?Ainda menino, milagre da luz me fascinava?
Você ainda se lembra do seu sonho de infância? Em uma época em que a energia elétrica ainda era um luxo para muitos bauruenses, o menino Braz Melero sonhava em levar o milagre da eletricidade para quem não tinha. "Ficávamos esperando o milagre da luz. Para mim era fascinante passar por uma rua iluminada ou entrar em uma casa com energia elétrica. Foi então que surgiu minha preocupação em direcionar ações que pudessem minimizar a angústia e o desconforto de famílias sem energia", lembra.
Com o passar dos anos, o sonho cresceu com o menino que se preparou e passou em um processo seletivo da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). Dez meses depois, ele foi o primeiro gerente do recém-criado Setor Técnico de Marília, que abrangia 14 cidades.
O próximo passo foi ser o primeiro gerente do maior distrito da CPFL, o de Campinas Sul e, depois, voltar para Bauru para assumir a Regional, que cobria 88 localidades e era o mais elevado nível que um empregado poderia assumir na CPFL. "Costumo dizer que desafiei a física fazendo com que a menor distância entre Marília e Bauru fosse passar por Campinas", brinca.
Há oito anos como vice-presidente da Apae de Bauru, Braz também fala sobre a importância do trabalho voluntário e da família. Acompanhe os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Quem foi o menino Braz?
Braz Melero - Lembro-me com carinho da minha infância. Foi uma infância com pouca informação, mas era bastante livre. Não havia cercas nas residências ou limitações de espaço. Tive oportunidade de interagir com outras crianças. Vivia de maneira mais rústica e rude, se compararmos com as crianças de hoje, porém, vivia de maneira mais espontânea, mais livre.
JC - Qual era o seu sonho profissional?
Braz - Eu tinha fascínio por trabalhar como leiturista da CPFL. A empresa sempre exerceu em mim um grande fascínio, isso porque, em um período de minha infância, eu morei em residência sem eletricidade, mesmo na cidade. Ficávamos esperando o milagre da luz. Para mim era fascinante passar por uma rua iluminada ou entrar em uma casa com energia elétrica. Foi então que surgiu minha preocupação em direcionar ações que pudessem minimizar a angústia e o desconforto de famílias sem energia.
JC - E quando começou sua vida profissional?
Braz - Vim de uma família humilde. Meu pai era caminhoneiro e minha mãe cuidava de sete filhos. Meu primeiro emprego veio aos 12 anos de idade em uma lavanderia. Eu fazia coleta e entrega de roupas. Meu veículo era uma bicicleta. Na época, tentei ingressar na CPFL como leiturista, sempre visando ascensão profissional, mas não consegui. Também trabalhei durante oitos anos na multinacional Texaco, até entrar na CPFL.
JC - E como começou sua carreira na CPFL?
Braz - Eu tinha 22 anos quando passei em um processo seletivo externo, em 1972. Minha preparação foi grande. Já tinha a faculdade de tecnologia e estava cursando o 4.º ano de engenharia elétrica. Depois ainda fiz faculdade de administração de empresas. Com dez meses na companhia, eu passei em um processo seletivo interno e fui o primeiro gerente do recém-criado Setor Técnico de Marília, que abrangia 14 cidades. Em 1985, fui o primeiro gerente do maior distrito da CPFL, o de Campinas Sul. Já em 1987, retornei a Bauru para assumir a Regional, que cobria 88 localidades. Este era o mais elevado nível que um empregado poderia assumir na CPFL, tendo em vista que a direção da empresa era indicação feita pelo governo de São Paulo. Costumo dizer que desafiei a física fazendo com que a menor distância entre Marília e Bauru fosse passar por Campinas (risos).
JC - Quais são as passagens mais marcantes de sua carreira?
Braz - Tenho algumas. A CPFL fazia de cada uma das cinco regionais uma miniempresa e a gente era avaliado por níveis técnicos, comerciais, administrativos e econômicos. E, no período em que estive à frente da regional de Bauru, em termos de fornecimento de energia, ou seja, continuidade de energia para o cliente e tempo de interrupção, foram os melhores índices de todo o Brasil. Outro fato marcante para mim foi o aspecto cultural. Com auxílio dos empregados ativos e aposentados e com a ajuda de várias pessoas da comunidade montamos o Museu Regional do Setor Elétrico, na sede da CPFL de Bauru. Além de realizar um trabalho cultural, pude aproximar pessoas que estavam aposentadas da empresa e que demonstraram alegria em voltar e serem úteis ao mostrar documentos e materiais sobre a instituição.
JC - Alguma história inesquecível?
Braz - Tenho uma fato que considero intrigante. Na adolescência, em uma frustrada tentativa de ingressar na CPFL, observei na sala de espera uma estátua de bronze, com três cavalos correndo e conduzidos por jóqueis. Pela placa constatei que o troféu se referia ao primeiro lugar na corrida de vendas de refrigeradores, na década de 30. Nunca mais vi a estátua, mesmo anos depois e já admitido na companhia. Contudo, em 1986, quando assumi a Regional de Bauru, ao adentrar à sala, depararei-me com a tal estátua. Surpreso, descobri que ela fora escondida para não ser levada para Campinas, por ocasião da montagem do museu que criaríamos e para ornamentar a sala do novo Regional. Foi uma coincidência que me intriga ainda hoje (risos).
JC - A CPFL proporcionou viagens?
Braz - Além de me dar a oportunidade de participar de toda a legislação que existe no setor elétrico que, de uma maneira ou de outra eu participei da elaboração, a empresa me proporcionou estágios e cursos em alguns países. Os mais marcantes foram a França, Alemanha, Espanha, Itália e Portugal. Tive a oportunidade de interagir com outros povos culturalmente.
JC - Já tinha planos para a aposentadoria?
Braz - Aposentei-me no fim da década de 80, aos 48 anos. Isso porque eu comecei a trabalhar bem jovem. Depois de aposentado, fui convidado pelo então prefeito Nilson Costa para trabalhar com ele como chefe de gabinete. Fui uma espécie de interlocutor entre a prefeitura e a CPFL. Tive a oportunidade de coordenar ações na prefeitura e, com isso, levei eletricidade para 2 mil pessoas que, em pleno ano 2000, ainda não tinham esses benefícios. Também trabalhei na Cohab por pouco mais de um ano, onde realizei obras importantes. O atual projeto de iluminação pública que está sendo colocado em prática está dentro das primícias que foram estabelecidas no plano que nós deixamos para a prefeitura na época que estive lá.
JC - E quanto ao trabalho na Apae?
Braz - Isso começou na década de 70, quando fui para Marília. Foram unidas algumas forças vivas na cidade no sentido de construir um prédio novo para a Apae, já que a instalação da época estava em lugar inadequado. A filosofia da empresa, na época, não permitia que se fosse um mero fornecedor de energia, ela previa a participação na comunidade. No início foi realmente pela filosofia da CPFL, mas depois fui me envolvendo e percebi o quanto a filantropia proporciona bem e prazer. Sou vice-diretor da Apae de Bauru há oito anos, mas estou na instituição desde o início da década de 70.
JC - O que o senhor vê como recompensa na filantropia?
Braz - A minha grande recompensa é perceber que sou uma pessoa privilegiada no mundo. Tenho uma família bem estruturada e uma condição que permite oferecer conforto aos meus filhos. Costumo dizer que, nas Apaes, mais especiais que os alunos são os pais deles. Isso porque eles convivem com a realidade de doação, de renúncia... Tudo para se dedicar 24 horas ao dia para aquele ser humano com deficiências.
JC - O senhor deve ter recebido algumas homenagens pela importância do seu trabalho!
Braz - Fui condecorado com o título de cidadão, moção de aplauso e hóspede oficial em câmaras municipais e prefeituras de algumas cidades ao longo dos 26 anos de trabalho na CPFL, quase sempre em cargos que possibilitaram o contato com a comunidade. Ainda na ativa, fui convidado muitas vezes para dar palestras em escolas e associações sobre eletricidade, falando sobre o uso racional, por exemplo. Fui coordenador regional da Defesa Civil do Interior, 7.a Região - REDEC, entre 1992 e 1993. Também fui integrante da diretoria e membro do Conselho da Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag).
JC - Acredita que fez o que deveria ter feito ao longo desses anos?
Braz - De uma maneira geral, sim. Mas acho que poderia ter agido um pouco mais racionalmente. Muitas vezes, o meu emocional superou o racional e tomei algumas decisões que poderiam ter sido melhores se eu tivesse agido com menos emoção e mais razão. Vejo muitas pessoas dizendo que fariam tudo outra vez. No meu caso, mudaria algumas coisas, sim. Sou uma pessoa privilegiada por ter dito oportunidades.