Na era da globalização, do encurtamento dos espaços e tempos, onde o conhecimento impera como esfera essencial à sobrevivência, do ápice do capitalismo desenfreado, não podemos deixar de perceber que esbarramos o tempo todo nos paradoxos, sejam eles políticos, financeiros, emocionais, educacionais, sociais ou familiares. De certa forma, os paradoxos são benéficos, pois nos levam a pensar e a cogitar outras possibilidades para um mesmo problema ou assunto. Afinal um pensador sem paradoxo é como um amante sem paixão, um sujeito medíocre. É exatamente este o ponto: até onde a mediocridade de uma sociedade pode interferir nos reais valores de um cidadão? A ponto dele perder a noção de pertencimento do outro, além de si próprio, de perder a noção de reflexão entre o "eu" e "tu", onde a categoria primordial da palavra é o "entre", palavra princípio que estabelece um vínculo que fundamenta a existência humana, onde a relação lhe é essencial para uma existência fundada no diálogo.
Neste nível, palavra e práxis se confundem, e a resposta pode ser amor. Amor não é algo possuído pelo "eu", os sentimentos o homem os possui. Porém, o amor é algo que acontece entre dois seres humanos, relação vivida pela reciprocidade, responsabilidade, sobretudo o respeito pelo outro, um vínculo transcendendo o nível moral para um nível mais amplo, o da ética, onde o critério de maior valor repousa sobre a reciprocidade.
Um fato ocorrido há alguns dias, na cidade de Guaimbê, região de Marília, onde uma professora foi agredida em sala de aula por um aluno apenas por pedir silêncio, nos remetem a outros tantos fatos como estes constante na mídia. Estes profissionais agredidos dentro das escolas nos levam a refletir que algo está errado nessas ações meteóricas prestes a colidir. Estamos vivendo situações de profunda crise e cisões de relacionamentos no mundo dos homens entre o "eu-tu", da ruptura do diálogo e alicerçando o "eu-isso", do ser egoístico, sem noção de limites, da eclipse de Deus.
Essa dualidade de ações vem tornando o "ser" contemporâneo extremamente perigoso para si e para os outros. Um ser de relações rasas, de total falta de princípios, incapaz de transceder, de amar, haja vista quantos noticiários de assassinatos. O homem possui sentimentos. O amor não é o único. O ódio é face da mesma moeda e esta, ultimamente, possui um único lado. Há de se pensar nisso. Não podemos estar condenados à nossa própria existência, nos tornarmos uma "coisa" nas mãos de um "eu" cego e egocêntrico. A palavra "eu-tu" só pode ser proferida pelo "ser" na sua totalidade de princípios, limites , respeito, sentir, ouvir, entender...
Diante disso, parabenizo o promotor Aroldo Giavarizada, que, sabiamente, pediu ao juiz Sansão Ferreira Barreto, que recolhesse o garoto à Fundação Casa para que o mesmo, neste período, pudesse refletir sobre seus atos e pensar na possibilidade da existência do outro, que as conseqüências de suas ações devem e precisam ser repensadas, para que ele entenda que existem parâmetros para uma convivência equilibrada em sociedade. Talvez ele não as tenha apreendido até então, sendo este um bom momento de aprendizado.
Quanto à escola, com certeza ela estará de portas abertas para este cidadão assim que este momento de reflexão acontecer, pois o espaço escolar não é só de aprendizados curriculares, muito menos de exclusão, mas sim de formação de valores, regras, formação de caráter, de cidadãos reflexivos, tornando-os aptos à vida em sociedade. Quanto aos professores, eles merecem atenção especial da sociedade, do poder público, para que possam desenvolver suas atividades sem se tornar tão vulneráveis a esses atos, onde a relação atual envolve aceitação e passividade diante dos fatos que colidem com sua integridade, pois o magistério hoje é de altíssimo risco, levando excelentes profissionais a desistirem da profissão por se sentirem ameaçados em locais tão insalubres, onde, muitas vezes, só se consegue trabalhar com a polícia na porta.
Quanto aos pais, que estes repensem que tipo de cidadão estão formando, que valores seus filhos possuem. Serão eles capazes de entender a relação "eu-tu" com a clareza do termo "entre eu e você", que pode, e antes de tudo "deve", existir as palavras respeito e afeto. Se o homem não pode viver sem o "isso", não se pode esquecer que aquele que vive só com "isso" não é homem.
A autora, Alvenir Alencar Mota, é professora e coordenadora na rede estadual de ensino - mestre em geografia e pedagoga, formada pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul