizados. E quando isso acontece, haja lágrimas e gritos de emoção. "Ver a Azulão do Morro ser campeã do Carnaval 2011 foi uma emoção sem tamanho", diz Aparecida Brito Caleda, a Cidinha do Azulão, ainda com a voz rouca da festa de comemoração.

Uma das primeiras moradoras do Parque Jaraguá, a presidente do Azulão falou ao Jornal da Cidade sobre os obstáculos encontrados e vencidos até chegar a vitória, além dos problemas enfrentados no cotidiano da comunidade, como a falta de infraestrutura para desenvolver projetos sociais com crianças e adolescentes.

Amante do futebol, Cidinha até já disputou alguns campeonatos amadores pela cidade e hoje é a presidente do Jaraguá Atlético Clube. "Minha família fundou o time e acho que herdei o gosto pela bola do meu pai".

Considerada por muitos como a "mãezona" do Jaraguá, ela demonstra sua preocupação com o futuro dos pequenos e deixa um recado para os pais: "Os pais precisam ser mais presentes na vida dos filhos". Confira os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade.


Jornal da Cidade ? Dá para medir o tamanho da emoção ao ver sua escola de samba ser a campeã do Carnaval?

Aparecida Brito Caleda ? Ah, é uma emoção muito grande. Nossa escola é de luta e tudo o que fazemos é com sacrifício. Essa vitória foi a consagração de tudo isso. As choradeiras, minhas idas a São Paulo, muito difíceis e sacrificantes... Posso dizer que a vitória veio abrandar todas essas lutas. É muito bom ser campeã.


JC ? Foi uma vitória esperada?

Cidinha ? Fizemos um trabalho para competir e ganhar. Temos um nome a zelar. Fomos um bloco campeão por quatro vezes e a escola pretende seguir esse ritmo. O ano de 2000 foi muito difícil, porque não tivemos verbas. No ano seguinte, tivemos verba, mas precisamos comprar pneus e fazer carros alegóricos, e os gastos foram muitos. Combinamos que partiríamos para disputar títulos no próximo ano, mas o Carnaval acabou. Continuamos desfilando no bairro e voltamos com tudo em 2011. Investimos mais do recebemos, porque nosso intuito era disputar o primeiro lugar.


JC ? Como é a rotina anual da Azulão do Morro?

Cidinha ? Fazemos algumas festas que não rendem muito dinheiro. Porém, o grande intuito é realmente unir a comunidade para aprender a gostar da escola. Eu digo hoje que a nossa escola é a única que tem comunidade. Domingo mesmo (hoje) vamos nos reunir para separar o material que ainda poderá ser utilizado no ano que vem. Deixamos em terrenos baldios porque não temos onde guardar, mas graças a Deus a comunidade toma conta e nunca fomos roubados.


JC ? Vocês são uma grande família composta por famílias?

Cidinha ? Isso. Temos uma amizade muito grande e muitas famílias integram a escola. Por exemplo, minha família toda faz parte, até meus dois netinhos. A Azulão começou com a torcida do Jaraguá Atlético Clube, time montado pela minha família. Antes disso, eu desfilei na Império da Vila Nova Esperança por sete anos como baiana. E já que levávamos uma ala para outra escola, decidimos montar um bloco que foi campeão em 1994, 1995, 1996 e 1997. Depois, o bloco virou escola, em 1998. Quando cheguei ao Jaraguá, havia apenas quatro casas no lugar. Meu pai gostava muito de futebol e de festas e isso foi passando para mim. Acho que é por isso que eu gosto de estar sempre rodeada de muita gente.


JC ? E por que Azulão do Morro?

Cidinha ? Primeiro, porque as cores do Jaraguá Atlético Clube são azul e branco. Depois, o campo era debaixo de um barranco, e colocar Azulão do Barranco ficaria feio, né!? (risos).


JC ? E por falar em futebol, fiquei sabendo que você já foi jogadora!

Cidinha ? (Risos) Já fui, sim. Joguei no time feminino do Jaraguá e no Prudência, que é do Nova Esperança. Cheguei a disputar campeonatos, mas não ganhei. Nosso time não era muito bom (risos). Eu era goleira, porque entendia as regras, mas muitas meninas nem sabiam sobre as regras do jogo. Acho que fui a goleira mais vazada na época, cheguei a levar nove gols, até gol contra (risos)! Hoje, sou presidente do time do Jaraguá e até dou umas broncas quando é preciso. Sou um pouco linha dura. Não gosto de ver pessoas desperdiçando material ou seja lá o que for porque as coisas para a gente são sempre difíceis.


JC - Você nasceu na zona rural, certo?

Cidinha ? Sim, na fazenda de Val de Palmas. Minha infância foi muito boa. É o que sempre falo, nós brincávamos muito na rua de roda, taco, esconde-esconde etc. O Jaraguá recebeu luz na década de 70 e nós ficávamos até tarde brincando na rua. Hoje em dia não tem mais isso, os jovens e até as crianças só pensam em beber e usar drogas. Isso não é diversão. Acho que minha infância foi muito boa. Meu pai foi rígido e acho que é isso que falta hoje em dia, viu? Falta um pouco de limite por parte dos pais. Tínhamos hora para tudo quando crianças e respeitávamos nossos pais.


JC ? Você participa de projetos sociais no Jaraguá?

Cidinha ? Então, a nossa bateria hoje é o projeto de meu filho, o Sementes do Azulão, que funcionou três anos. Ela é formada por jovens de 10 a 17 anos, em sua maioria. Meu filho aprendeu a soldar dentro da escola de samba e isso traz uma renda extra a ele. Gostaríamos de desenvolver algum trabalho no sentido de gerar profissionalização aos meninos e meninas.


JC ? O que falta para impulsionar os projetos de vocês?

Cidinha ? Verba até já tivemos pelo Incentivo à Cultura, mas falta o espaço físico. Para você ter ideia, nós ensinamos a batucar na calçada da minha casa. Precisamos de espaço para desenvolver esse trabalho porque eles gostam. Se tivesse o espaço e uma pessoa que pudesse se dedicar mais dias por semana, porque só podemos aos domingos, tudo melhoraria. É muito gratificante ver uma criança recuperada. O mundo aí fora está terrível e você ver que uma criança saiu do caminho errado é excelente. Acho que os bairros precisam desenvolver projetos de lazer. No meu bairro, por exemplo, não vejo isso. Falta muito investimento. Há anos tínhamos disputas de campeonatos esportivos. Hoje, as coisas não são mais assim. Já tive horta comunitária também com mais de 150 crianças envolvidas. Elas gostavam do trabalho. Falta espaço para as crianças.


JC ? Quais são as suas atividades fora do samba e do futebol?

Cidinha ? Como eu disse, eu gosto mesmo é de estar ao lado de muitas pessoas. Gosto de festa (risos). Profissionalmente eu tenho uma loja montada em casa e trabalho como funcionária pública, sou servente de uma escola. Há 15 anos trabalho no Fortunato Rocha Lima.


JC ? Quais são seus projetos?

Cidinha ? São de cunho social. Como já disse, gostaria muito de ter um espaço para desenvolver trabalhos sociais com as crianças, como o futebol, por exemplo. Os pequenos chegam até minha família e perguntam quando vão disputar campeonatos e não dá, porque precisamos de ajuda para seguir com o projeto. Estou com esperança de que o novo secretário da Semel invista nos campos dos bairros. Temos alguns talentos revelados no Noroeste, como o Marcelinho e o Fumaça, por exemplo.


JC ? Uma tristeza que ficou.

Cidinha ? A morte de minha mãe. Perder uma mãe é muito triste. Ela morreu há oito anos e ainda me emociono muito sempre que falo sobre isso.

JC ? Uma grande alegria.

Cidinha ? Graças a Deus, alegrias tenho muitas. Cada nascimento de um filho, de um neto... E ver minha escola ser campeã também é uma alegria sem tamanho.


JC ? Uma mensagem.

Cidinha - O que eu gostaria de dizer vai de encontro aos pais. Como trabalho em escola, eu vejo que os pais precisam trabalhar muito para o sustento da família e acabam deixando os filhos soltos, sozinhos. Acho que os pais deveriam participar mais da vida de seus filhos, saber por onde e com quem andam. Digo isso para as pessoas que eu conheço. Se você acompanha seu filho, dá tempo de corrigir os erros que eles possam cometer, já se você solta demais, não. Tem criança que fica o dia todo na minha casa e os pais nem sabem por onde andam, eu é que preciso dizer que eles têm de ir para casa. Mas lá é um ambiente bom, só que nem todas as casas e lugares são assim. Fico indignada com os pais cujos filhos passam o dia todo fora e nem se preocupam em saber se estão bem, se estudaram, se tomaram banho, se comeram... Eu não gosto de coisa errada e por isso peço que os pais sejam mais presentes na vida dos filhos. As drogas estão roubando nossas crianças e essa é uma realidade muito triste.

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