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?Com 21 anos, eu estava largado?

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Para muitos, a juventude é a melhor fase da vida. É o momento de muitas conquistas, descobertas, experiências, aventuras. Mas tem quem se perde no meio disso tudo. Foi o que aconteceu com Daniel (nome fictício). Nascido em família de classe média, ele queria ser igual ao pai quando crescesse.

A imagem do homem bem-sucedido, bem vestido e que gostava de beber encantava o menino, que ainda se misturava com os brinquedos da infância. "Eu achava bonito quando via meu pai bebendo, de terno e gravata. Eu queria ser igual a ele", relata. Na cabeça do garoto, a bebida ficou associada ao sucesso.

Como resultado, aos 12 anos Daniel já era um consumidor de bebida alcoólica. Menos de dez anos depois, as consequências disso trouxeram grandes problemas para ele.

Nesse intervalo, além do álcool, foram se somando outras drogas, entre elas a cocaína.

"No começo, eu consumia nos fins de semana. Depois foi aumentando, até se tornar um hábito diário", lembra.

Daniel perdeu emprego, namorada e os verdadeiros amigos. Deixou de fazer atividades físicas, como jogar futebol, para ficar com as pessoas que, assim como ele, só estavam interessadas em beber e consumir drogas.

Ele iniciou a faculdade, mas não foi além do primeiro ano. Todo o dinheiro que ele tinha era usado para comprar drogas. Por causa dos desentendimentos com a família, Daniel saiu de casa.

"Com 21 anos, eu estava largado", afirma. Sem perspectiva de futuro, apesar de uma vida inteira ainda pela frente, Daniel decidiu, em um raro momento de lucidez, que não queria mais sofrer.

A partir daí, foi em busca de ajuda. Inicialmente, procurou o Centro de Apoio Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD), mas não levou o tratamento muito a sério. A situação só começou a melhorar quando ele resolveu encarar o desafio com seriedade.

E o grupo Alcoólicos Anônimos (AA) teve uma importância muito grande no processo de recuperação. "Tive de aprender a lidar com o dinheiro, com a timidez. Descobri uma nova vida e o prazer de viver. Antes, eu ia para a praia e não colocava o pé na água. Ficava o tempo todo em um quiosque, bebendo", relata.

Segundo ele, o medo da recaída sempre atormenta. Mas já se passaram dois anos sem colocar uma gota de álcool na boca. "Eu vivia no inferno. Agora, voltei a ter prazer em viver", diz. Talvez, sabendo a diferença entre esses mundos, Daniel terá uma força extra para continuar lutando.

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Em 16 anos, jovem teve 31 internações


Jaime (nome fictício) tem 33 anos. Filho de pai alcoolista, ele começou a beber ainda na infância, quando tinha apenas 8 anos. "Eu sempre tomava o que sobrava no fundo do copo", conta ele sobre o início do vício, quando esperava o pai terminar de beber para dar o último gole.

Aos 17 anos, veio a primeira internação em clínica de desintoxicação. A primeira de muitas. Desde então, passaram-se 16 anos e, durante esse tempo, Jaime esteve internado 31 vezes, o que significa uma média de duas internações por ano. Desse total, 17 internações foram em clínicas e hospitais psiquiátricos, que normalmente atendem aos casos mais graves, como os transtornos psicóticos, compulsivo, obsessivo, etc.

"Posso dizer que cheguei ao fundo do poço. Eu me sentia como se fosse a sola do meu sapato", compara. Jaime lembra que, aos 9 anos, teve uma experiência muito desagradável por causa do costume, que ele já havia adquirido, de consumir bebida alcoólica.

Ele conta que estava com outros amigos da mesma idade quando encontraram um despacho de macumba. Enquanto os amigos avançaram sobre os doces, ele foi na garrafa de pinga. Depois de vários goles, Jaime "apagou". "Só me lembro da minha mãe saindo comigo do hospital. O que aconteceu antes disso, não me recordo."

Apesar do susto, nada mudou. Ou melhor, mudou para pior. O garoto continuou com a bebida e ainda acrescentou outras drogas, como maconha e depois cocaína. "Eu era extremamente tímido e essas drogas me ajudavam a criar coragem", relata.

Jaime não tinha a mínima vontade de trabalhar nem de estudar. Completou a 7ª série e não tinha forças nem ânimo para terminar o ensino fundamental. Diante disso, ele comprou o diploma de conclusão do ensino fundamental. Mais tarde, ingressou no ensino médio, mas parou no primeiro ano.

"Eu fiz minha mãe sofrer muito. Até hoje tento reparar esse sofrimento. Meu pai morreu aos 53 anos, em decorrência do alcoolismo", comenta. Atualmente, Jaime frequenta as reuniões do Alcoólicos Anônimos (AA) e atribui a elas sua abstinência de quase dois anos.

Com isso, aos poucos, vai reconquistando o que havia perdido. "Minha família está comigo. Tudo vai voltando, depois de ter perdido muita coisa", comemora.

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