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Entrevista da Semana: João Carlos Previdello

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 10 min

Entrega de corpo, alma e muito coração


Um emotivo confesso. Também cauteloso, cada atividade realizada por João Carlos Previdello ao longo dos seus 65 anos de vida conquista a dedicação do empresário aos pouquinhos. É com o tempo que ele acaba entregando-se de corpo, alma e muito coração. "O coração pesa bastante, sou muito emotivo, com novela já dá para chorar", confessa. O legado deixado pelo pai Roberto em parceria com o então prefeito Alcides Franciscato, o Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (Cips) - já considerado uma das 400 melhores entidades beneficentes do Brasil e, em 2007, premiado como um dos 23 melhores programas de atendimento social de São Paulo - é uma das principais realizações pessoais do empresário, que assumiu o trabalho social como missão de vida.

"Cada pessoa tem uma incumbência e eu tenho convicção de que essa é a minha", diz sobre a instituição que, no ano passado, completou 50 anos de existência. A entidade foi fundada pelo pai de Previdello e pelo ex-prefeito e ex-deputado Alcides Franciscato, e atualmente atende cerca de 2.100 alunos de 5 a 16 anos. "Essa foi a grande e melhor herança que meu pai me deixou".

Pai de inúmeros filhos - as duas meninas fruto do casamento de 42 anos, os mais de 42 mil jovens já formados e habilitados pelo Cips para encarar o mercado de trabalho e as cerca de 500 orquídeas que cultiva com carinho - Previdello considera a família a sua fonte de energia e força. Se muitos elegem um dia da semana como o seu preferido, para o empresário um horário é sagrado: às 13h30, quando reúne-se com a família, diária e religiosamente para almoçar. "A família, as plantas e a religião são os meus três pontos de sustentação espiritual", resume. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

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Jornal da Cidade - Como o trabalho social entrou na sua vida?

João Carlos Previdello - Apesar do meu pai ter se dedicado a isso a vida inteira, foi meio por acaso que fui me envolvendo. Antes do Cips, chegamos a trabalhar um pouco juntos na área assistencial na Sociedade Beneficente Cristã, onde aprendi muito com ?seo? Paiva, uma pessoa iluminada, com quem aprendi a respeitar as pessoas que necessitam. Não esqueço do dia em que ele me contou a história de um funcionário que reclamou para ele: ?puxa, eu trabalho, dou sangue e a pessoa vem aqui, pega tudo de graça; e ele falou: ?experimente ter que se humilhar e ficar em uma fila, pedindo; a diferença é grande. Colaboramos lá por uns 10 anos até que houve uma discórdia de princípios e meu pai foi cuidar do Cips. Foi uma fase muito boa, porque eu conversava muito com meu pai, isso nos aproximou muito porque era algo forte para nós dois e, mais do que pai e filho, nos tornamos muito amigos.

JC - Isso foi decisivo para você dar continuidade ao trabalho dele?

Previdello - Essa foi a grande e melhor herança que meu pai me deixou. São coisas que foram marcando a minha vida, fui criando um vínculo muito forte e tendo essa necessidade de ajudar o próximo. É uma coisa que foi crescente e hoje eu não conseguiria, se não estivesse no Cips - porque um dia posso não estar lá, não sou dono, sou um sou mero administrador por um período - eu procuraria outra instituição, porque isso me faz falta.

JC - Quando você acabou assumindo as atividades do Cips?

Previdello - Meu pai e o Alcides Franciscato foram os fundadores do Cips há 51 anos. Um dia, quando meu pai já estava com uns 85 anos, ele me pediu uma opinião sobre a venda de um imóvel no Jardim Redentor e eu acabei intervindo para ele alugar. O Cips estava em uma situação difícil e o dinheiro do aluguel dessa empresa, durante cinco anos, praticamente pagava a folha de pagamento do Cips. E com isso eu fiquei lá ajudando, fui me envolvendo e fui ficando, por um motivo e por outro. Fui escolhido como vice-presidente e com o falecimento do meu pai, aos 92 anos, acabei assumindo a instituição.

JC - E essa não é sua única atividade?

Previdello - Não. Eu tenho uma loteadora, também sempre mexi com construção e a família tem muitos negócios que eu cuido. E o Cips, como sempre falo, primeiro é uma empresa, depois uma instituição; não dá para ser o contrário porque senão ele fecha no outro dia. Tem que ter responsabilidade, comando, hierarquia, senão não tem empresa que resista. Não é fácil fechar as contas no final do mês. Temos uma parte do poder público e a maioria nós conseguimos com recursos próprios; e eu acho justo que uma instituição tenha seus recursos e não depender só do Estado.

JC - Deve ter encontrado muitas boas pessoas pelo caminho.

Previdello - Muitas. Tem um amigo que me deu um apoio muito grande quando eu comecei, o Ricardo Alex de Oliveira; ele não gosta de aparecer, mas é uma pessoa espetacular e é quem cuida de toda a área administrativa do Cips. Fiz muitos amigos, todos pessoas com um coração muito grande e ajudam muito. Parece que advinham, quando a gente está precisando de uma coisa eles já chegam lá na porta; são histórias, empresários, parece que Deus envia a pessoa na hora certa.

JC - Alguma colaboração que o senhor recorda em especial?

Previdello -Tem uma história muito interessante de um empresário, que não me deixa falar o nome, mas ajudou muito. Perto do Cips tinha um depósito que foi comprado por uma empresa e eu, pensando no crescimento da instituição, pedi que um corretor amigo meu visse com esse empresário a possibilidade de trocar aquele espaço por uma área que eu tinha na Nuno de Assis. A diferença do preço nem se comparava, então o Cips ficaria só com parte daquele espaço. Perto de assinarmos o contrato, esse empresário foi conhecer o Cips e, quando ele saiu, falou para mim: ?João Carlos, vou doar o resto da área para você?. Isso foi muito bonito e o espaço é onde foi inaugurado o Conjunto Poliesportivo "Roberto Previdello".

JC - Qual é, para o senhor, a principal dificuldade para quem se dedica a trabalhos sociais?

Previdello - No caso do Cips, principalmente, e de outras instituições que tiram o menor da rua em Bauru, precisava que os empresários acreditassem mais nesse trabalho e dessem oportunidade. A grande dificuldade do Cips hoje é colocar, inserir o jovem no mercado de trabalho; muitos empresários querem um cara pronto, mas é preciso ter um pouco de paciência Ao dar essa oportunidade, o empresário estará fazendo uma caridade para ele mesmo, colocando luz na empresa dele e ajudando a comunidade em geral. Trata-se de uma coisa simples para o empresário, que devia ser multiplicada. A empresa precisa abrir as suas portas, para que toda a comunidade seja beneficiada.

JC - E qual é o sentimento ao encontrar algum jovem que passou pela instituição?

Previdello - Esses jovens têm poucas oportunidades, é muito importante que a gente dê a eles a atenção e o carinho que eles necessitam. Além da capacitação profissional, existe todo um esforço em se preencher as lacunas que esse jovem tem na formação, na estrutura familiar. Eu acho que a promoção é melhor que a assistência. Quando se colocou o nome do Cips, meu pai acertou em dizer consórcio de promoção social e não de assistência. A linha de pensamento dele de dar oportunidade às pessoas é no que eu acredito. E quando você entra em uma loja, em uma empresa - é difícil lembrar de todos porque todos os filhos têm a mesma carinha -, mas ver que eles não se esquecem de nós, isso é a gasolina que faz a gente continuar, isso é o grande incentivo para continuarmos esse trabalho.

JC - O senhor se sente recompensado por tanta dedicação?

Previdello - Com certeza e graças a Deus eu tenho um grande apoio da minha família. É uma coisa que vai te absorvendo aos poucos, e a medida que você vai tendo alegrias, realizações, você passa a incorporar na sua vontade, na sua maneira de viver e cada dia mais, você vê o resultado. Você cria amor, ali é uma família. Mas nada que me faça sentir superior. Acredito que Deus dá para cada um uma pílula diferente, porque se todo mundo gostasse disso, como seria? Cada pessoa tem uma missão, e missão para mim é incumbência. Eu tenho convicção de que essa é a missão da minha vida. Nada é por acaso, ninguém veio a passeio e todo mundo tem a sua incumbência e todas são igualmente importantes.

JC - O senhor é religioso?

Previdello - Sou espírita e acredito que a religião, independente de qual for, é muito importante para o ser humano porque nós não somos só matéria, temos espiritualidade e isso não encontramos sozinho. Você fazer uma prece sozinho em uma casa, lógico que tem muito valor, mas você fazer uma prece em um culto, o valor é dobrado, a força de todas as pessoas é muito grande. Estou montando um centro agora, junto com o Ricardo Alex, que será dedicado a jovens e crianças. Vamos começar as atividades lentamente, mas esse ano ainda. Colocamos o nome de Centro Chico Xavier Bauru, em homenagem ao médium, que primeiro foi um grande amigo do meu pai e também pelo seu trabalho e exemplo. Estamos com bastante expectativa de que seja mais uma luz dentro de Bauru.

JC - O senhor parece dar também bastante valor à família.

Previdello - A família me dá muita sustentação, muito apoio. Tenho duas filhas, ambas já casadas, e a que mora em Bauru almoça em casa todos os dias. Sempre às 13h30 nos encontramos e isso é sagrado para nós, uma coisa que não abrimos mão, uma boa hora da parte do meu dia é essa. E não é uma dependência dela, é carinho mesmo. Não faço família só aos domingos, procuro fazer todos os dias.

JC - E a outra filha?

Previdello - A Alessandra mora nos Estados Unidos com o marido e meus netos. É uma coisa difícil, hoje a Internet facilita bastante, mas às vezes prefiro falar por telefone, sem vê-los, porque assim dói menos. O legal do computador é que a gente consegue ver e acompanhar a vida deles quase em tempo real. Interessante como as coisas mudam. Ela lê todos os dias o Jornal da Cidade pela Internet. Sempre trocamos e-mails e ela comenta: ?nossa pai, aconteceu isso, aconteceu aquilo?. Está sempre ligada. Nem falei sobre a entrevista para ela se surpreender quando ler.

JC - E nas horas de lazer, o que gosta de fazer?

Previdello - Aos domingos, me dedico às minhas orquídeas. Hoje eu tenho um orquidário na nossa chácara, mas não sou um profissional, precisei estudar um pouquinho senão a gente não consegue ter flores. Comecei vagarosamente, até que construí um lugar apropriado. Hoje tem cerca de 500 e cada uma precisa de atenção como se fosse um filho. Para mim é uma terapia, mexer com planta me traz muita energia. A família e as plantas são a minha base e, juntamente com a religião, são os meus três pontos de sustentação espiritual. Gosto bastante também de jogar tênis, de onde vieram meus grandes amigos.

JC - E futebol, não acompanha?

Previdello - Não gosto muito de ir ao estádio, mas sou noroestino e torço também pelo Palmeiras. Mas o Noroeste vem em primeiro lugar. Acho que a cidade precisava gostar mais do Noroeste. Assumir o time, realmente, dentro do nosso coração. Mas o futebol hoje é muito profissionalizante, então às vezes não entendemos as coisas que acontecem, não aceitamos. Acho que o amor pela camisa foi deixado um pouco de lado.

JC - O Rotary também está presente no seu dia a dia, não é?

Previdello - Essa é outra coisa que eu gosto muito. Coincidentemente esse ano sou o presidente do Bauru Terra Branca. O Rotary tem a mesma característica das coisas que eu gosto de fazer, a questão de ajudar os outros, me propiciar muitos amigos. Além disso, você tem contato com todos os tipos de profissionais, conversa, aprende e se atualiza sobre tudo.


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Perfil


Nome: João Carlos Previdello

Idade: 65 anos

Local de nascimento: Bauru

Signo: Leão

Esposa: Maria Lúcia Ranieri Previdello

Filhos: Alessandra e Priscila

Hobby: Orquídeas

Livro de cabeceira: "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec

Filme preferido: Não assisto muito, mas prefiro os mais leves, para descontrair

Estilo musical predileto: Música clássica, popular, sou eclético

Time: Noroeste e Palmeiras

Para quem dá nota 10: Minha família

Para quem dá nota 0: Ao descaso à violência

E-mail: jprevidello@newbiz.com.br


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